Entre o mar e a ria, a moradia Casa Verde procura quase desaparecer na paisagem. O projeto dos arquitetos Sofia e Ricardo Senos parte das características muito particulares da Costa Nova, em Ílhavo, para criar uma habitação contemporânea que combina betão aparente, volumes verdes e interiores minimalistas.
No verão, a zona é luminosa e marcada pela proximidade da praia e pelas tradicionais construções da Costa Nova. No inverno, a realidade é bem diferente: o vento, a areia e a exposição às intempéries fazem parte da vida quotidiana. Foi precisamente essa dualidade que esteve na base do projeto.
“A Costa Nova é um local também muito inóspito, muito exposto às intempéries, ao vento de norte”, explicam os irmãos, responsáveis pelo atelier M2 Senos Arquitectos, fundado em 2007, com a missão de desenvolver estudos e projetos de arquitetura, reabilitação e desenho urbano, sediada em Aveiro.
O terreno, com 435 metros quadrados, encontra-se no topo do cordão dunar, numa zona particularmente exposta Assim, o projeto particular procurou responder às necessidades da família que decidiu construir a sua nova habitação e às condições naturais do lugar.
Ao mesmo tempo, havia uma característica que não podia ser ignorada: a paisagem. A poente está o mar, a nascente a ria, a norte o farol da Barra e, a sul, a Praia da Vagueira. “Na Costa Nova é um sítio onde o norte, o sul, o poente e o nascente estão claramente identificados e, portanto, a casa também está implantada de acordo com esses eixos”, explica a arquiteta.
O nome Casa Verde não surge por acaso. A escolha da cor está diretamente relacionada com a envolvente natural, marcada pela vegetação, que muda de tonalidade ao longo do ano. “A escolha da cor, no fundo, foi para tentarmos fundir a casa com a envolvência”, explica Ricardo Senos à NiT. A intenção era que o edifício não surgisse como um elemento completamente estranho à paisagem, mas que parecesse pertencer àquele lugar.
A solução passou por dividir visualmente o edifício em dois momentos. Na base, surge um embasamento de betão bruto, pensado para lidar diretamente com as condições do terreno. Sobre ele assenta a estrutura superior, revestido a verde.
“Dá-nos algum desenho e alguma escala interessante para aquele volume”, explica o arquiteto. A escolha do betão não é apenas estética. No inverno, os ventos fortes fazem a areia avançar pelo terreno e chegam mesmo a provocar acumulações significativas, por isso era necessário utilizar materiais capazes de lidar com essa realidade sem exigir uma manutenção constante.
Se o exterior procura dialogar com a paisagem, o interior segue uma lógica praticamente oposta. A casa é assumidamente contemporânea e recorre a soluções construtivas atuais. O material, inicialmente pensado apenas para o exterior, prolonga-se para dentro da habitação: “O betão não existe só no exterior, mas existe também no interior”, esclarecem os responsáveis.
As paredes são claras e a decoração segue uma estética minimalista, pensada para uma utilização descontraída e prática. A proximidade da praia obrigava a isso, porque a areia, água salgada e pés molhados fazem parte do quotidiano de uma casa como esta, tendo que ser resistente, sem perder a sensação de leveza.
Assim, o interior foi pensado como parte integrante da própria arquitetura, incluindo a cozinha, os armários, os closets e outros elementos de mobiliário fixo. A escolha ficou assente num open space, entre a cozinha, sala de jantar e sala de estar, onde o branco atravessa todas as divisões e cria uma harmonia elegante. Estão ainda presentes as escadas que dão acesso ao outros pisos, camufladas pela estrutura e revestimento.

É também o caso da mesa da sala de jantar, desenvolvida em corian, um material sintético composto por resina acrílica e minerais naturais, criado pela empresa DuPont que é muito utilizado em bancadas de cozinha, casas de banho e decoração. Neste caso, acompanha a linguagem minimalista do restante espaço.
A decoração propriamente dita ficou mais ligada às escolhas dos proprietários, embora sempre com acompanhamento dos arquitetos. O resultado mantém uma linguagem simples que deixa a arquitetura assumir o protagonismo.
No chão foi aplicado microcimento, numa tonalidade entre o branco e o pérola, numa referência subtil à areia e à própria paisagem envolvente. O betão maciço aparente nos tetos acaba por ser o principal elemento a introduzir contraste. “É quase como um fruto: temos uma pele muito escura fora e, quando se abre, é todo um pouco branco”, resume Sofia Senos.
À primeira vista, a Casa Verde pode transmitir a ideia de ser uma construção bastante fechada. Apesar de estar rodeada por mar, ria e dunas, não apresenta grandes superfícies envidraçadas diretamente expostas para o exterior. É, no entanto, uma ilusão criada pelo próprio arquiteto. “As janelas surgem através de alguns vazios e estão ligadas à vivência interior”, explica Sofia Senos. Muitas delas estão associadas às varandas e funcionam através de diferentes filtros, criando uma relação mais indireta com a paisagem.
O resultado é uma casa com 353 metros quadrados, onde a natureza está constantemente presente, mas sem transformar o interior num espaço completamente exposto. Ao mesmo tempo, esta solução permite preservar alguma intimidade. A casa consegue tirar partido das vistas para o mar, para a ria e para as dunas sem colocar os moradores em exposição.
Apesar de o projeto ter começado como uma casa de férias, acabou por ganhar outra função durante o processo. O cliente, inicialmente interessado numa habitação para períodos de descanso junto à praia, decidiu que aquele seria afinal o local de residência permanente.
E houve ainda outra alteração inesperada. Durante a construção, os proprietários tiveram gémeos. A nova realidade familiar obrigou a repensar a distribuição interior, sobretudo no último piso, resultando numa habitação com três andares.
“Durante todo o processo tiveram gémeos, o que obrigou a uma recomposição das plantas interiores”, conta Sofia Senos. Foi necessário criar uma nova suíte no sótão, alteração que acabou por dar origem a um dos grandes destaques da casa: uma casa de banho com banheira posicionada junto a uma janela até ao chão, que proporciona uma vista privilegiada.
Inspirada nos palheiros, mas sem imitá-los
Apesar de estar inserida num território fortemente associado aos tradicionais palheiros da Costa Nova, a casa não pretende reproduzir essa arquitetura. “A nossa interpretação não tem nada a ver com o palheiro propriamente dito”, esclarece Ricardo Senos. A referência está antes na aprendizagem retirada da arquitetura vernacular e na forma como essas construções respondiam ao território.
“Há ensinamentos que vêm da parte dos palheiros, como o facto de a casa estar elevada, entre outra aprendizagens com a arquitetura vernacular, sem que se esteja coma a intenção de procurar igual”, acrescenta Sofia Senos.
A implantação e a volumetria são, assim, contemporâneas, embora exista uma relação direta com a história e as características do lugar. No fundo, a Casa Verde foi desenhada para corresponder à força do território e à tranquilidade que se procura dentro de casa.
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