Primeiro grande discurso do líder da Fed segue convulsão (e intervenção do Tesouro) no mercado de dívida. Tendência para opacidade poderá enervar audiência (na qual estará Álvaro Santos Pereira).

  • Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal, enfrenta um desafio significativo ao discursar no simpósio de Jackson Hole, com investidores à espera de orientações sobre a política monetária.
  • A intervenção inesperada do Tesouro americano para estabilizar os mercados de obrigações, aumentando o volume das operações de recompra, reflete a pressão crescente sobre as taxas de juro.
  • As expectativas elevadas em torno do discurso de Warsh podem intensificar a volatilidade nos mercados, caso não consiga transmitir uma mensagem convincente sobre a política monetária futura.

“Se eu puder, no ar rarefeito das montanhas de Jackson, Wyoming, gostaria também de enquadrar as grandes questões”, afirmou Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal (Fed), a 29 de julho, lamentando a existência de “uma tendência — especialmente com a proliferação de reuniões e conferências de imprensa — de nos deixarmos absorver por uma visão míope”. Chegado o momento – esta sexta-feira – de discursar no simpósio de Jackson Hole, a margem para o chair do banco central americano pintar esse grande quadro está, no entanto, bastante mais reduzida, com os investidores a clamarem por pistas no meio de uma escalada nas yields e uma intervenção governamental para travá-la.

“O evento surge num momento delicado para os mercados obrigacionistas, que ainda estão a assimilar o sinal da semana passada, proveniente do anúncio surpresa da recompra de títulos do Tesouro“, referiram David Kohl e Dario Messi, economista-chefe e chefe de análise de fixed income, respetivamente, no banco privado suíço Julius Baer, numa nota de research.

O Tesouro americano anunciou na semana passada, de surpresa, que vai intervir no mercado de obrigações para travar a escalada das taxas de juro, planeando a partir de 10 de setembro pelo menos duplicar o volume das operações de recompra, destinadas a apoiar a liquidez, de títulos do Tesouro em circulação nos segmentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos. O valor máximo de cada operação passará de dois mil milhões de dólares para, pelo menos, quatro mil milhões de dólares.


Tensão nos mercados de dívida deixa Orçamento sob pressão


Nos dias anteriores, os mercados obrigacionistas em todo o mundo tinham sido abalados por um sell-off que catapultou os juros da dívida de vários governos para máximos em décadas, provocado pelo mix de incerteza geopolítica, subida dos preços do petróleo e aumentos nos juros pelos bancos centrais, além de razões de ordem estrutural como défices e dívidas públicas em níveis elevados e ainda tendências de longo prazo, como o envelhecimento da população, a causarem desconfiança sobre a saúde das finanças públicas de vários países. Nos EUA, a taxa de juro a 30 anos chegou a atingir máximos de quase duas décadas ao tocar nos 5,34%.

Os analistas consideram que a intervenção do Departamento do Tesouro liderado por Scott Bessent, que diz estar a gerir escassez de liquidez no mercado e não a fazer uma intervenção na política monetária, terá efeitos apenas paliativos numa economia que deverá ter défices públicos acima de 6% do PIB e uma dívida — que atingiu o recorde de 40 biliões de dólares — a subir para os 140% nos próximos anos, segundo o Fundo Monetário Internacional.









Kevin Warsh, o novo presidente da Reserva Federal dos EUA, que tomou posse a 22 de maio, preside pela primeira vez ao comité que decide os juros americanos, carregando às costas uma Fed dividida entre inflação persistente, um mercado de trabalho forte e a pressão da Casa Branca para baixar os juros.

Lusa





“Expectativas elevadas”

“Tenho uma opinião muito negativa sobre a lógica do Tesouro e as suas medidas mexidas”, disse Greg Peters, co-chefe de investimento no Morgan Stanley Wealth Management, citado pelo Financial Times, sublinhando que se trata de uma estratégia autolimitada e contraproducente. “Os mercados esperam algo por parte do Warsh, mas não tenho a certeza do que é que ele deveria fazer nesta situação“.

O discurso no simpósio, esta sexta-feira às 15h00 de Lisboa, poderá ser a melhor oportunidade para Warsh acalmar os mercados, mas ao mesmo tempo será o seu primeiro grande teste desde que chegou ao cargo em maio, especialmente dado o que pensa sobre o que um banqueiro central deve ou não dizer.

“Historicamente, Jackson Hole só tem sido, ocasionalmente, um fator determinante para o mercado, mas, quando o tem sido, os impulsos têm sido frequentemente significativos e duradouros”, notaram os analistas do Julius Baer. “As expectativas para a edição deste ano são elevadas, especialmente à luz da infeliz comunicação da Reserva Federal em julho, que deixou os investidores com pouca clareza quanto às perspetivas de política monetária”.

Poucos esperam que Warsh diga muito. A sua aversão à orientação prospectiva é bem conhecida, mas é uma postura que poderá tornar o desafio de Scott Bessent ainda mais difícil.


Analistas do banco ING

Os primeiros meses de Warsh no cargo estão a ser marcados pelo debate sobre a comunicação do banco central. O economista e advogado nomeado em janeiro por Donald Trump para suceder a Jerome Powell nunca escondeu a aversão à comunicação excessiva. Explicou no Senado em abril que ao contrário de muitos dos meus colegas, não acredita no forward guidance, a orientação prospetiva dada pelos bancos centrais, e na primeira conferência de imprensa à frente da Fed, em junho, fez questão de dizer que não apresentou o seu dot plot – o gráfico que representa as avaliações dos membros do comité sobre o percurso futuro das taxas de juro – e em julho dedicou grande parte da conferência à explicação sobre porque e como quer mudar a comunicação do banco central.

“Poucos esperam que ele [Warsh] diga muito”, referiu James Smith, economista de mercados desenvolvidos no banco de investimento neerlandês ING: “A sua aversão à orientação prospectiva é bem conhecida, mas é uma postura que poderá tornar o desafio de Bessent ainda mais difícil”.


Quando Diego Maradona entra na conversa sobre taxas de juro


Smith recordou que a orientação prospetiva surgiu como uma forma de acalmar os custos de financiamento a longo prazo após a crise financeira. “Nem sempre funcionou dessa forma, para dizer o mínimo, mas, ao oferecer menos comentários sobre a evolução das taxas, para não falar da menor clareza sobre o que a Reserva Federal procura nos dados económicos, corre-se o risco de introduzir ainda mais volatilidade num mercado obrigacionista já agitado“.

O evento deste ano no estado do Wyoming, no qual estará presente Álvaro Santos Pereira pela primeira vez na condição de governador do Banco de Portugal (já esteve anteriormente como economista-chefe da OCDE), terá como tema central “Inovação Financeira: Implicações para os Pagamentos e as Políticas”. Os analistas do banco britânico Lloyds apontaram que o assunto parece ter menor relevância para as perspetivas monetárias, sendo provável que as CBDC, as stablecoins e as implicações da evolução tecnológica no ambiente regulatório e de risco venham a dominar a maior parte das discussões. “Isso será do agrado do presidente da Reserva Federal dada a sua aversão a fornecer qualquer tipo de orientação prospetiva”.

Os mercados podem já estar a incorporar um prémio de credibilidade nas ‘yields’ — um prémio que aumenta quanto mais a Reserva Federal adia o aperto monetário. Isso torna arriscado o discurso principal de Warsh na sexta-feira: poderá manter equilibradas as expectativas para a reunião do comité de política monetária de setembro, mas terá dificuldade em convencer os mercados de que irá concretizar a sua retórica ‘hawkish’.


Analistas da Allianz Global Investors

Discurso arriscado

O silêncio ou a opacidade de Warsh poderão estar já a levantar dúvidas sobre a credibilidade da liderança da Fed, dado que foi nomeado por um Presidente que insiste na descida do custo do dólar. O presidente da Fed mostrou-se mais hawkish, ou a tender para uma subida nos juros, na reunião de julho e insistiu que vai perseguir sem tréguas a meta de inflação nos 2%. As apostas nos mercados apontam para uma probabilidade de uma subida das Federal Funds Rates para o intervalo 3,75%-4% até ao final do ano, mas o que os investidores querem mesmo é que Warsh sinalize o caminho.

Para Christian Schulz e Jenny Zeng, economista-chefe CIO e fixed income, respetivamente, na gestora de ativos alemã Allianz Global Investors (GI), os mercados podem já estar a incorporar um prémio de credibilidade nas yields — um prémio que aumenta quanto mais a Reserva Federal adia o aperto monetário. “Isso torna arriscado o discurso principal de Warsh na sexta-feira: poderá manter equilibradas as expectativas para a reunião do comité de política monetária de setembro, mas terá dificuldade em convencer os mercados de que irá concretizar a sua retórica hawkish”.

“Com os ‘vigilantes’ das obrigações» em alerta, isso poderá desencadear yields a longo prazo mais elevados e uma renovada fraqueza do dólar”, sublinharam. “Em última análise, cada discurso ou intervenção do Tesouro que atrase ou complique as decisões intensificará a pressão sobre o Fed para agir – quanto mais cedo o Fed agir, apesar das críticas, menos terá de fazer mais tarde – e mais cedo as condições poderão melhorar para os investidores em obrigações“.


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