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O seu voo acaba de ser cancelado e você está na fila do serviço de atendimento da companhia aérea à espera da sua vez para reagendá-lo. Um dos viajantes está visivelmente nervoso enquanto outro parece relativamente despreocupado. A circunstância é a mesma, mas os seus corpos e cérebros poderão estar a reagir de formas muito diferentes.

Desde há muito que os cientistas sabem que a genética, a personalidade e as experiências passadas ajudam a moldar a intensidade com que as pessoas reagem à pressão. Agora, novos estudos sugerem que o microbioma intestinal – a comunidade de micróbios que vive no sistema digestivo – também poderá representar um papel.

Num estudo recente, pessoas com microbiomas intestinais mais diversificados demonstraram ter uma resposta mais forte ao stress agudo – uma descoberta que, segundo os cientistas, pode reflectir a eficácia da mobilização do corpo e não dificuldades em lidar com a situação.

As descobertas acrescentam uma nova e surpreendente dimensão a uma pergunta familiar: por que razão o mesmo episódio stressante parece afectar diferentes pessoas de maneiras tão diferentes?

AljubarrotaO que acontece ao organismo durante o stress

O stress é uma reacção natural que ocorre quando nos apercebemos de um desafio, uma exigência ou uma potencial ameaça, diz Timothy Riley, especialista em medicina familiar na Penn State Health.

Quando nos sentimos stressados, a nossa amígdala – o sistema de processamento emocional do cérebro – pode entrar em acção, diz Kelly Atwood, professora associada do Departamento de Estudos Pós-graduados de Psicologia da Universidade James Madison. Ao detectar uma ameaça, o nosso cérebro envia uma mensagem para o hipotálamo, o centro de comando do corpo, que ajuda a coordenar a resposta ao stress.

Por conseguinte, poderemos ter sensações físicas perante situações de stress elevado, como o coração a bater depressa, respiração mais rápida, problemas gastrointestinais ou activação muscular para permitir uma eventual fuga de uma situação perigosa, diz Rajita Sinha, directora do Yale Stress Center.

O intestino pode influenciar a reacção do organismo a um desafio

Novos estudos publicados na Neurobiology of Stress sugerem que as pessoas com um microbioma intestinal mais diversificado, ou seja, maior variedade de microorganismos no intestino, podem responder de maneiras diferentes a situações de stress agudo. No estudo, uma maior diversidade microbiana foi associada a cortisol mais elevado e respostas ao stress mais intensas relatadas por adultos saudáveis.

O intestino e o cérebro estão em constante comunicação através do eixo intestino-cérebro, explica Thomas Karner, autor do estudo e doutorando no Laboratório Wagner da Universidade de Viena, na Áustria. “O microbioma intestinal e os compostos por este produzidos podem influenciar a forma como o sistema de stress do organismo responde aos desafios e regula os níveis das hormonas do stress”, diz Karner. “Em simultâneo, o stress pode alterar a composição do microbioma intestinal, afectar a integridade da barreira do intestino e os níveis de inflamação e modificar a produção de metabólitos microbianos como os ácidos gordos de cadeia curta. Como tal, a relação entre a saúde intestinal e o stress parece funcionar em ambas as direcções.”

20240408 GONCALODELGADO 057724Uma resposta mais forte ao stress nem sempre é pior

No entanto, nem todo o stress é nocivo. O stress de curto prazo, ou agudo, pode ajudar o organismo a responder a um desafio ou ameaça imediata, explica Karner.

Karner dá o exemplo de uma zebra a fugir de um leão na savana: nesse instante, a resposta de stress ajuda-a mobilizar energia e focar a atenção de modo a lidar com a ameaça. Ele explica que a descoberta levanta a possibilidade de uma maior diversidade do microbioma acompanhar uma resposta ao stress mais flexível ou adequadamente mobilizada, em vez de se limitar a atenuar o stress.

“No nosso estudo, uma maior diversidade microbiana intestinal foi associada a níveis de cortisol e reactividade subjectiva ao stress mais elevados após um gatilho de stress agudo, o que poderá reflectir uma mobilização adaptativa e limitada no tempo do sistema de stress que nos ajuda a estar à altura do desafio”, afirma.

Por outro lado, o stress crónico envolve uma activação prolongada ou repetida dos sistemas relacionados com o stress. Voltando ao exemplo da zebra, é o problema não é aquele impulso curto de stress quando a zebra foge do leão, mas aquilo que aconteceria se a resposta de stress permanecesse activa muito depois de a ameaça ter terminado.

Nos seres humanos, isso pode acontecer devido a preocupações de longa duração, stress social, incerteza, prazos ou exposição repetida a situações difíceis sem uma recuperação adequada, diz Karner. Ao longo do tempo, isso pode perturbar os sistemas que regulam as hormonas do stress e afectar o cérebro, o sistema imunitário e o microbioma intestinal.

“Um microbioma mais diversificado poderá ser mais resiliente a essas perturbações”, acrescenta Karner, “mas… são necessários mais estudos para perceber como a diversidade do microbioma influencia a transição das respostas de curto prazo ao stress adaptativo para as consequências negativas do stress crónico.”

Registo permanenteO microbioma é apenas uma parte da resposta ao stress

Segundo Riley, a genética desempenha um papel na forma como sentimos o stress. Os seres humanos desenvolveram respostas ao stress que ajudaram os nossos antepassados a reagir depressa a potenciais ameaças e diferenças genéticas individuais podem influenciar a reactividade desses sistemas. “Temos diferenças individuais”, diz Sinha. “Alguns genes são mais reactivos e outros genes são menos reactivos em diferentes pessoas.”

Experiências anteriores ao próprio nascimento também podem influenciar a forma como o organismo reage ao stress. Isto deve-se em parte devido à epigenética – alterações químicas que afectam a forma como os genes se exprimem sem alterar o ADN. Uma análise publicada em 2025 na revista Genes, que examinou 71 estudos, descobriu evidências de ligações entre experiências traumáticas e alterações epigenéticas envolvidas na regulação do stress. No entanto, os investigadores ainda estão a estudar durante quanto tempo essas alterações persistem e se podem ser transmitidas hereditariamente.

As nossas experiências de vida também contribuem para a forma como lidamos com o stress. “As nossas reacções aos factores de stress são incrivelmente complexas e estão profundamente embutidas no tecido dos nossos corpos e mentes desde que nascemos”, diz Riley. “À medida que vamos crescendo, aprendemos com cada experiência e o nosso sistema nervoso presta especial atenção a experiências stressantes ou traumáticas.”

No entanto,a experiência pessoal não tem necessariamente de envolver trauma. Por exemplo, perante um desmaio, uma pessoa sem formação médica pode perfeitamente ficar em pânico com a situação. Por outro lado, se um profissional da área da medicina assistir ao mesmo acontecimento “poderá saber que o risco é baixo e a situação é gerível”, diz Riley.

Segundo Atwood, o temperamento e a personalidade também moldam a forma como as pessoas reagem ao stress. Um estudo publicado em 2016 no Journal of Personality and Social Psychology descobriu que pessoas mais neuróticas – com tendência para sentirem emoções negativas e preocupação – tinham reacções emocionais mais intensas em dias stressantes. As pessoas mais extrovertidas, organizadas e autodisciplinadas ou abertas a novas experiências tendiam a demonstrar picos emocionais mais pequenos. Estas características podem influenciar a forma como as pessoas interpretam e lidam com os desafios, mas reflectem tendências – não limites fixos da resiliência.

Por fim, não há um gene, característica de personalidade ou assinatura microbiana específicos que determinem a forma como uma pessoa reage sob pressão. A resposta ao stress reflecte uma interacção complexa entre o cérebro, o corpo, a experiência e as exigências do momento – e os investigadores só agora começam a compreender onde se enquadra o intestino.