Todo o ouro já extraído da crosta terrestre seria insuficiente para pagar a dívida norte-americana. Seriam necessárias sete Nvidias ou cada cidadão norte-americano doar 117 mil dólares. Ainda assim, este valor pode não ser o maior problema nas mãos do Departamento do Tesouro dos EUA e há uma aterradora certeza: “Tudo aquilo que possa colocar em causa a estabilidade financeira dos EUA, coloca o próprio sistema financeiro global também em risco”
A dívida dos Estados Unidos atingiu um novo máximo histórico de 40.000.000.000.000 de dólares. É isso mesmo: quarenta seguido por 12 zeros. São 40 biliões de dólares ou, por outras palavras, “um marco sombrio” na história da saúde orçamental da maior Economia do planeta, como a imprensa norte-americana, incluindo a CNN Internacional, se tem referido ao novo recorde.
O número é impressionante por si só, mas a teia de más notícias adensa-se quando se tem em conta que o endividamento norte-americano está a crescer mais depressa do que as previsões faziam antever há alguns anos. A culpa tem sido, essencialmente, dos défices orçamentais persistentes aliados aos juros exorbitantes. Mas os gastos em Defesa – primeiro na Ucrânia e recentemente no Médio Oriente – também não estão a ajudar.
Contudo, desengane-se quem possa pensar que esta é uma preocupação exclusiva da administração Trump ou que promete só tirar sono a norte-americanos. O economista Filipe Garcia garante que se algum dia ocorrer “alguma coisa verdadeiramente grave” com a dívida dos EUA, este “não será um problema dos EUA, será um problema mundial”.
“Tendo em conta o tamanho da dívida, tudo aquilo que possa de alguma maneira colocar em causa a estabilidade financeira dos EUA, coloca o próprio sistema financeiro global também em risco e, por isso, é que este é um assunto importante”, alerta o presidente do Conselho de Especialidade de Análise Financeira da Ordem dos Economistas e do IMF – Informação de Mercados Financeiros.
Filipe Garcia lembra que “a grande questão é que os Estados Unidos e o dólar não são propriamente coisas frugais”. “O dólar é peça central do sistema financeiro, representa uma percentagem muito grande das reservas cambiais globais, 60%, e 85% do financiamento de atividades de comércio internacional. Os bancos centrais têm esses dólares aplicados em dívida pública. A dívida pública americana é o mecanismo de colateral de garantia para as transações dentro do sistema financeiro e, de alguma forma, é justo dizer que o sistema financeiro global, apesar de não assentar só no dólar, tem no dólar uma pedra importantíssima”, refere.
Nem todo o ouro alguma vez minerado pelo Homem chegaria para pagar a conta
Ao longo da sua história, o ser humano extraiu do planeta um total de aproximadamente 220.700 toneladas de ouro, de acordo com o Conselho Mundial do Ouro.
Ao preço corrente deste metal precioso, cerca de 4.600 dólares por onça (28,35 gramas), todo o ouro alguma vez minerado dava cerca de 33 biliões de dólares; o que quer dizer que os EUA ainda precisariam de mais 7 biliões para saldar a conta.
Na altura da publicação deste artigo, a Nvidia é a empresa mais valiosa do mundo, muito impulsionada pelo advento da inteligência artificial. Está atualmente avaliada em 5,2 biliões de dólares. Volta a não chegar, Washington necessitaria de sete Nvidias para saldar as contas.
As 11 empresas mais valiosas do índice S&P 500 – que aglomera as 500 empresas mais valiosas do mercado dos EUA – têm um valor de mercado combinado de aproximadamente 28 biliões de dólares. Continuam a faltar 12 biliões para os 40 biliões da dívida nacional norte-americana.
O que mais pesa na almofada de Trump: 40.000.000.000.000 ou 123%?
Apesar deste já ser um número de difícil compreensão para quem está pouco habituado a tantos zeros, há outro indicador que é ainda mais preocupante para o Departamento do Tesouro dos EUA: a relação entre o valor da dívida e o PIB. Mas, comecemos pelo primeiro problema, afinal, qual é o verdadeiro significado de 40 biliões de alguma coisa?
As duas explicações mais simples são: 40.000.000.000.000 é 1 milhão, 40 milhões de vezes; e é também mil milhões, 40.000 vezes.
Agora com dólares. Com uma dívida de 40 biliões de dólares, se os EUA pagassem mil milhões por dia, iriam precisar de 110 anos para saldar a dívida por completo. Se pagassem ‘apenas’ um milhão a cada 24 horas, iriam precisar de 110 mil anos.
Já nem a própria Economia dos EUA, medida pelo PIB, que representa o valor total dos bens e serviços produzidos pelo país e que está nos 32 biliões de dólares – de acordo com dados do Departamento de Análise Económica dos EUA -, chegaria para chegar para pagar os 40 biliões de dólares.
Foi em 2012 que, pela primeira vez, a dívida pública dos EUA ultrapassou 100% do PIB. Agora, esta relação dívida/PIB já está nos 123% e coloca os EUA no top 10 dos maiores credores do mundo. De acordo com os dados do Fundo Monetário Internacional, os únicos países com índices de dívida em relação ao PIB superiores aos dos Estados Unidos são Japão, Singapura, Sudão, Bahrein, Itália, Grécia, Senegal e Maldivas.
Este é aliás o maior problema e motivo de incerteza aliado a este novo record, tal como refere Filipe Garcia, porque ““estes 40 biliões, ou trillions do outro lado do Atlântico, são um milestone [um marco], mas eles, em si, não querem dizer nada de especial”. “O que é mais relevante é o facto de significarem já cerca de 123% do PIB, o que já é um peso relativamente importante”, diz.
“Mais do que o valor em absoluto, o que devemos sempre analisar, até porque tivemos um contexto de inflação, é o peso da dívida sobre o PIB. Nesse sentido, 123% do PIB já é um número muito substancial, porque obriga que uma parte muito importante do Orçamento Federal já seja para juros de dívida”, explica.
Quanto dá 20.000.000.000.000 x 2? Deu apenas 10 dez anos
A dívida norte-americana é agora aproximadamente o dobro daquilo que era há apenas 10 anos. Em agosto de 2016, há apenas uma década, a dívida nacional total dos EUA não chegava aos 20 biliões de dólares. E aliado a este facto surge uma leitura que já envolve o plano político e tem um detalhe peculiar, porque foi, como aponta Filipe Garcia, “desde 2016, do primeiro mandato de Trump até agora, que este valor duplicou de 20 para 40 biliões de dólares”.
Para o economista, a “grande questão” está precisamente neste facto, porque mais relevante do que o valor absurdamente elevado da dívida e de a relação PIB/dívida já estar nos 123%, neste momento e nos últimos anos, “não se vê nenhum sinal de que haja uma inversão, ou sequer uma tentativa de inversão, dessa tendência de subida da dívida”.
“Os dois principais partidos dos EUA não têm um potencial de entendimento, uma espécie de pacto de regime, algo do género, que aponte para uma maior contenção dos gastos ou do peso da dívida sobre o PIB e é sobre isto que as pessoas têm andado a falar nos mercados”, explica. “Os mercados não estão bem preocupados com o valor atual da dívida ou com o rácio atual da dívida, estão preocupadas com a tendência e com o facto de não se ver nenhuma vontade de amenizar a questão”.
Portugal também já esteve a braços com “este paradigma”. Filipe Garcia recorda que até 2010 os gastos de dívida nacional sobre o PIB “estavam a disparar”. Depois, veio “a crise e isso fez com que houvesse uma espécie de pacto de regime entre os dois partidos do arco”. “O consenso das contas certas”, chama-lhe o economista, que também defende que “se deve caminhar para uma consolidação orçamental, para orçamentos de base zero, com a tentativa de diminuição do rácio da dívida pública sobre o PIB”. Mas, o exemplo lusitano demonstra também outra vertente tal como pode vir a acontecer no caso norte-americano: “O entendimento só surgiu por causa de uma crise”.
Cada norte-americano teria de dar 117 mil dólares para saldar a dívida
Os EUA são um país com 343 milhões de cidadãos, de acordo com dados do Departamento do Censo norte-americano. Dito isto e dividindo os tais 40 biliões pela população, equivale a 117 mil dólares por cada habitante.
Feitas as conversões de dólares para euros, 40 biliões de dólares são cerca de 110 vezes o PIB de Portugal em 2025. Quer isto dizer, que todos os portugueses teriam de trabalhar consecutivamente e ininterruptamente mais de 110 anos para pagar esta quantia.
Em junho, foi notícia que o património líquido de Elon Musk ultrapassou a barreira do bilião de dólares, no seguimento da oferta pública inicial da SpaceX. Contudo, mesmo a maior riqueza individual do planeta parece uma ninharia ao lado do monstruoso número da dívida pública dos EUA. Aliás, mesmo somando a riqueza das 500 personalidades do mundo, o valor final é ‘apenas’ 13 biliões de dólares, uma mera fração do montante que os EUA um talvez venham a pagar.
De acordo com o Índice de Bilionários da Bloomberg, as dez pessoas mais ricas do mundo possuem um patrimônio líquido combinado de 2,7 biliões de dólares. A dívida nacional dos EUA é quase 15 vezes maior.
É a insolvência uma saída para os EUA?
Perante o peso dos EUA e do dólar na economia mundial, um cenário em que os EUA entram em insolvência ou em default parece ser quase uma impossibilidade. Até porque, como refere Filipe Garcia que reitera que é “improvável”, ao contrário de Portugal e de todos os países com uma moeda partilhada com outros Estado como é o caso do Euro, os EUA têm “graus de liberdade diferentes na gestão de uma crise desta natureza, porque podem emitir a própria moeda”.
“No fundo e no limite, os Estados Unidos podem emitir sempre dólares para pagar os dólares que devem. E isso, tecnicamente, faz com que não tenham de entrar em default [insolvência]”, explica com uma ressalva: “O que é que uma emissão desenfreada de dólares provocaria? Uma desvalorização do dólar e uma perda de confiança do dólar”.
O economista lembra que “tecnicamente não é impossível os EUA entrarem em default” e exemplo disso mesmo são “os próprios ratings que já não são AAA, porque demonstram essa possibilidade”, mas é algo altamente improvável.
No entanto, o economista recorda que as recentes tentativas desta estratégia de “monetização da dívida” têm “corrido mal”. Aconteceu na Venezuela, na Argentina e no Zimbabué quando “emitiram moeda em roda livre e provocaram uma desvalorização brutal das moedas”. Filipe Garcia reconhece, no entanto, que estes são casos “caricaturais” e lembra que “o dólar não tem comparação com mais nenhuma moeda do mundo, porque é de longe aquela que é mais detida pelas entidades fora dos Estados Unidos”.
“Quando se diz que 60% das reservas cambiais globais dos bancos centrais estão em dólares, elas não estão em notas. Estão em, chamemos-lhe, dólares digitais ou eletrónicos aplicados em títulos do tesouro de curto ou de longo prazo. No fundo, o que os bancos centrais e qualquer fundo de pensões de grande dimensão tem são títulos de dívida americana. Agora imaginemos, o que é que seria se esses títulos de dívida americana desvalorizassem de uma forma significativa? Iria criar ondas de choque por todo lado e é, por isso, que me parece que o cenário não é verosímil”, teoriza.
Então e qual é o pior cenário possível plausível? Filipe Garcia admite uma realidade alternativa a um default norte-americana em que a situação não se altera e o mundo se vai afastando de “forma paulatina” da economia dos EUA e do dólar. Entre os piores cenários, este é o “mais provável”. “Porque lá está, no limite, o Tesouro dos EUA pode dizer assim: – Ok, temos aqui uma emissão de quanto? Mil milhões de dólares? O Tesouro tem dinheiro? Não? Emita-se!”.