Quando o arqueólogo francês Michel Fleury abriu, em 1959, um sarcófago de pedra na Basílica de Saint-Denis, em Paris, encontrou os restos mortais de uma mulher pertencente à alta nobreza do século seis.

A identidade da ocupante foi confirmada por um anel de ouro com o nome “Arnegundis” gravado na superfície. Tratava-se de Arnegunde, uma rainha franca da dinastia merovíngia e princesa do reino germânico da Turíngia.

Quase nenhum tecido mole havia resistido ao tempo. Um detalhe, porém, chamou a atenção do pesquisador: um dos pulmões permanecia preservado. Enquanto o restante do corpo havia se transformado em esqueleto ao longo de 1.400 anos, o órgão resistia à decomposição.

A descoberta levantou uma questão que só seria esclarecida décadas depois. Aquela preservação teria ocorrido naturalmente ou seria resultado de uma intervenção feita após a morte?

O achado em Paris

A rainha Arnegunde foi uma integrante da dinastia merovíngia, a linhagem que governou os francos em territórios que hoje pertencem à França e à Alemanha. Ela viveu aproximadamente de 510 a 590 d.C. e foi uma das seis esposas do rei Clotário I, além de mãe do rei Chilperico I da Nêustria. Embora fosse uma princesa do reino germânico da Turíngia, ela se integrou à dinastia merovíngia por meio do casamento. 

Conforme os registros arqueológicos de Michel Fleury, a soberana foi enterrada com vestes luxuosas que incluíam uma túnica marrom-avermelhada presa por uma trança dourada e uma blusa de seda violeta. A soberana possuía cerca de um metro e setenta e três de altura, o que representava uma estatura elevada para os padrões das mulheres daquela época.

Ela também usava um véu de seda adornado com alfinetes de ouro e granada, além de sapatos de couro com fivelas decoradas com motivos de animais, que são padrões ornamentais ou desenhos representando figuras da fauna. Um cinto ornamentado de liga de cobre também estava entre as joias de ouro e prata encontradas no sarcófago, além do anel de ouro que trazia a inscrição “Arnegundis”.

Cinturão de cobre usado pela rainha / Crédito: Divulgação/Réunion des Musés Nationaux et Musée d’Archéologie Nationale

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os alfinetes de sua vestimenta foram trabalhados com a técnica de cloisonné, um método de ourivesaria que utiliza compartimentos metálicos para fixar pedras preciosas. No ambiente isolado da tumba, os pesquisadores também localizaram um único fio de cabelo da rainha que resistiu ao processo de degradação.

Método de embalsamamento

A resposta sobre a preservação do pulmão da rainha só surgiu em 2016, quando a bioantropóloga Raffaella Bianucci, da Universidade de Turim, na Itália, realizou uma biópsia do tecido. Por meio de microscopia eletrônica de varredura, a pesquisadora identificou que a rainha havia passado por um processo de mumificação artificial. 

As práticas utilizadas pelos francos durante o século seis foram adaptadas de tradições romanas que possuíam raízes nos métodos do Antigo Egito. Na sociedade franca, esse tratamento era reservado apenas para figuras da alta nobreza, como reis e rainhas.

Diferente do método egípcio clássico, a técnica modificada dos francos não envolvia a remoção dos órgãos internos. O procedimento consistia na infusão de uma mistura de resinas e materiais vegetais pela boca do falecido. 

Os corpos eram posteriormente envolvidos em tiras de linho que haviam sido mergulhadas em óleos e ervas aromáticas para garantir a conservação. A maioria dessas substâncias orgânicas acabou se degradando com o passar dos séculos, mas as evidências químicas deixaram marcas permanentes no pulmão de Arnegunde.

O pulmão foi a parte do corpo da rainha Arnegunde que sobreviveu à decomposição. A microscopia revelou fluido de embalsamamento com óleos, ervas e resinas. Crédito: Divulgação/Albert Isidro O papel do cobre

O exame conduzido por Raffaella Bianucci revelou a presença de ácido benzoico e outras substâncias aromáticas derivadas de plantas, componentes também encontrados nos bálsamos aplicados pelos antigos egípcios. Esse fluido de embalsamamento preencheu o pulmão de Arnegunde. Um fator determinante para a conservação foi a interação química entre esses fluidos e os acessórios que a rainha usava no momento do sepultamento. O líquido acumulado no pulmão reagiu com o cobre presente no cinto ornamentado da soberana.

Segundo o estudo divulgado pelo veículo Popular Mechanics, as altas concentrações de íons de cobre e óxido de cobre resultantes dessa reação agiram como agentes preservativos. Esses elementos químicos impediram que os microrganismos destruíssem o tecido pulmonar ao longo dos séculos. O posicionamento do cinto de liga de cobre em contato direto com a área torácica permitiu que a proteção metálica se espalhasse pelo órgão, complementando o efeito das resinas vegetais injetadas.

Estrutura celular resistente

Além dos fatores externos e químicos, a biologia humana desempenhou um papel relevante na manutenção do órgão. Conforme indicam as pesquisas publicadas no periódico Archivos de Bronconeumología, o tecido pulmonar possui uma resistência natural à putrefação em comparação com outros tecidos moles. 

Isso ocorre porque os pulmões contêm menos células epiteliais ricas em lisossomos. Essas estruturas celulares são repletas de hidrolases, que são enzimas responsáveis por quebrar os tecidos de dentro para fora na presença de água.

Com uma quantidade reduzida dessas enzimas, o processo de desidratação ocorre de forma mais rápida do que a decomposição, favorecendo a preservação da estrutura do órgão. O grande volume de regiões aeradas nos pulmões também facilita a dessecação, pois permite uma perda de umidade mais eficiente. Esse ambiente seco dificulta a proliferação de bactérias decompositoras que dependem de meios úmidos para atuar.

Comparações com o Egito

A preservação excepcional de pulmões não é inédito na Arqueologia, embora seja rara em estruturas intactas. Um exemplo comparável foi documentado pelos pesquisadores Albert Isidro, Lourdes Moret e Béatrice Huber, que analisaram uma múmia do período copta, entre os séculos quatro e oito, na necrópole de Qarara, no Médio Egito. 

O indivíduo, apelidado de Moisés, era um homem com idade entre 25 e 35 anos. De acordo com o relato de Albert Isidro, Lourdes Moret e Béatrice Huber, ao abrirem as bandagens e realizarem uma incisão lateral, encontraram no tórax do homem uma estrutura pulmonar de coloração acastanhada e fragilidade extrema.

A análise desse caso confirmou que a grande área de dessecação dos pulmões facilita a manutenção do órgão em ambientes específicos. No tórax da múmia copta, os cientistas também identificaram a presença de uma possível veia cava e restos de pleura aderidos às costelas. No entanto, ao contrário do que foi observado no caso de Arnegunde, os pesquisadores não localizaram nenhum vestígio do coração desse indivíduo.

Diagnósticos da história

O estudo de tecidos respiratórios preservados permite diagnosticar enfermidades que atingiam as populações há milhares de anos. Conforme os registros do Archivos de Bronconeumología, a cor escura do tecido pulmonar na múmia copta sugeria uma patologia respiratória preexistente. 

Doenças como pneumonia e empiema, que é o acúmulo de pus no espaço pleural, já foram detectadas em múmias da cultura Chinchorro, no Chile, datadas de 2.000 a.C.. Sinais de enfisema também foram identificados em restos mortais chilenos datados de 450 a 1.000 d.C..

A arqueologia também revelou situações inusitadas, como a presença de musgo nas vias respiratórias de uma múmia do Ártico e um dente encontrado nos brônquios de uma criança chilena. A tuberculose é outra condição frequentemente pesquisada, sendo confirmada pela identificação de DNA do complexo Mycobacterium tuberculosis em corpos preservados nos Andes. 

Legado da rainha

Arnegunde morreu por volta dos 60 anos, uma idade considerada avançada para o período medieval, quando a expectativa de vida era frequentemente reduzida por condições brutais de existência. Mesmo para a realeza da época, atingir essa longevidade era incomum. A soberana viveu uma existência longa em comparação com muitos de seus contemporâneos, cujos tecidos biológicos não resistiram aos efeitos do tempo.

A análise detalhada de seus restos mortais, iniciada por Michel Fleury e concluída décadas depois por Raffaella Bianucci, ajudou a esclarecer como o pulmão da rainha permaneceu preservado ao longo dos séculos.

O órgão também oferece um registro das práticas funerárias europeias após a queda de Roma. As resinas vegetais usadas no embalsamamento e a ação conservante do cobre contribuíram para sua preservação no interior da Basílica de Saint-Denis, permitindo aos pesquisadores investigar aspectos da saúde humana no início da Idade Média.

*Sob supervisão de Giovanna Gomes


Luiza Kellmann

Meu propósito é dar voz a narrativas.