A vaga de ataques com drones a refinarias e depósitos de combustível está a expor as limitações da defesa antiaérea russa. Forçado a dispersar baterias por milhões de quilómetros quadrados para proteger infraestruturas críticas, o Kremlin vê-se perante um dilema estratégico que pode abalar o regime

A Rússia voltou a acordar com imagens de mais uma refinaria em chamas, após nova vaga de ataques de drones ucranianos. Desta vez, o alvo foi a refinaria de Kstovo, na região de Nizhny Novgorod, uma infraestrutura responsável pela produção de 11% da gasolina do país. Esta está longe de ser a única instalação petrolífera russa atingida e, apesar de a Rússia deter uma das mais densas e extensas redes de defesa antiaérea do mundo, as perspetivas são de que o cenário piore face à evolução da estratégia de Kiev.

“Os ucranianos mudaram de estratégia e têm abatido uma série de radares de defesa aérea nos territórios ocupados pela Rússia. Só que com a intensificação dos ataques ucranianos, Moscovo ficou obrigada a puxar radares da linha da frente para proteger infraestruturas críticas”, explica o tenente-general Rafael Martins, especialista em Assuntos Militares.

Ao longo dos últimos meses, a Ucrânia tem intensificado a campanha de ataques contra radares russos, com o objetivo de “cegar” as forças russas. E estes ataques estão a atingir alvos cada vez mais distantes da frente. No início do mês, a Ucrânia partilhou imagens de um conjunto de ataques que atingiu mais de sete radares a 270 quilómetros da linha da frente, na região de Krasnodar. Passadas poucas semanas, os drones ucranianos regressaram à região, mas desta vez para atingir estruturas portuárias e armazéns logísticos de empresas russas.

Incursões como a da madrugada desta quarta-feira em Kstovo mostram a dificuldade de Moscovo em suster o ritmo de ataques quase diários de Kiev. A estratégia ucraniana aposta na saturação continuada através de vagas de drones contra alvos altamente inflamáveis e raramente protegidos, onde apenas um ou dois drones são capazes de desencadear danos de grandes dimensões.

Isto só é possível porque a Ucrânia foi capaz de transformar aquele que foi sempre um dos maiores trunfos estratégicos da Rússia – a sua dimensão territorial – numa das suas principais fraquezas. Com refinarias, oleodutos e terminais petrolíferos dispersos em milhões de quilómetros quadrados, o Kremlin é confrontado com um dilema praticamente impossível de resolver. Ou as Forças Armadas tentam proteger todas as infraestruturas em simultâneo ou abdicam da sua eficaz doutrina de defesa em camadas sobrepostas. 

“Existem tantos alvos potenciais que a Rússia precisa de tentar defender. À medida que a Ucrânia obriga a Rússia a dispersar as suas defesas aéreas por uma área muito mais vasta, verifica-se uma perda desproporcional de eficácia”, explica Justin Bronk, investigador do Royal United Services Institute, especialista em poder aéreo, ao Kyiv Independent. 

Isto acontece porque o escudo antiaéreo russo funciona por camadas, como uma “cebola”. No topo estão os sistemas de longo alcance, como os S-400 ou S-300, criados para detetar e abater alvos a centenas de quilómetros. Depois existem os sistemas de médio alcance, como os sistemas Buk ou Tor, que cobrem distâncias até 50 quilómetros. A última linha de defesa fica à responsabilidade dos Pantsir-S1, encarregues de abater tudo o que os outros dois não consigam intercetar. 

O segredo da eficácia deste sistema está na integração destas camadas no mesmo espaço geográfico. Quando a Ucrânia força a Rússia a espalhar estas baterias por milhares de quilómetros para cobrir refinarias isoladas, o escudo perde a densidade e deixa brechas que são exploradas por Kiev.  

“Mas é preciso ter em conta a saturação. A Ucrânia está a lançar centenas de drones por noite. Às vezes, Moscovo afirma que abateu 400 drones. Mas basta terem passado dez para os estragos serem tremendos”, explica o tenente-general Rafael Martins. 

Além do mais, Kiev sabe bem o que é estar do outro lado destes ataques e o quão desfavorável é a matemática da defesa antiaérea. Enquanto a Ucrânia lança drones que custam poucas dezenas de milhares de euros e que podem ser produzidos às dezenas de milhares por ano, os mísseis interceptores podem custar milhões por unidade e demoram muito tempo a produzir, devido à complexidade da tecnologia em causa. As forças ucranianas conhecem bem este problema, devido à falta de mísseis interceptores Pac-3 para os sistemas norte-americanos Patriot.

Esta assimetria está a provocar um desgaste acelerado nos arsenais de curto alcance como o Pantsir, forçando a Rússia a queimar munições a um ritmo superior à sua capacidade de produção industrial. E este problema agrava-se nas fábricas russas, porque as perdas acumuladas de centenas de radares e lançadores desde o início da guerra não são fáceis de repor.  A indústria de defesa russa, sujeita a pesadas sanções internacionais, enfrenta estrangulamentos no acesso a componentes críticos para a reposição destes equipamentos, estando a recorrer cada vez mais à canibalização das reservas soviéticas.

Este cenário está a fazer com que a Rússia esteja cada vez mais dependente de helicópteros e dos seus sistemas de médio e longo alcance para intercetar drones ucranianos que voam quase todas as noites em direção a infraestruturas russas. 

Esta terça-feira, as autoridades de Moscovo admitiram que não têm capacidade de proteger todas as refinarias da região em caso de ataque ucraniano, admitindo ainda que estão a prever uma onda de falências de pequenas e médias empresas na sequência dos ataques à Wildberries, o gigante do comércio digital russo, que tem visto os seus armazéns a ser destruídos um pouco por todo o país.

Horas mais tarde, o presidente russo, Vladimir Putin, assinou um decreto que permite ao Estado russo tomar controlo de infraestruturas críticas caso os seus operadores privados não sejam capazes de as proteger. A decisão acontece numa altura em que diversas regiões do país estão a ter dificuldades no fornecimento de combustível, em vésperas de eleições.

O resultado é um efeito dominó que atinge o coração económico do regime. Ao golpear refinarias e paralisar unidades de destilação cruciais, Kiev não só obriga o Kremlin a redistribuir meios militares vitais da linha da frente, como reduz a capacidade de produção de combustíveis e as receitas energéticas que financiam a própria invasão.

“O próprio Putin emitiu um decreto que aponta que empresas e infraestruturas que não consigam defender as suas infraestruturas ele passa a nacionalizá-las. Isto confere ao governo de extrair dessas empresas as receitas desse negócio, é outra forma de se financiar, num momento em que precisa de fundos”, explica Rafael Martins. 

Ao atingir refinarias, destruir radares e paralisar unidades de processamento cruciais, Kiev conseguiu transformar uma campanha de drones de baixo custo num estrangulamento estratégico. Sem conseguir repor o seu escudo antiaéreo ao ritmo das perdas, o Kremlin vê-se obrigado a escolher entre proteger as tropas que combatem na Ucrânia ou as infraestruturas que pagam a própria invasão. 

“Não existem recursos para defender tudo. Depósitos de refinarias, refinarias, centros logísticos, estão espalhados por várias cidades. A Rússia não vai conseguir ter defesa aérea nos sítios todos”, frisa o tenente-general.