A notícia da primeira vacina contra o melanoma voltou a fazer a sociedade e a comunidade médica sonhar com o fim do cancro, mas apesar de ainda estarmos “longe de curas”, há muito que o RNA mensageiro é visto como a luz ao fundo do túnel e para várias patologias. “É uma confirmação, sabíamos que isto ia acontecer”, diz o cientista Nuno Vale, apontando a medicina personalizada e de precisão como o futuro (bem próximo) do combate a várias doenças

“São ótimos, são excelentes resultados e, de certa maneira, demonstram que a tecnologia de mRNA acaba por conseguir resolver vários problemas”. Nuno Vale, professor associado com agregação e diretor do Centro Pluridisciplinar de Medicina Personalizada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) não esconde o entusiasmo sobre a recente notícia da vacina contra o melanoma, dizendo que é a prova do poder da medicina personalizada, algo que já era esperado pela comunidade científica há largos anos. “É promissor para a classe médica, mas não surpreende quem está muito próximo do desenvolvimento destas tecnologias, é uma confirmação, sabíamos que isto ia acontecer”, vinca.

A tecnologia mRNA – o mensageiro que ajudou no combate à covid-19 – é já uma velha amiga dos cientistas e não apenas no combate ao cancro. “Tinha-se falado [do seu papel] no cancro, fez-se um compasso de espera, depois fez-se a vacina para a covid-19, e depois retomou-se ao [estudo do] cancro”, diz o investigador, destacando que “é uma tecnologia muito promissora, permite identificar a informação genética que está associada a uma invasão qualquer, quer seja um vírus, um parasita, uma doença genética ou hereditária”. Atualmente, exemplifica, está a ser testada no Zika (num ensaio com 800 participantes) e no Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) e estudada para o lúpus, a Hepatite B e doenças cardiovasculares, mas “também começam [a surgir] lentamente [investigações] nas doenças raras associadas à falta de enzimas no fígado”. 

Esta tecnologia, que continua a ser usada para vacinas para vírus respiratórios, é, na verdade, altamente, versátil. Num ensaio realizado em ratos de laboratório, publicado em 2021 na revista Nature Reviews Immunology, os cientistas detetaram uma eficácia promissora da tecnologia mRNA na esclerose múltipla, podendo este ser um primeiro passo para novas investigações e para outros estudos de doenças autoimunes. À boleia da eficácia da vacina criada para combater a covid-19, a Moderna aliou-se à Vertex Pharmaceuticals no desenvolvimento de uma vacina com tecnologia mRNA para a fibrose quística (doença genética, hereditária e que afeta sobretudo os pulmões). 

“Em algumas doenças raras era difícil fazer o tratamento”, mas com esta informação produzida de forma personalizada e administrada no paciente, “é possível avançar” para tratamentos mais eficazes, afirma Nuno Vale.

“A vacina mRNA ajuda a prevenir algumas doenças, a tratar outras. Ao fim e ao cabo estamos a criar informação para que o sistema imunitário atue de forma precisa e rápida e sem recorrer a tantos medicamentos”, continua o diretor do Centro Pluridisciplinar de Medicina Personalizada da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP).

Porta aberta para o combate a outros cancros

Nuno Vale mantém o entusiasmo sobre o poder do RNA mensageiro, mas, como cientista, não consegue não ver o outro lado da questão: se para umas doenças é eficaz para todos (o chamado efeito comunidade, como aconteceu com o combate ao SARS-CoV-2), no caso do cancro pode não ser para todos. “Vai ser sempre muito difícil que estas vacinas curem todos os tumores, depende do período em que são aplicadas, da idade do paciente, do papel do sistema imunitário”, diz. Ainda assim, aponta que este é o caminho que a ciência deve continuar a seguir, mesmo que estejamos “longe de curas”. 

Há dois anos, num primeiro ensaio clínico em humanos, com apenas quatro adultos, uma vacina de mRNA contra o cancro reprogramou rapidamente o sistema imunitário para atacar o glioblastoma, o tumor cerebral mais letal, revelou a Universidade da Florida, nos Estados Unidos. Os resultados do estudo reproduzem os obtidos num teste com dez cães que tinham desenvolvido tumores cerebrais, cujos donos aprovaram a sua participação dado não existirem outras opções de tratamento, bem como os de um estudo pré-clínico com ratos.

Atualmente, a Moderna e a MSD/Merck têm em andamento um outro ensaio com a mesma tecnologia mRNA da vacina contra o melanoma, desta vez focada no cancro do pulmão de não pequenas células. O ensaio está já na fase 3. Os cancros do pulmão e da bexiga são, na verdade, dos que também beneficiam desta tecnologia, pois “são tumores muito parecidos com o melanoma, são muito imunógenos, têm muitos neoantigénios”, que são proteínas que podem ser “colocadas na vacina e que são apresentadas ao sistema imunitário para que os linfócitos possam reconhecer estas células”, matando-as, explica Patrícia Pereira, investigadora principal do Ensaio Clínico INTerpath-001, que deu vida à vacina contra o melanoma.

A BioNTech tem dois ensaios em andamento, um com uma vacina contra o carcinoma espinocelular da cabeça e pescoço HPV16+ e outro para o cancro do pulmão de não pequenas células. Em parceria com a Genentech e Roche, a BioNTech tem ainda um ensaio para tumores endócrinos avançados. Há três anos, a farmacêutica alemã desenvolveu uma vacina contra o cancro do pâncreas que obteve resultados muito promissores, ao ponto de ser já considerada “um marco” na evolução da medicina e da ciência. Os resultados do ensaio foram publicados na Nature.

Na China são vários os ensaios com vacinas mRNA contra cancros digestivos, carcinoma hepatocelular avançado e colangiocarcinoma intra-hepático avançado.

A vacina do melanoma agora noticiada destaca-se pelo elevado número de participantes, 1.137. E este número é, para Nuno Vale, um sinal claro da potencialidade do tratamento. “Pode ser uma primeira vacina de cancro? Digo que sim e num futuro próximo”, atesta.

Da comunidade para o indivíduo: porque é que é uma tecnologia tão promissora

A descoberta de uma forma de RNA como chave para a produção de vacinas seguras e eficazes contra a covid-19 valeu a Katalin Karikó e a Drew Weissman o Nobel da Medicina em 2024. E foi a própria covid-19 a servir de trampolim para a compreensão de como esta tecnologia pode ser versátil, seja para a comunidade ou para o paciente singular.

“É como se déssemos ao sistema imunitário o mapa no qual vai talhar o seu caminho até ao cancro para, depois, fazer aquilo que nós queremos, que é eliminá-lo de forma mais eficaz”. É desta forma que a oncologista Matilde Salgado, diretora do Serviço de Oncologia Médica da Unidade Local de Saúde de Matosinhos, descreve a tecnologia mRNA. 

A bioquímica húngaro-americana Katalin Karikó e o médico-cientista norte-americano Drew Weissman foram distinguidos com o Prémio Nobel da Medicina pelas descobertas que permitiram a criação de vacinas de mRNA contra a covid-19 e cuja tecnologia poderá ser utilizada no futuro para desenvolver vacinas contra outras doenças, como o cancro e o lúpus. (Fotografia AP/Matt Rourke)

Esta vacina “compara o ADN do tumor com o ADN da parte saudável e são selecionadas todas as alterações que podem levar ao cancro, e é feita uma seleção das que podem ser mais passíveis ao desenvolvimento da doença”, continua a médica. No fundo, acrescenta, a vacina “dá uma instrução genética para, quando é administrada no corpo, o nosso sistema imunitário vai aperceber-se de que há ali qualquer coisa estranha e vai levar à formação de antígenos que combatem o cancro”.

Além da personalização, as vacinas com mRNA destinadas ao combate ao cancro destacam-se ainda pelo baixo impacto que têm nos pacientes. Matilde Salgado destaca ainda que, por serem “muito mais personalizadas” quando comparadas com os tratamentos atualmente em vigor, “que matam não só as células malignas, como matam muitas células boas”, as vacinas acabam por “ir diretamente ao tumor, àquilo que causou o tumor” e, por isso, “esperamos ter bons resultados com toxicidades muito inferiores”, além de que os efeitos colaterais parecem ser menores do que as terapêuticas convencionais atualmente usadas.

No entanto, pelo menos, para já, esta vacina não é para todos. Em declarações à CNN Portugal, a investigadora Patrícia Pereira destaca que estamos perante uma “descoberta importante”, mas como se trata de “uma vacina personalizada”, considera que será “difícil termos em todos os doentes”. Aliás, para o estudo em causa, “foram recrutadas sete [pessoas em Portugal], mas nem a todas se aplica esta tecnologia”, que está desenhada para casos avançados de melanoma grave e cujo tumor já foi retirado em cirurgia, tendo sido apenas selecionados três pacientes portugueses, como diz à TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) Cecília Moura, diretora do Serviço de Dermatologia do IPO Lisboa.

É cara, mas também pode deixar de o ser (e bem cedo)

Os bons resultados da vacina contra o melanoma dão “alento” à comunidade médica, pois, até então, “não tínhamos grandes armas para lutar contra o melanoma”, a forma mais agressiva de cancro da pele, lamenta a dermatologista Marta Ribeiro Teixeira. No entanto, há um mas: os custos. “Estamos a falar de medicamentos muito caros”, alerta. Mas, quão caros? Os valores da vacina e o custo da sua produção e administração por paciente não foram ainda oficializados pela Moderna, mas há já estimativas a serem feitas. Fala-se de custos de produção na ordem dos 100 mil a 300 mil euros por paciente – valores que não fogem muito, por exemplo, a outras tecnologias promissoras, como as células CAR-T.

Os custos elevados prendem-se, primeiro, com o facto de, neste momento, a vacina ser apenas produzida nos Estados Unidos, mas importa destacar o moroso processo até que seja feita a formulação final para cada paciente. Primeiro é preciso selecionar o paciente – algo que Nuno Vale acredita que poderá ser mais rápido e certeiro com recurso à Inteligência Artificial -, depois é necessário operá-lo para a recolha do tumor, seguindo-se a sequenciação do mesmo e a identificação das mutações, os neoantigénios. Depois, dá-se a seleção computacional dos alvos para que seja possível avançar com o desenho da sequência de mRNA. Estando a fórmula feita, segue-se o fabrico individualizado para cada doente – e só neste estudo foram 1.137. Há ainda a fase de controlo de qualidade e a administração de várias doses, neste caso, nove.

No caso da vacina para o melanoma – e de outras para outros tumores ainda em estudo -, há sempre que colocar na balança os custos da imunoterapia, também ela uma aliada no combate ao cancro e sem a qual a vacina poderia não ter os efeitos desejados. “Uma vez que é personalizada para os neoantigénios, que são as proteínas anormais do melanoma daquele doente, o que acontece é que parece que esta vacina é sinérgica” com a imunoterapia. “Parece realmente haver melhor efeito quando usamos esta vacina com a imunoterapia”, explica Patrícia Pereira, investigadora principal do Ensaio Clínico INTerpath-001.

“Sem imunoterapia, [esta vacina] não teria os resultados que apresentou, a imunoterapia é fundamental para balizar o que está a acontecer no nosso corpo, seja alguma resistência ou lentidão. Os imunomoduladores são específicos, a imunoterapia acaba por ser um complemento”, diz Nuno Vale, vincando que “a vacina só tem eficácia com a coadjuvante imunomodulador”.

Segundo o diretor do Centro Pluridisciplinar de Medicina Personalizada, da FMUP, é possível ter “em comum um padrão de cancro, há uma informação genética base que não difere de pessoa para pessoa, depois há tipos de graus de tumor que devem ser acertados para cada paciente”. Mas estando a tal base feita, é meio caminho andado para que os custos baixem, assegura. “O que poderia ser algo muito dispendioso, passa a ser mais rotineiro” e a covid-19, apesar de ter servido para uma produção “para a comunidade”, “impulsionou” a redução de custos associada a esta tecnologia.

“É uma tecnologia cara, mas já foi muito mais cara, se não, não tínhamos tantas pessoas a participar neste ensaio clínico”, adianta Nuno Vale, explicando que “cada vez mais são feitas experiências piloto para outras áreas e com isto estamos a baixar os custos de produção”.

Embora reconheça que é uma tecnologia para custar uns bons milhares de euros, Vale não hesita em dizer que “é uma tecnologia para ser implementada” e não descarta a produção generalizada de vacinas para o cancro, mesmo que continuem com o cunho da personalização. “A indústria quer [produzir mais]. Estamos a falar de doenças que afetam países muito desenvolvidos, afetando toda a gente, a procura é imensa. Independentemente de as pessoas terem ou não dinheiro, morrem de cancro, só isso é motivo mais do que suficiente para que haja interesse [em produzir mais] mesmo que seja muito dispendioso, mas há mecanismos de gestão de custos, o benefício [destas vacinas] é tremendo. Se o benefício é tremendo, essa dificuldade [de custos] tem de ser ultrapassada”, vinca.