Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e colaboradores alemães desenvolveram uma estratégia inovadora para a produção de vacinas. Em artigo publicado na revista npj Vaccines, o grupo apresenta a criação de um “imunizante inteligente” a partir de uma versão geneticamente modificada do vírus chikungunya. A grande vantagem dessa tecnologia é que o patógeno só consegue se replicar uma vez no organismo – o estímulo exato e seguro para treinar o sistema imune a gerar anticorpos, sem apresentar riscos de causar a doença.
Formulação ainda é experimental e foi testada em camundongos Foto: Phichak/Adobe Stock
Nos testes iniciais feitos em camundongos, uma única dose da formulação foi capaz de proteger os roedores. Mais do que uma solução promissora contra o chikungunya, os resultados abrem caminho para a consolidação de uma nova plataforma vacinal, cuja base tecnológica poderá ser adaptada para o combate a outras doenças no futuro.
“A ideia foi criar um vírus que entra na célula e ativa o sistema imune, mas é fisicamente incapaz de se tornar infeccioso. Assim, o imunizado não apresenta sintomas nem corre o risco de desenvolver a doença. Isso é importante, pois permite uma proteção robusta sem risco de efeitos colaterais, ampliando o uso também para pessoas imunossuprimidas e idosos”, explica Danillo Lucas Alves Esposito, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP) e primeiro autor do estudo.
A investigação recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio de três projetos e foi conduzida em parceria com uma equipe da Universidade de Bonn (Alemanha).
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Estratégia inédita
Tradicionalmente, as vacinas são produzidas para treinar o sistema imune a partir de vírus atenuados (enfraquecidos por meio de mutações genéticas) ou inativados (incapazes de se replicar).
Mais recentemente, a ciência desenvolveu tecnologias que dispensam o uso do patógeno inteiro. Surgiram assim as vacinas:
- de subunidades proteicas, feitas apenas com fragmentos isolados do vírus;
- recombinantes, que utilizam proteínas virais produzidas artificialmente em laboratório;
- conjugadas, que unem um pedaço do patógeno a uma proteína mais forte para potencializar a resposta imune;
- de vetor viral, que usam um vírus inofensivo como “veículo” de entrega do antígeno.
Há ainda as modernas vacinas de DNA e RNA, que fornecem as instruções genéticas para que as próprias células do paciente fabriquem a proteína viral e gerem a defesa imunológica.
A nova plataforma proposta no estudo utiliza uma estratégia inédita baseada na inoculação de vírus incapazes de completar a maturação dentro da célula do hospedeiro e de se tornarem infecciosos, apesar de garantir a proteção contra infecções futuras.
“Isso é importante, pois hoje temos uma vacina de vírus atenuado contra o chikungunya que, após um período de suspensão, em 2025, voltou a ser aprovada pelo FDA (agência norte-americana que regula medicamentos), porém com restrições. Ela não é indicada para pessoas muito jovens, idosos, imunocomprometidos ou que têm algumas comorbidades (doenças associadas), pois pode gerar efeitos adversos”, comenta o pesquisador.
Ainda segundo Esposito, quase todo vírus passa por um processo de maturação fundamental para se tornar infeccioso. No caso dos patógenos transmitidos por insetos (arbovírus) – como os causadores da febre chikungunya, da zika, da dengue e da febre amarela –, essa maturação acontece no final do ciclo de replicação dentro da célula hospedeira.
“Especificamente no caso do chikungunya, a maturação depende da remoção de uma proteína de superfície (E3), que cobre a proteína responsável por permitir a entrada do vírus na célula (E2). Quando a E3 não é removida, a E2 não fica exposta e o vírus não consegue infectar”, explica o pesquisador à Agência Fapesp.
No ciclo natural do vírus chikungunya, quem tem a função de retirar a proteína E3 e permitir que a E2 atue como chave para invadir a próxima célula é a furina, uma enzima do hospedeiro. Para impedir esse processo e conseguir desenvolver o imunizante com o vírus ainda imaturo, os cientistas utilizaram uma linhagem de células humanas que não possui a enzima furina.
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Replicação controlada
Para gerar uma resposta imune eficiente, explica Esposito, o vírus da vacina precisa se replicar ao menos uma vez dentro das células. O desafio dos cientistas era permitir essa etapa inicial sem que o patógeno continuasse se multiplicando. Para isso, eles modificaram o genoma viral, substituindo o local de ação da furina por uma sequência reconhecida pela enzima do vírus da corrosão do tabaco (TEV), que infecta exclusivamente plantas. Por ser uma enzima totalmente ausente em humanos e mosquitos, essa alteração garante que o patógeno não consiga completar novos ciclos de infecção após a aplicação da vacina.
“Assim, o vírus é ‘ativado’ artificialmente antes da vacinação. Mas, como essa enzima não está presente no organismo humano, o patógeno não consegue realizar novas infecções”, comenta o pesquisador.
Após essa primeira replicação controlada, todos os vírus produzidos já nascem imaturos e incapazes de infectar outras células. “Eles funcionam apenas como antígenos, servindo de modelo para o sistema imune”, completa.
Outro dado interessante do estudo foi que, além da proteção contra o chikungunya, os animais imunizados mostraram capacidade de neutralizar o vírus mayaro, sugerindo um potencial protetor mais amplo. “Como vários arbovírus dependem da furina para se tornarem infecciosos, a plataforma pode ser adaptada para zika, febre amarela e até variantes do SARS-CoV‑2 (o vírus da covid-19), por exemplo”, diz.
Além de buscar avançar com os testes clínicos da vacina contra o chikungunya, o grupo pretende adaptar essa plataforma vacinal para outros arbovírus.