
Os fabricantes alemães de automóveis estão à procura de alternativas à China, aos EUA e à estagnação europeia. Mas chegaram tarde a muitos dos mercados onde agora querem crescer. “Faltou-lhes humildade”, diz um analista.
Não está nada fácil a vida para a Volkswagen, Mercedes e BMW.
Na China, as três principais fabricantes alemãs têm vindo a perder quota; ao mesmo tempo, nos EUA enfrentam a guerra de tarifas de Donald Trump.
Entre a espada e a parede, também o chão lhes começa a fugir na Europa, onde não esperam crescer grande coisa nos próximos anos.
Solução: procurar mercados alternativos com potencial de crescimento. Mas, quando olham agora para países como Índia, Indonésia, Tailândia, Brasil ou Argentina, encontram concorrentes que chegaram primeiro.
Segundo uma análise do Handelsblatt, baseada em dados da MarkLines, entre 2020 e 2025, as matrículas de automóveis cresceram mais de 44% nos 26 mercados analisados na Ásia, América do Sul e Oceânia.
As marcas alemãs avançaram menos de 24%.
Na Volkswagen há quem reconheça que a aposta na China durou demasiado tempo.
“Concentrámo-nos demasiado na China e não apostámos noutros mercados em crescimento na região, como a Índia”, dizem fontes do conselho de supervisão do grupo citadas pelo jornal alemão.
Indonésia, Filipinas, Vietname, Tailândia e Myanmar somam cerca de 635 milhões de habitantes, mas apenas 2,4 milhões de matrículas de automóveis. Na Índia vivem 1,5 mil milhões de pessoas e são vendidos cerca de 5,2 milhões de carros novos.
Segundo Stefan Bratzel, fundador e diretor do Center of Automotive Management (CAM), alguns destes mercados podem ter uma evolução semelhante à que a China teve no passado, mas as fabricantes alemãs chegaram tarde. “Faltou-lhes humildade”, diz.
Durante anos, tiveram uma vantagem: os países em desenvolvimento procuravam carros com motores de combustão, uma área em que as marcas alemãs eram fortes.
Houve quem tivesse aproveitado a oportunidade. A Stellantis vendeu 1,5 milhões de automóveis nestes mercados em 2025, mais 56% do que em 2020. A Tesla passou de cerca de 600 unidades para mais de 162.000.
O crescimento dos fabricantes chineses é ainda mais evidente.
Em 2020 vendiam apenas 4.400 carros nos mercados analisados. No ano passado ultrapassaram os 409.000. A BYD aumentou as vendas em 70% só no primeiro semestre deste ano.
Há uma dificuldade para os fabricantes alemães: muitos destes países compram carros baratos. As margens são menores e dificilmente compensarão depressa as receitas perdidas na China.
Para baixar custos, a Volkswagen já exporta quase 70.000 carros produzidos na China para países vizinhos e quer chegar a cerca de 250.000 por ano até 2030. O Uzbequistão é o primeiro desses mercados.
A BMW e Mercedes também estão a recorrer à produção ou montagem local.
Mas, uma vez mais, a BYD antecipou-se.
A fabricante chinesa já monta carros na Tailândia e, desde 2024, também no Uzbequistão, onde se instalou ainda antes de a Volkswagen ter apresentado o país como um novo mercado de crescimento.
E como diz a sabedoria popular, quem primeiro chega, primeiro se avia.