Na primeira vez em que Sebastian Rojas fotografou Teahupoo, João Chumbinho, na foto não era nem nascido ainda. E Sebá era o único fotografo no pico.
O Brasil tem grandes fotógrafos de surfe, mas talvez nenhum com uma trajetória tão marcante quanto a de Sebastian Rojas. Aliás, muitos dos fotógrafos espalhados pelas praias do extenso litoral brasileiro têm o trabalho de Sebá, como ele é mais chamado na praia, como referência e inspiração. E entre seus discípulos mais assíduos, estão também aqueles que frequentaram seus cursos, aprendendo diretamente com ele os segredos do clique perfeito. Especialmente as dicas do que fazer para sobreviver no ambiente desafiador que o Tião Vermelho, mais um dos seus apelidos, dominou como ninguém, que é a fotografia de dentro d’água.
Pois bem, depois de décadas viajando o planeta como principal fotógrafo da revista Fluir, a publicação líder no segmento surfe no Brasil, Sebastian Rojas teve que buscar novos rumos para sua carreira. À medida que tudo que era impresso foi sucumbindo diante do rolo compressor que se tornou a mídia digital, ele passou a focar em atender uma seleta clientela de surfistas que desejava ter uma foto sua clicada pelo grande mestre das lentes. Além de também seguir ministrando suas aulas por todo o Brasil.
Sebá voltou ao cenário onde registrou a foto de Carlos Burle que foi capa da revista Fluir em 1999.
Isso fez com que diminuísse a frequência de suas viagens internacionais, ainda que continuasse batendo ponto no Havaí por vários anos. Até que veio o momento de uma virada inesperada em sua carreira, que o levou a mudar do Guarujá para o interior de São Paulo. Foi quando recebeu o convite para ser um dos fotógrafos oficiais da primeira piscina de ondas a ser inaugurada no país, a Praia da Grama, em Itupeva.
Desde então, lá se vão mais de dois anos, Sebá praticamente só fez imagens de ondas artificiais. Apesar de colocar o mesmo empenho e obter resultados sensacionais na nova modalidade de fotografia, ele vinha acumulando uma grande saudade de registrar ondas de verdade. Principalmente na sua onda favorita no planeta, Teahupo’o, no Taiti. O icônico pico “No Fim da Estrada” é um lugar que ele já havia visitado várias vezes, inclusive como um dos pioneiros, na companhia de Carlos Burle, em 1999, expedição que rendeu uma matéria histórica com direito a capa e muitas páginas na Fluir.
Nada melhor do que voltar a fotografar seu pico preferido justo no maior dia do ano. Sebastian Rojas realizou o sonho pelo qual esperava há 15 anos.
Por uma daquelas coincidências presenteadas pelo destino, a Praia da Grama iniciou uma reforma às vésperas da entrada da maior ondulação do ano em Teahupo’o. Para tornar as coisas ainda mais interessantes, também no momento em que a elite do surfe mundial estava convergindo para a Polinésia Francesa devido ao iminente início do Lexus Tahiti Pro, prova do Circuito Mundial da WSL. Era a conjunção de motivos que Sebastian Rojas precisava para o reencontro com sua onda favorita, 15 anos após a última vez.
Para sorte do Waves e seus usuários, o site foi o escolhido por Sebá para receber seu emocionante relato e as imagens desta ocasião tão especial. Aproveite com a gente.
“A última vez que eu vim pra cá foi com o Adriano de Souza, o Mineirinho, se não me engano foi em 2010, então já fazem 15 anos. O Taiti sempre foi o meu lugar preferido. Devido às ondas e pela receptividade do povo local. A vibe geral da ilha e a simplicidade dos nativos, fazem que seja um lugar muito mais tranquilo que o Havaí.
Sempre se mantendo atualizado, Sebastian levou na bagagem seu drone, um equipamento que tem proporcionado a evolução do seu trabalho.
Parece o Havaí de 50 anos atrás e continua sendo continua sendo muito bem conservado. Não tem grandes edificações, voltei agora e percebi que continua bem parecido com o que era quando vim pela primeira vez. Os locais também, super generosos, continuam recebendo a gente muito bem, sempre fiquei aqui com o Marama, amigão de todos brasileiros. Quando nós chegamos aqui na década de 90, fomos pioneiros mesmo.
A primeira matéria que rolou de Teahupo’o foi com o Carlos Burle. Chegamos na onda sem nunca ter visto uma imagem, só ouvido falar do tubo no fim da estrada, pois o pico era conhecido como “The End of the Road”. Nós fomos sem barco e sem saber o que íamos encontrar, eu nadando com a caixa estanque, ele remando na prancha. Rendeu uma matéria na Fluir, fiz a capa com uma foto do Burle, e me apaixonei logo de cara pelo Taiti. Sempre curti demais essa vibração, essa tranquilidade, essa natureza exuberante, e claro, as ondas principalmente. O potencial de produzir altas imagens aqui é altíssimo.
Quando nadou carregando sua caixa estanque ao lado de Carlos Burle que foi remando em 1999, Sebastian e o big rider brasileiro nem sabiam o que iriam encontrar lá fora. Nunca imaginariam o canal lotado dos dias de hoje.
A água transparente, mar azul, é o sonho de qualquer fotógrafo vir pro Taiti e pegar um swell como está acontecendo agora aqui. Graças a Deus eu pude materializar o meu sonho de voltar ao Taiti 15 anos depois, só que com uma bomba, um big swell, para que eu pudesse trabalhar o que hoje é meu hobby. Talvez essa seja a palavra correta para descrever o que estou fazendo, sem pautas da Fluir para cumprir, sem ter de fazer foto para ninguém, só numa vibe de fazer a mente, de descansar também, dessa longa jornada de trabalho de dois anos na piscina.
Tava merecendo umas férias e poder reviver aquilo que eu sempre fazia, que era vim pra cá e curtir com a galera, dar umas risadas, curtir o povo que nos recebe com muito carinho. O que mais impressiona aqui em Teahupo’o, é o quanto você consegue estar tão próximo de uma onda gigante. Na condição que você tem aqui, o barco fica na cara. Praticamente todas as ondas, quando o mar tá grande, dão uma baforada que molha o barco inteiro. Isso não existe em nenhum lugar do mundo, um barco tão perto da onda.
Para Sebá, não existe nada mais fascinante que a força da natureza em Teahupoo.
O surfista quando sai do tubo quase bate no barco, tem que desviar, de tão próximo que a gente fica de uma onda tão intensa, perigosa e insana, Dezenas de barcos ficam muito próximos um do outros, não sei como não batem, os taitianos são muito bons pilotos. Eu trouxe minha esposa, a Regina, e ela ficou impressionada.
Eu falei, antes de vir pra cá, você precisa ver a oitava maravilha do mundo acontecendo na sua cara, muito perto. Tomamos várias baforadas da onda, nos molhamos inteiros. Essa proximidade da ação, de tudo aquilo que está acontecendo, a vibração da galera ali no canal depois que um surfista completa o tubo, o olhar, a expressão no rosto de cada um, é tudo muito marcante. A galera tá ali, colada numa onda amedrontadora, onde é possível você trazer sua câmera e fazer a imagem da vida. Mas só quem já veio ver um grande swell como esse pode dar um relato de como é a onda.
Consciente do tamanho do seu legado, Sebastian Rojas tem buscado compartilhar o conhecimento adquirido em décadas como um dos maiores fotógrafos de surfe do mundo, em palestras e cursos.
Claro, o Taiti tem várias outras boas ondas, mas essa daqui é a mais especial. Foi muito bom poder juntar os locais com os profissionais treinando para o campeonato e ainda com alguns podendo experimentar fazer um tow in. Alguns se atiraram lá, o Jack Robinson, o João Chianca, não sei se o Ítalo chegou a fazer tow-in, ele estava bem ativo na remada. Deu pra ver que muitos competidores estavam se resguardando, muitos nem surfaram esse swell grande, não queriam arriscar.
Vim também com o objetivo de, pela primeira vez, voar um drone aqui, nunca tinha feito isso. A adrenalina subiu, tomei uma baforada gigante no drone, que molhou inteiro, aí a câmera deu um probleminha e tal, mas voltou a funcionar, graças a Deus. Mas é uma baita adrenalina voar drone aqui, a onda dá umas baforadas que, se vacilar, derruba o drone. E também tem que tomar todo o cuidado com outros drones voando ao mesmo tempo. Essa missão foi a missão cumprida das minhas férias, fotografar como hobby. Estou muito feliz, de cabeça feita, realizado por poder ter voltado a uma terra que eu amo tanto”.
O elemento perigo de vida está sempre presente em Teahupoo, o que torna a missão do fotógrafo mais emocionante ainda. De Carlos Burle aos irmãos Chumbo, os personagens vão mudando, mas Sebastian Rojas segue registrando os grandes momentos do surfe brasileiro.
Sebastian Rojas regressou do Taiti com a mala pesada, carregada de imagens sensacionais. Feliz com mais um sonho realizado.