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Cereais mais caros, por causa da guerra no Mar Negro e da seca na Europa, ameaçam alimentos. Portugal terá possivelmente de procurar cereais noutros mercados

O preço do pão deverá começar a subir em Portugal a partir de outubro, pressionado pelo encarecimento do trigo e por outros custos suportados pelas empresas. Mas a subida dos cereais poderá atingir, mais tarde, as massas, bolachas e pastelaria e, de forma indireta, à carne, ao leite e aos ovos.

Débora Barbosa, presidente da Associação do Comércio e da Indústria de Panificação, Pastelaria e Similares (ACIP), diz ao Jornal Económico que desde junho, matérias-primas como o trigo panificável e as leveduras aumentaram, em média, cerca de 10%. Energia, transportes e mão de obra também estão a pressionar os custos.

Ainda não é possível antecipar a dimensão do aumento. A subida do trigo não é transmitida diretamente ao preço do pão, uma vez que a farinha representa apenas cerca de 14% dos custos totais de produção. Pessoal, distribuição e energia têm um peso muito superior. Num cálculo teórico, um aumento de 30% no trigo, integralmente refletido na farinha e sem alterações nos restantes custos, faria subir o custo total de produção do pão em cerca de 4,2%.

A pressão está a aumentar nos mercados internacionais. O trigo negociado em Chicago chegou no final de agosto ao valor mais elevado desde 2023, depois de subir cerca de 37% face aos mínimos de finais de junho. A guerra e as dificuldades de transporte no Mar Negro voltaram a afetar as exportações ucranianas e russas.

Na Ucrânia, os ataques russos estão a dificultar o funcionamento dos portos e a desviar parte das exportações para o Danúbio. Segundo dados citados pela Reuters, chegaram a estar cerca de 70 navios à espera junto ao canal de Sulina, cuja capacidade caiu para dois ou três navios por dia. Na Rússia, o problema é diferente: há cereal, mas as perturbações logísticas dificultam a sua chegada aos mercados internacionais.

Ao problema geopolítico junta-se a seca europeia. Em França, uma das fontes importantes do abastecimento português, a produção de milho poderá cair para 6,9 milhões de toneladas este ano. Se a produção europeia diminuir, Portugal terá de procurar cereais noutros mercados, aumentando os custos de transporte.

É importante realçar que Portugal produz apenas cerca de 20% dos cereais que consome e depende das importações para os restantes 80%. No trigo, o grau de autoaprovisionamento ronda apenas 5%. As reservas existentes corresponderão a cerca de 15 dias a três semanas de consumo, segundo José Palha, presidente da Associação Nacional de Produtores de Cereais, Oleaginosas e Proteaginosas, ao JE.

Depois do pão poderão surgir efeitos noutras áreas. O trigo duro é essencial para as massas, enquanto a cevada é usada no fabrico de cerveja. Milho, trigo e cevada entram ainda na alimentação animal, pelo que uma subida prolongada dos preços poderá acabar por aumentar os custos de produção de carne, leite e ovos.

O impacto não será imediato. Segundo economistas da FAO citados pela Reuters, um choque nas matérias-primas alimentares pode demorar entre três e seis meses a chegar por completo aos preços pagos pelos consumidores.