Depois de mais de cinco semanas de julgamento, a fase de alegações finais no julgamento de Lindsay Clancy aconteceu esta quinta-feira. 

O caso está agora nas mãos do júri, que deverá decidir se a norte-americana, acusada de matar os três filhos em janeiro de 2023, é criminalmente responsável pelas mortes.

O caso – um resumo

Lindsay Clancy, de 36 anos, não contesta que matou Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan de oito meses: a principal questão do julgamento é perceber se a mulher tinha capacidade de estar ciente de que estava a cometer um crime e de controlar os seus atos. 

A defesa sustenta que a antiga enfermeira estaria num estado de psicose pós-parto; a acusação garante que Lindsay estava consciente e que planeou os homicídios. 

Alegações finais: defesa garante “psicose pós-parto”

O advogado Kevin Reddington voltou a defender a tese que sustentou ao longo das últimas cinco semanas: Clancy estava num estado de psicose na altura dos crimes.

Voltou ainda a criticar os cuidados médicos que a mulher recebeu antes das mortes, defendendo que não foram adequados nem suficientes face ao estado de saúde mental em que se encontrava. 

Reddington relembra que, nos dias que se seguiram à tentativa de suícidio, o psicólogo forense Paul Zeizel visitou Lindsay no hospital. “Que horror estaria na cabeça dela enquanto permanecia ali, paralisada”, questionou, recordando os primeiros dias de internamento.

Neste sentido, criticou os psicólogos forenses chamados pela acusação, que apenas contactaram Lindsay nas semanas que antecederam o julgamento, impossibilitando a relação de confiança que insistiam querer criar. “Conseguem imaginar? Sabem que estão a três semanas do julgamento por homicídio e que este é o terceiro médico, contratado pelo Estado, que vem avaliá-la e testemunhar contra ela”, lamenta, acrescentando: “E, ainda assim, ela foi cooperante. Foi simpática”. 

“Esta jovem não é culpada da morte dos filhos porque sofria de uma doença e de um distúrbio, como o juiz vos explicou, e a acusação não vai conseguir provar o contrário”, terminou.

Alegações finais: acusação fala em planeamento

“Não há qualquer dúvida de que Lindsay Clancy sofria de uma doença mental e de que tentou suicidar-se”, começou por afirmar a procuradora Jennifer Sprague. “Não há qualquer dúvida quanto a isso.” 

No entanto, insiste em contrariar totalmente a versão da defesa: para si, Clancy sabia “distinguir o certo do errado” e tomou decisões consciente antes e durante os homicídios. 

Voltou então a referir a premeditação de pedir ao marido que realizasse tarefas fora de casa para a deixar sozinha com as três crianças. Segundo a procuradora, Clancy terá pesquisado quanto tempo o marido demoraria a regressar a casa. “Se está em sofrimento, não o mande a lado nenhum. Faça a comida em casa. Peça-lhe para cozinhar. Encomende comida”, enumera.

“É um nível de planeamento, pensamento e tomada de decisões”, defendeu Sprague.

A acusação insiste que Clancy teve mais ajuda “que muita gente tem”, realçando que teve acesso a “um seguro de saúde que cobria vários médicos e acesso a programas especializados e apoio em casa”, além de uma empregada que a ajudava nas tarefas domésticas. “Esta não era uma mulher que sofresse de falta de cuidados ou de recursos”, afirmou Sprague. “Tinha uma enorme rede de apoio e acesso a muitos cuidados.”

Sprague vai mais além e afirma que Lindsay recusou ajuda médica, sustentando que os médicos apresentaram-lhe três opções de tratamento. “Se consultarem os registos, verão que ela nunca discutiu essas opções com eles”, garante.

A acusação volta ainda a sublinhar que Lindsay terá começado os homicídios logo após Patrick Clancy sair de casa. Segundo a versão apresentada pela defesa, as “vozes” que Clancy disse ouvir para cometer os homicídios só começaram depois de o marido lhe ter telefonado. Mas Sprague sustenta que seria impossível Lindsay ter conseguido matar o três filhos e tentado suicidar-se nesse período, argumentando que os crimes começaram por volta das 17h15.

“Porque, se ela já tivesse matado os filhos por causa de uma voz… e fosse como um fantoche, não poderia receber uma chamada, não atender, depois ligar de volta, ter uma conversa e desligar”, afirmou Sprague, acrescentando: “Um fantoche não consegue fazer essas coisas. São decisões, escolhas e ações que ela controla”. 

“Por isso, tem de arranjar uma explicação para a chamada, porque o comportamento dela e a capacidade de manter aquela conversa não fazem sentido se estivesse a ser controlada por uma voz”, conclui, referindo-se à chamada que Lindsay terá atendido já depois de ter cometido os crimes. 

Sprague terminou as alegações finais descrevendo o estado em que as crianças ficaram no chão da cave depois de Clancy as matar. “Deixou-as abandonadas no chão da cave, como brinquedos partidos, porque já tinha acabado de jogar aquele jogo”, disse Sprague ao júri.

No final, a procuradora foi ainda mais direta: “Com uma certeza moral, ela é culpada”.

O que vai decidir o júri?

Antes de entregar o processo aos jurados, o juiz William Sullivan explicou os critérios que devem ser considerados. Para uma condenação por homicídio em primeiro grau, o júri terá, entre outros elementos, de determinar se os homicídios foram cometidos com “extrema atrocidade ou crueldade”.

A questão da saúde mental será igualmente decisiva. A acusação tem de provar, para além de qualquer dúvida razoável, que Clancy era criminalmente responsável pelos seus atos. Caso contrário, os jurados terão de considerar se a doença mental lhe retirou a capacidade substancial de compreender a natureza ou a ilicitude do que estava a fazer: neste caso, Lindsay não deixa de ser condenada, mas ficará internada permanentemente. 

Sullivan deixou uma última mensagem aos júris antes de os enviar para a sala de deliberação: “Tenham confiança no que vão fazer. Eu tenho essa confiança em vocês.”

O veredicto está agora nas mãos dos 12 jurados.