A ocorrência parecia ser apenas mais uma entre tantas atendidas pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) do Rio Grande do Norte. Mas, para a policial civil Flaviana Bezerra, de 51 anos, aquele chamado recebido em 2018 mudaria sua vida para sempre. O caso, que começou com a investigação de um assassinato em Parnamirim, na Região Metropolitana de Natal, atravessou os limites da profissão e se transformou em uma história de afeto, acolhimento e reconstrução familiar. O impacto foi tão grande que agora inspira a trama central da novela Por Você, nova produção das sete da TV Globo.
Exibida pela primeira vez em 17 de agosto, Por Você marca a nova aposta da TV Globo para a faixa das sete. Escrita por Dino Cantelli e Juliana Peres, a novela acompanha a trajetória de Bela, personagem interpretada por Sheron Menezzes, uma mulher que vê sua vida transformada ao assumir a criação dos filhos da melhor amiga após uma tragédia familiar.
A notícia chegou até Flaviana por meio de jornalistas da emissora. Ela conta que foi surpreendida pelo anúncio e pela forma cuidadosa com que a equipe tratou sua história.
“Fui procurada por jornalistas da TV Globo. Eles me deram a notícia. Foram muito corretos, pacientes e cuidadosos no trato comigo, são excelentes profissionais e pessoas íntegras”, afirmou em entrevista à Agência Saiba Mais.
A reação foi de emoção. Afinal, a trajetória que agora chega à televisão foi construída em meio a perdas, desafios e decisões tomadas sem qualquer planejamento.
“Fiquei muito honrada e feliz. Nossa história é uma história de muito amor, muito impactante, que envolve adoção de grupo de irmãos e adoção tardia, de crianças e adolescentes que não estavam em abrigos, que perderam repentinamente o único vínculo familiar que tinham. De forma imediata após a perda, foram acolhidos de maneira surpreendente”, relembra.
Na ficção, a inspiração aparece na personagem Bela, interpretada por Sheron Menezzes. A protagonista assume a criação dos filhos da melhor amiga após uma tragédia familiar, dando início a uma jornada de maternidade inesperada. Embora os roteiristas tenham adaptado a história e criado novos contextos para a novela, a essência do enredo surgiu da experiência vivida pela policial potiguar.
Uma ocorrência que virou família
Quando chegou ao local do crime, em 2018, Flaviana encontrou seis crianças e adolescentes em uma situação de extrema vulnerabilidade. Eles já haviam perdido a mãe anos antes e, com o assassinato do pai, ficaram sem qualquer referência familiar imediata.
O primeiro movimento foi garantir proteção e atendimento emergencial. Mas a mobilização foi muito maior do que uma ação individual.
“Essa história não é só minha. O primeiro acolhimento foi dado por mim e pela minha equipe de plantão da DHPP. Quando comunicamos o fato aos colegas, todos colaboraram para que as crianças tivessem suas necessidades básicas supridas”, conta.
Segundo ela, policiais civis de diferentes setores se uniram para oferecer ajuda. A iniciativa ganhou um nome que ainda hoje é lembrado com orgulho: Força-Tarefa do Bem.
“A Polícia Civil do RN acolheu seis crianças e adolescentes. Juntos formamos a Força-Tarefa do Bem e assim, unidos em equipe, tiramos as crianças da situação de vulnerabilidade inicial. Tivemos o apoio de pessoas de vários segmentos da sociedade que contribuíram de várias formas.”
A rede de solidariedade foi crescendo. O que começou como um esforço coletivo para garantir abrigo, alimentação e segurança acabou se transformando em algo muito maior.
“Foi um grande movimento, que inclusive foi noticiado pela imprensa. Me orgulho muito de fazer parte da Polícia Civil do RN e por ter nos meus colegas uma verdadeira família, capaz de ter atitudes como essa.”
Flaviana nunca imaginou que se tornaria mãe daquela forma. Antes de ingressar na Polícia Civil, sonhava em ser médica. A vida, porém, seguiu outro caminho. Vinda de uma família humilde, precisou trabalhar cedo e encontrou na carreira policial uma oportunidade que acabou se transformando em vocação.
Mas foi longe das investigações que viveu a transformação mais profunda.
Ao longo dos meses, o vínculo criado com os irmãos foi se fortalecendo. O cuidado cotidiano se tornou presença constante. A presença constante se tornou afeto. E o afeto virou família.
Entre 2020 e 2022, os cinco filhos passaram a viver com ela sob o mesmo teto, compartilhando inclusive os períodos mais difíceis da pandemia. O que havia começado como acolhimento emergencial transformou-se em maternidade construída dia após dia.
“Minha história envolve luto, paixão, maternidade, conflitos, família, cura, dor, luz, alegria, afeto, erros e acertos. É uma história de amor nada convencional”, resume.
Oito anos depois
Hoje, quase uma década após aquele encontro inesperado, Flaviana observa com orgulho a trajetória dos filhos.
“Estão todos bem. O vínculo familiar permanece. Eles são muito jovens e ainda podem conquistar o mundo, ser qualquer coisa que quiserem.”
Ela destaca que a maior mudança não foi apenas material, mas emocional:
“Há oito anos um novo mundo foi aberto para eles. Todos foram alfabetizados, finalmente tiveram oportunidades na vida e, principalmente, foram reconfigurados no quesito afeto. Cada um, na sua individualidade, soube como é ser muito amado.”

Ao chegar à televisão, a trajetória de Flaviana amplia um debate ainda pouco discutido no Brasil: o da adoção tardia e do acolhimento de grupos de irmãos. Temas que costumam enfrentar preconceitos e desafios adicionais no sistema de adoção.
A policial afirma não saber se sua experiência já inspirou outras pessoas, mas acredita que a novela pode contribuir para ampliar essa conversa.
Para ela, o mais importante é mostrar que famílias podem nascer de formas inesperadas e que o amor nem sempre segue os caminhos tradicionais. O que começou como uma investigação de homicídio terminou como uma história de reconstrução. Uma ocorrência policial transformou-se em laço familiar. E agora, oito anos depois, ganha novos capítulos diante de milhões de telespectadores.
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