Acidente provocou 52 mortos. Destroços do aparelho só agora foram encontrados

Depois de o Voo 526A da Pan Am, com destino a Nova Iorque e apelidado de “Easter Special”, ter caído no mar ao largo de Porto Rico, há 74 anos, um médico num barco de resgate apanhou uma bolsa que flutuava nas águas agitadas.

No seu interior havia uma esponja de maquilhagem e uma carta manuscrita encharcada, mas ainda legível, de um jovem soldado porto-riquenho destacado em Massachusetts para a sua nova esposa na cidade costeira de Ponce, no sul da ilha, escreveu o doutor Angel M. Marchand, no El Mundo, o principal jornal de Porto Rico na época.

“Não podes imaginar a alegria que me proporcionaste ao dizeres que te irás juntar a mim em Nova Iorque. Sou o homem mais feliz do mundo”, tinha escrito o soldado, acrescentando que rezava à Virgem Maria para que a protegesse durante a viagem. “Não tenhas medo do avião. Não vai acontecer nada”.

Mais tarde, o médico avistou o nome da noiva, Glória Rosário, no segundo hospital que visitou à procura dela. Lá estava ela, numa lista dos 17 sobreviventes.

“Menina, encontrei a sua bolsa com uma carta do seu marido. Ele deve estar muito preocupado. Quando vi o seu nome no hospital, decidi avisá-lo de que estava sã e salva”.

“Oh, coitado”, respondeu ela. “Ele é tão bom. E tem fé”.

Quando o médico perguntou sobre o acidente, Glória Rosário disse: “Mais pessoas deviam ter sido salvas”.

No total, o acidente ceifou 52 vidas. Como a maioria dessas vidas poderia ter sido salva, o acidente levou à introdução das agora familiares, embora frequentemente ignoradas, instruções de segurança pré-voo para os passageiros sobre onde encontrar e como utilizar coletes salva-vidas, jangadas e saídas de emergência.

Relatório de investigação do acidente do Clipper Endeavor de 1952:

1952 Clipper Endeavour Accident Investigation Report by u5962337818

A prima de Rosário, de 19 anos, que estava sentada ao seu lado, estava entre aqueles que não sobreviveram. A sua prima chorava histericamente, demasiado assustada com as ondas fortes para saltar para o oceano momentos após a aterragem de emergência. Morreu minutos depois, ainda agarrada ao avião, contou Rosário aos investigadores do acidente e aos membros da sua família.

Os destroços permaneceram perdidos no Atlântico até ao mês passado, quando uma equipa de busca aeronáutica descobriu o já quase esquecido “Clipper Endeavor” da Pan Am, a 2 mil pés abaixo da superfície do oceano, a poucas milhas da costa norte da ilha.

“A minha mãe sempre lamentou que o avião tivesse caído na parte mais profunda do oceano”, revela o filho de Rosário, Adrian, de 54 anos, à CNN. Com apenas 22 anos na altura do acidente, Rosário faleceu em 2015, aos 85 anos.

“Ela sempre imaginou que demoraria muito tempo a encontrar os destroços. Adoraria que ela tivesse visto isto. Ela sempre quis que as vítimas fossem reconhecidas, especialmente a sua prima”.

Entre os passageiros e a tripulação encontravam-se John Burn, o comandante da Pan Am, que sobreviveu ao seu segundo acidente aéreo fatal; um casal de missionários que morreu enquanto o seu filho de dois anos, Mark, foi encontrado a flutuar na água; Novetah Davenport, uma pioneira da aviação que ajudou a resgatar o menino; e um pai de 45 anos, de Brooklyn, que tinha viajado para San Juan para se reunir com a sua esposa e os seus seis filhos após uma separação de dois anos.

Vista em grande plano do logótipo da companhia PAA na secção do nariz do Clipper Endeavor. (Cortesia da AirSea Heritage Foundation e da Deep Sea Vision)

O avião Douglas DC-4 descolou pouco depois do meio-dia de uma Sexta-Feira Santa com 64 passageiros e cinco membros da tripulação. Mas John Burn foi obrigado a fazer uma aterragem de emergência na água, nove minutos depois, em águas agitadas e infestadas de tubarões a noroeste de San Juan, a 11 de abril de 1952. Dois dos seus quatro motores tinham avariado.

Todos os passageiros sobreviveram ao impacto inicial – com a secção da cauda do avião a partir-se -, mas apenas 17 foram resgatados. Os restantes pereceram nos momentos finais de caos e confusão na aeronave que se afundava rapidamente, de acordo com a investigação do acidente e as notícias da imprensa da época.

O filho de John Burn, Gray, um piloto privado de 58 anos, disse que o seu falecido pai falava com emoção sobre o que ficou conhecido na ilha como a tragédia da Sexta-Feira Santa, em particular o sentimento de impotência sentido durante uma emergência que ceifou tantas vidas.

“Ele sentia o peso de ser a pessoa responsável por todo o voo”, diz Gray Burn à CNN.

“Acho que o que mais o afetou foi o facto de muitas das pessoas a bordo terem medo da água, apesar de muitas delas viverem ali em Porto Rico, mesmo à beira-mar. Quando a aeronave começou a afundar-se, a água começou a entrar rapidamente”.

“Olha pela janela e aprecia a paisagem”

Glória casou-se com Hipólito Rosário, em Ponce, a 23 de dezembro de 1951, segundo familiares. Eram namorados desde a infância: ela tinha nove anos e ele 11 quando se conheceram.

Quase quatro meses depois, Glória, acompanhada pela prima de 19 anos, Norma Rodriguez, embarcou no avião. Glória ia para os Estados Unidos para viver com o marido. A prima, à última da hora, decidiu acompanhá-la, com planos de trabalhar como costureira. Era o primeiro voo para ambas.

As primas faziam parte da maior vaga de porto-riquenhos rumo aos EUA, conhecida como a “Grande Migração”, na década após 1950, quando cerca de 470 mil pessoas deixaram a ilha rumo ao continente.

Glória Rosário e o marido, Hipólito. (Cortesia de Francis Helen Viruet)

A maioria estabeleceu-se em Nova Iorque, lidando com as dificuldades da vida numa nova cidade, onde lutaram para encontrar emprego e enfrentaram a discriminação, as barreiras linguísticas e a negligência institucional, incluindo escolas mal equipadas para as acolher. Muitos alistaram-se nas forças armadas ou procuraram emprego nas indústrias do vestuário e da transformação.

Glória contou aos investigadores do acidente que estava sentada no lugar junto à janela, ao lado de uma saída de emergência sobre a asa do lado esquerdo da aeronave. Segundo o seu depoimento como sobrevivente, ela afirmou que, na descolagem, o avião “parecia estar a avançar muito devagar e não ganhava altitude rapidamente”. A aeronave oscilava de um lado para o outro.

“A minha prima estava bastante apreensiva, e eu disse-lhe para olhar pela janela, apreciar a paisagem e não se preocupar”, disse Glória. Em seguida, ouviu “dois ruídos altos”, antes de o avião virar para a esquerda e começar a descer sobre o oceano.

Declaração de Glória Rosário aos investigadores do acidente:

Gloria Rosario Statement to Crash Investigators by u5962337818

“O avião bateu na água com muita força”

Às 12:13, a pedido de John Burn, a tripulação informou a torre de controlo de San Juan que estavam a regressar ao aeroporto, de acordo com um relatório da Comissão de Aeronáutica Civil, antecessora da Administração Federal de Aviação.

“Entendido, 526A, autorizado a aterrar na Pista 9”, respondeu a torre, enquanto a pressão do óleo de um dos motores caía rapidamente e o outro motor apresentava várias falhas de ignição.

Às 12:17, a torre perguntou à tripulação qual era a sua localização.

“Ainda estamos bastante longe”.

Um minuto depois, a torre alertou a Guarda Costeira dos EUA em San Juan. Às 12:19, John Burn pediu ao segundo oficial que avisasse os passageiros de que o avião estava prestes a fazer uma aterragem de emergência na água. Momentos depois, o avião fez uma aterragem forçada no oceano.

Imagem em mosaico dos destroços do Clipper Endeavor. (Cortesia da AirSea Heritage Foundation e da Deep Sea Vision)

“O avião bateu com muita força na água e eu fui projetada para a frente com violência”, disse Glória aos investigadores, acrescentando que a água começou a entrar na cabina. Ela desatou o cinto de segurança quando o comissário abriu uma porta de saída de emergência e “as pessoas começaram a sair sem os coletes salva-vidas”.

A jovem contou aos investigadores que perguntou ao comissário onde estavam os coletes salva-vidas e ele respondeu: “no bolso” do assento. Mas ela não conseguiu encontrá-los.

“Os passageiros não foram informados sobre a localização dos coletes nem receberam instruções sobre a sua utilização por parte de qualquer membro da tripulação antes da aterragem de emergência na água. Como resultado, verificou-se uma confusão considerável”, afirma o relatório de investigação.

Glória disse que agarrou o braço da prima e tentou tirá-la do avião.

“Ela estava histérica e não largava a lateral da saída”, disse Glória, que afirmou ter saltado da asa quando a água lhe chegava ao peito. Foi ajudada pelo comissário e por outro membro da tripulação na água. Recordou que o piloto tentou alcançá-la antes de ela se ver numa jangada.

Segundo acidente mortal do comandante em nove anos

John Burn já tinha desafiado as probabilidades anteriormente.

Na altura do acidente de San Juan, estava casado com a cantora Jane Froman, a quem salvou enquanto ela se encontrava gravemente ferida e a flutuar numa jangada improvisada, depois de um hidroavião da USO que pilotava se ter despenhado num rio, em Portugal, em 1943, de acordo com o filho e com notícias da imprensa da época. Esse acidente causou a morte de 24 passageiros.

John Burn contou mais tarde aos investigadores que ajudou duas mulheres “em pânico”, acompanhadas de crianças, a vestir coletes salva-vidas e orientou os passageiros a abandonarem o avião, de acordo com um relato de maio de 1952 do seu testemunho publicado no The New York Times. No entanto, alguns passageiros permaneceram presos aos assentos.

John Burn, um veterano da Pan Am com 36 anos de serviço, ajudou um passageiro a abrir a porta principal da cabina e “começou a retirar à força os passageiros por essa saída”, antes de o piloto ter sido projetado para a água, de acordo com o relatório do acidente.

John Burn. (Cortesia de Heather Burn)

“Dos 12 passageiros que sobreviveram, sete saíram da aeronave pelas saídas de emergência da cabine, quatro pela porta principal da cabine e um pela janela direita da cabine de pilotagem”, referia o relatório. O primeiro e o segundo oficiais, na única jangada salva-vidas lançada, resgataram cinco passageiros, bem como o comissário de bordo e o assistente de bordo. Uma aeronave de resgate resgatou o comandante e outros sete passageiros que flutuaram nas águas agitadas durante um período que variou entre 30 minutos e uma hora.

O filho de John Burn, Gray Burn, recordou o comandante a dizer: “‘Só consigo lançar um número limitado de pessoas ao mar nestas condições’. Acho que era isso que realmente o incomodava”.

“Sem instruções de segurança, com uma barreira linguística significativa e sem um procedimento de evacuação coordenado em vigor, os passageiros enfrentaram o caos, a confusão e o mar agitado enquanto a aeronave se enchia de água e afundava em menos de três minutos”, afirmou um comunicado da Air/Sea Heritage Foundation.

A equipa de exploração, que incluía o programa “Expedition Unknown” do Discovery Channel, encontrou os destroços em junho, utilizando um drone subaquático autónomo.

Uma criança pequena é salva ao esticar o braço para fora da água

Outra sobrevivente foi Novetah Davenport, pioneira da aviação e membro da organização internacional de mulheres pilotos The Ninety-Nines.

Margarita Montalvo recordou ter levado Novetah ao aeroporto naquela manhã de Sexta-Feira Santa com o irmão da aviadora, seu avô adotivo, de acordo com um artigo de 2022 publicado no El Adoquin, uma publicação digital dedicada à cultura porto-riquenha.

Margarita e o avô regressaram ao aeroporto depois de terem sabido do acidente.

Enquanto as procissões da Sexta-Feira Santa decorriam por toda a ilha, as pessoas alinhavam-se na costa perto do porto de San Juan e aplaudiam uma aeronave anfíbia da Guarda Costeira que resgatou todos os sobreviventes, exceto um.

Imagem de sonar do local dos destroços do Clipper Endeavor. (Cortesia da AirSea Heritage Foundation e da Deep Sea Vision)

Viram Novetah Davenport a sair de uma aeronave de resgate, segurando a mão de uma criança pequena. Novetah contou-lhes que escapou do avião e puxou o menino para um local seguro quando este estendeu a mão da água, de acordo com relatos publicados e o testemunho de Margarita Montalvo. Novetah manteve-se em contacto com o menino até à sua morte, em 1992, aos 90 anos, escreveu Margarita.

O nome do menino é Mark Van Daalen. Tinha dois anos quando o avião se despenhou, sendo filho dos missionários Leo e Eunice Van Daalen, de acordo com relatos publicados em A Sentinela, a publicação oficial das Testemunhas de Jeová. A família planeava visitar familiares no continente.

“Leo e Eunice” morreram no acidente, de acordo com A Sentinela. O seu filho “foi encontrado a flutuar no oceano. Foi colocado num bote salva-vidas por um sobrevivente, recebeu respiração artificial e sobreviveu.»

Pouco depois do acidente, o famoso compositor porto-riquenho Rafael Hernández escreveu uma canção intitulada “A Tragédia da Sexta-Feira Santa”, que é tocada há décadas pelas estações de rádio de toda a ilha na véspera da Páscoa.

“Que Sexta-Feira Santa tão triste. A angústia e a dor sofridas pelos nossos irmãos que voavam para Nova Iorque”.

A letra também menciona uma “mulher valente” que envolveu nos braços um menino a chorar e o salvou enquanto lutava contra as ondas fortes.

“Anos perdidos que nunca poderão ser recuperados”

Diana Lachatanere conta que tinha cinco anos na altura do acidente. O pai, Romulo Lachatanere, nascido em Cuba, farmacêutico e jornalista na imprensa de língua espanhola, não sobreviveu.

Diana, de 80 anos, antiga arquivista e diretora-adjunta do Schomburg Center for Research in Black Culture na Biblioteca Pública de Nova Iorque, diz que tomou conhecimento da descoberta dos destroços no final de julho.

“Uma das coisas que me pergunto é: e se ele tivesse ficado inconsciente durante a aterragem?”, diz.

O Discovery Channel irá apresentar a descoberta num episódio de “Expedition Unknown” ainda este ano. O Discovery Channel, tal como a CNN, é propriedade da Warner Bros. Discovery.

Não há planos para recuperar os destroços nem para os perturbar de forma alguma, diz um porta-voz de “Expedition Unknown” à CNN, salientando que o local é um túmulo para aqueles que morreram no acidente.

Secção do nariz do Clipper Endeavor com o logótipo da empresa PAA visível. (Cortesia da AirSea Heritage Foundation e da Deep Sea Vision)

A Air/Sea Heritage Foundation está a trabalhar com o Governo de Porto Rico para alargar as medidas de proteção do local dos destroços e a defender a criação de um memorial em homenagem às vítimas do acidente.

“Para ser franca, esta descoberta não muda nada para mim”, confessa Diana Lachatanere à CNN. “O meu pai já está morto há 74 anos. Talvez se um corpo tivesse sido recuperado… Simplesmente não sei. Na verdade, o corpo não é o que importa, são os anos perdidos que nunca poderão ser recuperados”.

Mas as contribuições da tragédia para a segurança aérea proporcionaram algum consolo, diz Diana Lachatanere.

“Tenho voado desde os 15 anos – em 1961. Costumava prestar atenção, mas depois tornou-se ruído de fundo”, diz sobre as instruções pré-voo. “Agora vou prestar atenção e dar às comissárias de bordo o devido valor”.

O filho e a filha de Glória Rosário recordaram como ela parecia ter encontrado um propósito após o acidente. Foi assistente social durante mais de três décadas e obteve um mestrado em Nova Iorque aos 42 anos. Glória e o marido, com quem esteve casada durante 62 anos, criaram quatro filhos em Brooklyn.

Glória apanhou um voo para Nova Iorque pouco depois do acidente. Continuou a voar durante décadas, conta a filha de 63 anos, Frances Viruet.

Depois de cada voo, diz Frances, Rosário parava sempre à porta da cabina de pilotagem para apertar a mão ao piloto e dizer: “Obrigada”.