Artistas do antigo Egito produziam tintas com receitas químicas complexas que envolviam colas de diversos animais e resíduos do processamento de óleos vegetais. Segundo um estudo publicado na revista Science Advances, a análise de 14 obras de arte criadas entre 1425 a.C. e 400 d.C. revelou ingredientes orgânicos que haviam passado despercebidos pela Arqueologia

O levantamento utilizou 28 amostras microscópicas retiradas de objetos guardados em três museus europeus, incluindo sarcófagos de madeira, pinturas murais e máscaras funerárias de estuque.

Variedade de fontes animais

Os pesquisadores aplicaram a proteômica baseada em espectrometria de massa para identificar as proteínas preservadas em aglutinantes e adesivos milenares. Embora a cola bovina tenha surgido na maioria dos itens, os egípcios também utilizavam proteínas de ovelhas, cabras, burros e cavalos. 

Máscara de múmia feminina, feita de estuque sobre linho (MM 14957). Crédito: Museu de Antiguidades do Mediterrâneo e do Oriente Próximo, Estocolmo.

O estudo aponta ainda para o uso de antílopes selvagens na composição dessas misturas. Conforme os resultados, o colágeno de peles e tecidos conjuntivos era a fonte principal para a fabricação da cola animal, em vez de apenas os ossos.

Inovações do reino vegetal

Uma das revelações da investigação foi a detecção de proteínas de gergelim e moringa nas camadas de tinta. O uso desses materiais vegetais nunca havia sido documentado anteriormente em obras de arte do antigo Egito

A equipe identificou que os artistas não utilizavam o óleo vegetal puro, mas sim a torta de sementes. Esse material é o resíduo sólido que sobra após a prensagem para a extração do óleo, indicando um aproveitamento de subprodutos para melhorar a consistência da pintura.

Fragmento de sarcófago de madeira pintada para múmia (MME 1977:018). Crédito: Museu de Antiguidades do Mediterrâneo e do Oriente Próximo, Estocolmo. Análise laboratorial 

Para chegar a esses detalhes sem comprometer a integridade dos artefatos valiosos, o grupo liderado por Granzotto, Stacey, Mackie, Fulcher, Di Gianvincenzo, Spencer e Cappellini usou diferentes tecnologias. Além da análise proteômica, foram aplicadas a espectroscopia de infravermelho e a cromatografia gasosa para mapear as substâncias orgânicas.

Os cientistas compararam os dados laboratoriais com evidências arqueológicas para entender a função de cada ingrediente, notando que a moringa possuía significados religiosos específicos no contexto funerário egípcio.

Impacto na preservação atual

A identificação precisa das fontes biológicas também auxilia o trabalho de conservação e restauração de obras antigas. Saber se uma tinta contém proteínas de sementes ou tecidos de um animal específico fornece informações importantes para que profissionais responsáveis pela preservação desses materiais possam trabalhar de forma adequada e segura.

De acordo com o veículo Archaeology News, o estudo demonstra como vestígios mínimos preservados em pinturas antigas podem revelar informações sobre o domínio técnico e os processos usados na fabricação de materiais artísticos ao longo de mais de 1.800 anos.

*Sob supervisão de Éric Moreira


Luiza Kellmann

Meu propósito é dar voz a narrativas.