Sergey Dolzhenko / EPA

O primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky

Rússia avisa que Reino Unido está a “brincar com o fogo” ao fornecer à Ucrânia tecnologia dos mísseis Storm Shadow.

O Kremlin avisou que poderá atacar alvos militares britânicos devido ao apoio do Reino Unido à Ucrânia.

A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo disse ao Reino Unido para recuar naquela que classificou como a posição hostil de Londres em relação à guerra, que, segundo afirmou, corre o risco de levar o conflito para um nível completamente novo.

Maria Zakharova tinha dito, na mesma conferência de imprensa em Moscovo, que o Reino Unido e a França estavam a “brincar com o fogo” ao fornecerem à Ucrânia tecnologia sensível de mísseis.

Mas o Ministério da Defesa britânico respondeu, afirmando que a Rússia “não deve ter quaisquer dúvidas sobre a determinação deste Governo em fazer frente à agressão russa, na Ucrânia e contra o Reino Unido e os nossos aliados”.

O Reino Unido anunciou na segunda-feira que permitiria a Kiev aceder a tecnologia classificada para iniciar a sua própria produção dos mísseis de cruzeiro de longo alcance Storm Shadow, capazes de realizar ataques em profundidade no território russo.

A França já tinha dado o seu consentimento para licenciar a tecnologia do míssil europeu.

A decisão provocou uma forte condenação da Rússia, com o porta-voz do Presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov, a afirmar que iria acrescentar “combustível ao fogo” do conflito.

Mas Andy Burnham disse aos jornalistas em Kiev, durante uma visita no início desta semana: “Quem começou o fogo? Essa é a questão, não é?“.

A intervenção russa surge quando as tensões entre o Kremlin e Downing Street continuam a aumentar, uma semana depois de a embaixada da Rússia no Reino Unido ter afirmado que as notícias de que forças ucranianas tinham usado aeronaves não tripuladas fabricadas por duas empresas britânicas “confirmam que Londres está deliberadamente a optar por uma escalada da crise ucraniana”.

Mas antigos ministros disseram que Burnham não deve ceder perante as ameaças.

“Isto é provavelmente o habitual agitar de sabres por parte da Rússia”, disse o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, Sir Malcolm Rifkind, ao The Independent.

“Não é impossível que tentem um ciberataque significativo ou alguma coisa de natureza militar para parecerem durões. Se o fizerem, devem lembrar-se de que o Reino Unido tem capacidade cibernética ofensiva e pode usá-la!”, acrescentou.

Segundo o antigo ministro da Defesa Grant Shapp, a verdadeira ameaça russa a este país não é um míssil sobre Hertfordshire. “É a sabotagem, os ciberataques e as operações híbridas contra a nossa indústria de defesa, os nossos cabos submarinos e as nossas infraestruturas nacionais críticas, com negação plausível e através de intermediários”.

“É aí que os ministros têm de reforçar já as nossas defesas, não depois de acontecer”, salientou Shapp.

Moscovo acusou o Reino Unido de “procurar conter a Rússia e causar-lhe o máximo de danos através de intermediários” e avisou que, quanto maior for o seu envolvimento, “mais elevado será o preço que terá de pagar”.

“As ações de Londres terão inevitavelmente consequências pelas quais terá de responder”, afirmou.

Mas Burnham respondeu, dizendo que o Reino Unido não se deixaria dissuadir pelas ameaças.

O primeiro-ministro visitou Kiev esta semana, na sua primeira deslocação ao estrangeiro desde que entrou em Downing Street.

Durante a visita à capital ucraniana, o Reino Unido reafirmou o seu compromisso “inabalável” com a Ucrânia, que, por sua vez, forneceu aquilo que responsáveis britânicos descreveram como uma “mina de ouro” de dados de combate para reforçar a segurança britânica.

O primeiro-ministro apelou aos aliados da Ucrânia para enviarem mais mísseis intercetores para Kiev, numa altura em que o país enfrenta os contínuos bombardeamentos russos.

Enquanto Burnham visitava o país, o conselheiro do Kremlin Andrei Fedorov avisou que fábricas britânicas que produzem drones para a Ucrânia poderiam ser alvo de ataques por parte de “fontes desconhecidas”.

O antigo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que não podia “excluir a 100%” a possibilidade de operações “semimilitares” dirigidas contra o Reino Unido.

Fedorov disse ao programa Newsnight, da BBC, que “mais cedo ou mais tarde, poderá haver não apenas uma reação verbal, mas talvez alguma reação visível da Rússia em relação ao Reino Unido”.

Questionado sobre o que queria dizer, explicou: “Há diferentes discussões sobre a forma que isso deverá assumir. Poderá ser uma chamada reação técnica, talvez algum ataque informático de uma fonte desconhecida, não a nível oficial, claro”.

“Poderá haver diferentes medidas políticas, e não posso excluir a 100% que possa haver alguma coisa semimilitar, por exemplo”, acrescentou.

Pressionado a definir “semimilitar”, respondeu: “Por exemplo, poderá acontecer alguma coisa a empresas, a fábricas que estão a produzir drones para a Ucrânia, etc., etc”.

Questionado sobre se isso significava que fábricas britânicas no Reino Unido poderiam ser atacadas militarmente pela Rússia, o conselheiro respondeu: “Poderiam ser atacadas, não pela Rússia, mas por… fontes desconhecidas“.