O uso de drogas recreativas pode ser um importante fator de risco para acidente vascular cerebral, inclusive entre os mais jovens, segundo um estudo da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Com dados de mais de 100 milhões de participantes e publicada no International Journal of Stroke, a revisão científica baseia-se em 32 pesquisas que investigaram — e encontraram — associações significativas entre o consumo de cannabis, cocaína e anfetaminas e a ocorrência de AVC.
Um dos principais problemas de saúde no mundo, o AVC ocupa o terceiro lugar como causa combinada de morte e incapacidade. Muitos dos seus principais fatores de risco podem ser modificados por meio de escolhas de estilo de vida, como alimentação saudável, atividade física e outros hábitos. Ao mesmo tempo, o uso recreativo de drogas tem aumentado: segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 316 milhões de pessoas usam substâncias ilícitas, um aumento de 23%, comparado à década passada.
Estudos anteriores indicaram que o uso de drogas recreativas pode aumentar o risco de acidente vascular cerebral, mas boa parte das evidências era puramente observacional, sem estabelecer uma relação de causa e efeito. “Isso dificultava determinar se as próprias drogas aumentam o risco de AVC ou se a associação observada reflete outras características e hábitos compartilhados entre os usuários de drogas”, explica Megan Ritchie, do Grupo de Pesquisa sobre AVC da Universidade de Cambridge e coautora da pesquisa.
Meta-análise
Ela conta que especialistas do Departamento de Neurociências Clínicas da instituição debruçaram-se sobre estudos variados sobre o tema, com mais de 100 milhões de participantes no total. “A meta-análise permite combinar e testar dados de múltiplos estudos. Especialmente quando as descobertas anteriores foram inconsistentes, ao reunir os resultados, os pesquisadores podem chegar a conclusões mais robustas do que seria possível com base em estudos individuais menores.”
Os resultados, publicados no International Journal of Stroke, mostraram variações significativas no risco de AVC associado a diferentes drogas. O uso de cocaína e anfetaminas foi relacionado a uma probabilidade duas vezes maior de derrame cerebral — a cocaína elevou a chance em 96%, e as anfetaminas em 122%. Já entre usuários de cannabis, o percentual foi de 37%. Não foi encontrada associação estatisticamente significativa entre opioides e acidente vascular cerebral.
Os pesquisadores também realizaram uma análise separada para pessoas com menos de 55 anos. Nesse grupo mais jovem, o uso de anfetaminas foi associado a um risco quase três vezes maior de AVC (um aumento de 174%). A cannabis foi relacionada a um leve aumento de 14%; enquanto a cocaína, a um aumento de 97%.
A equipe investigou se essas associações poderiam ir além de uma mera correlação. Eles empregaram a randomização mendeliana, um método estatístico que testa variações genéticas naturais ligadas a fatores de risco e acidente vascular cerebral. Os pesquisadores podem usar essas diferenças para avaliar se as evidências sustentam uma relação causal entre um determinado elemento, como o uso de drogas, e um desfecho de saúde, que, nesse caso, foi o AVC.
A análise genética revelou que o transtorno por uso de cocaína estava especificamente associado a hemorragia cerebral e acidente vascular cerebral cardioembólico, quando um coágulo formado no coração viaja até o cérebro, bloqueando o fluxo sanguíneo e danificando o tecido cerebral. De modo geral, o transtorno por uso de cannabis foi relacionado a AVC, particularmente o de grandes artérias. Segundo os pesquisadores, essas descobertas genéticas corroboram a possibilidade não apenas de uma correlação, mas de uma conexão entre causa e efeito.
Mecanismos
Diversos mecanismos biológicos podem ajudar a explicar por que drogas recreativas estão ligadas ao AVC. Anteriormente, pesquisadores identificaram aumentos repentinos na pressão arterial, constrição e estreitamento dos vasos sanguíneos, ritmos cardíacos irregulares, maior probabilidade de formação de coágulos sanguíneos (especialmente com cannabis) e inflamação ou vasculite (particularmente com anfetaminas) como possíveis causas.
Todos esses processos já são conhecidos por desempenhar um papel na ocorrência de AVCs. “Eles podem contribuir tanto para AVCs isquêmicos (causados pela obstrução do fluxo sanguíneo devido a um coágulo) quanto para AVCs hemorrágicos (causados por sangramento)”, comenta Ritchie. Segundo a pesquisadora, a análise é a mais abrangente até agora sobre o assunto e “fornece evidências convincentes de que drogas como cocaína, anfetaminas e cannabis são fatores de risco para AVC”.
Para Eric H. Horsfield, coautor do estudo, os resultados têm importantes implicações no âmbito da saúde pública. “Nossa análise mostra que essas drogas em si aumentam o risco de AVC, e não apenas outros fatores de estilo de vida dos usuários. No geral, nossas descobertas reforçam a importância de medidas de saúde pública para reduzir o vício em drogas como forma de também ajudar a reduzir o risco de acidente vascular cerebral.”
Três perguntas para
Victor Hugo Espíndola, neurocirurgião e especialista em doenças cerebrovasculares
(foto: Arquivo pessoal)
Victor Hugo Espíndola, neurocirurgião e especialista em doenças cerebrovasculares
Quais são os principais mecanismos pelos quais as drogas podem provocar um AVC?
As drogas podem aumentar o risco de AVC por diferentes mecanismos, e isso varia conforme a substância. Entre os principais, estão a vasoconstrição das artérias cerebrais, elevações abruptas da pressão arterial, alterações da função do endotélio vascular, maior tendência à formação de trombos e, em alguns casos, alterações cardíacas capazes de produzir êmbolos que migram para o cérebro. Essas substâncias podem participar tanto da gênese do AVC isquêmico, por obstrução de uma artéria, quanto do AVC hemorrágico, pelo rompimento de um vaso.
No estudo, a associação foi particularmente forte entre o uso de cannabis e o AVC isquêmico. O que pode explicar essa relação?
É importante destacar que se trata de uma associação estatística e não significa que todo usuário de cannabis tenha esse aumento individual de risco. Do ponto de vista fisiológico, a cannabis pode interferir na regulação do calibre dos vasos cerebrais, favorecer episódios de vasoconstrição e produzir oscilações da pressão arterial, entre outros. Um dado interessante do estudo é que a análise genética encontrou associação entre predisposição ao transtorno por uso de cannabis e AVC de grandes artérias. Isso reforça a plausibilidade de uma relação causal, mas não permite afirmar que o uso esporádico tenha exatamente o mesmo efeito, porque a análise genética avaliou predisposição ao uso problemático ou dependência.
Há características específicas nos AVCs relacionados a essas drogas que os diferenciam daqueles provocados pelos fatores de risco tradicionais?
Em muitos casos, o AVC produzido por essas drogas é clinicamente indistinguível de qualquer outro AVC. O que muda é principalmente o contexto em que ele ocorre e o mecanismo responsável. Os fatores tradicionais — hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e fibrilação atrial, por exemplo — geralmente produzem dano vascular progressivo ao longo dos anos. Já algumas drogas podem funcionar como um gatilho agudo, provocando vasoconstrição intensa, uma crise hipertensiva, arritmia ou dissecção arterial em um intervalo relativamente curto após a exposição. Outra particularidade é que determinadas substâncias parecem se relacionar a mais de um mecanismo.
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Paloma Oliveto Repórter sênior
Formada na Universidade de Brasília, é especializada na cobertura de ciência e saúde há mais de uma década. Entre as premiações recebidas, estão primeiro lugar no Grande Prêmio Ayrton Senna e menção honrosa no Prêmio Esso.