Do lado do PS, está claro e assumido que o timing da iniciativa é indesejável e que seria contraproducente alinhar com uma proposta para fazer o Governo cair. Até porque os socialistas têm memórias recentes, e bem amargas, que os levam a proceder com cautela.

Se há cerca de um mês o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, dava uma entrevista ao Observador em que garantia não ter medo de eleições, a verdade é que o PS precisa de tempo. Apesar de as sondagens mais recentes apontarem de forma consistente para uma potencial liderança do PS se as próximas eleições acontecessem hoje, esses números são desvalorizados no Governo — as sondagens são fotografias do momento, e neste caso de um momento em que as pessoas estão muito longe de estarem mentalizadas para uma ida às urnas — e vistos com esperança no PS, mas não como um sinal de que o partido está pronto para tentar destronar o PSD.

Como o Observador explicava aqui, as contas estão feitas e no topo do PS acredita-se que chegar perto dos 35% nas sondagens — mais cerca de cinco pontos percentuais — seria uma margem mais segura para chegar a uma altura em que as eleições fossem uma realidade. E mesmo assim, continua firme a convicção de que quem provoca eleições é penalizado.

Não é preciso recuar muito para chegar a essa conclusão: o próprio PS conseguiu uma maioria absoluta depois de os votantes terem castigado os partidos mais à esquerda, em 2021, por não terem aprovado o Orçamento do Estado para o ano seguinte; depois, recorda-se na direção do partido, como contava aqui o Observador, Pedro Nuno Santos caiu enquanto líder na “esparrela” de rejeitar a moção de confiança que Luís Montenegro apresentou na sequência do caso Spinumviva. O PS acabou com o terceiro pior resultado da sua história e uma troca de líder; Montenegro foi reeleito e reforçou a sua votação.

Ou seja, a ideia de que quem for considerado o autor da queda do Governo será penalizado por isso nas urnas continua bem viva — como continua viva a ideia de que o desgaste autoinfligido acabará por ser pior para o Executivo de Montenegro. Foi o próprio Carneiro, na mesma entrevista, que ironicamente recordou o fim do ciclo de António Costa recorrendo aos “casos e casinhos” que na altura se sucediam dentro do próprio Governo: “Olhem para o que aconteceu ao Governo de maioria absoluta.” Por tudo isto, para já, a ordem no PS é uma, como o Observador tinha escrito: chumbar moções destinadas a derrubar o Governo.

A maneira como se vão desenrolando as pré-conversações para o Orçamento do Estado — públicas, ainda sem reuniões de trabalho marcadas entre partidos — vão desenhando tendencialmente um quadro parecido: PS e PSD, sem pressa para irem a eleições (ou em provocarem uma governação por duodécimos), vão dando sinais de algum alinhamento, mesmo que mínimo; e o Chega coloca-se em pista própria, retirando-se do jogo e das contas para a aprovação parlamentar do documento.

Do lado do PS, José Luís Carneiro seguiu a tese do ano passado — descomplicar o Orçamento do Estado e não dramatizar demasiado — e lançou uma série curta de exigências, não dificilmente acomodáveis pelo PSD: seria preciso garantir que as pensões não são tocadas nem reduzidas, que quem foi afetado pelas tempestades receba os apoios prometidos, que a base das alterações na próxima revisão constitucional é aprovada pelos partidos fundadores da democracia e que as obras previstas pelo PRR mas que tenham de ser terminada já fora dos prazos previstos terão financiamento.

A parte mais difícil de garantir será, para já, os moldes em que a revisão constitucional será feita — Hugo Soares tem garantido que será feita “com todos” os partidos, sem assumir compromissos com nenhum em particular. Ainda assim, o que falta negociar com o PS é mais fácil de resolver do que o que separa o Governo do Chega, uma vez que este reiterou, para o Orçamento do Estado, uma linha vermelha que o Executivo sempre negou: a descida da idade da reforma.

André Ventura já disse que isto pode acontecer sob várias formas e moldes, mas a posição de Luís Montenegro tem sido sempre a mesma: não fazer alterações estruturais à Segurança Social nesta legislatura e muito menos tomar decisões que ponham o valor das pensões em causa.

Para o Executivo, isto inclui a redução da idade da reforma, que “colocaria em perigo” a sustentabilidade do sistema, como dizia um elemento do Governo ao Observador. Essa discordância condenou a aprovação do pacote laboral. Agora, volta a afastar os dois partidos e a colocar o Chega mais longe do centrão, a correr em pista própria na oposição.