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O ano começou mal. O mau tempo não se fez sentir apenas em terra e, impedidos de sair para o mar e sem peixe para vender, os pescadores perderam o rendimento de dois meses. Para compensar, o município de Cascais atribuiu-lhes um subsídio equivalente ao salário mínimo, mas os problemas desta comunidade são bem mais antigos e profundos: há menos peixe e a concorrência dos hipermercados é cada vez maior. No dia da Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, entre flores lançadas à água e memórias de quem nunca regressou, a população voltou a lembrar que a sua história também se faz com aqueles que vivem do oceano.
Às duas da manhã, quando a vila ainda dorme, Manuel começa o dia. Há 20 anos que o despertador toca à mesma hora, a anunciar mais uma jornada no mar. A rotina exige adaptação: deita-se por volta das onze da noite, acorda por volta da uma e meia para sair para a pesca, de onde regressa pelas dez da manhã. Dormir é difícil. “Durmo bipartido: duas horas de manhã e duas horas à noite”, conta. Mas não foi sempre assim.
Manuel, que no início do ano ficou dois meses sem poder trabalhar, é pescador por necessidade, mais do que por gosto ou vocação. Trabalhava na lota, queriam passá-lo para o regime de part-time e tinha uma criança pequena. Não foi “paixão”, foi sentido de “responsabilidade”. Gostava do mar, mas “para pescar à cana” e quando lhe apetecia.
Hoje, quando fala do trabalho, reconhece sem hesitar que “ser pescador é uma profissão difícil”. Apesar disso, quando lhe pergunto pelas vantagens não hesita: “Veio na procissão? Viu só a nossa costa, como é bonita? E também vejo o nascer do sol todos os dias — há quem nunca tenha visto. Lindo.”
No início deste ano, porém, nem Manuel nem os restantes pescadores de Cascais puderam contemplar o nascer do sol a partir do mar. A depressão Kristin e o sucessivo comboio de tempestades mantiveram as embarcações em terra durante semanas. Dois meses sem poder trabalhar numa atividade que, para muitas famílias, é o único sustento. “Dois meses sem ir ao mar faz diferença”, reconhece Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais, que nasceu na vila e conhece muitos destes pescadores desde sempre.
Face a uma situação que não dependia dos trabalhadores, o município decidiu avançar com um apoio extraordinário e foi aprovado em reunião de câmara o pagamento de um valor equivalente ao salário mínimo nacional para a todos os pescadores registados em Cascais e para toda a tripulação, além de outros apoios destinados a minimizar os efeitos do período em que estiveram impedidos de sair para o mar.
Para o autarca, tratou-se de uma medida de justiça perante uma circunstância que os pescadores não podiam controlar. “Foi uma decisão justa para uma situação que não estava no controlo dos pescadores”, afirma. “Não podemos falhar aos que são de cá. Gostamos de dizer que Cascais é uma terra de reis e pescadores, mas, muitas vezes, só nos lembramos dos reis e não pensamos nos pescadores.”
Menos peixe, mais trabalho
Em Cascais existem atualmente 52 embarcações e uma comunidade piscatória de cerca de 150 homens, à qual se juntam as mulheres que continuam a desempenhar um papel fundamental na economia ligada ao mar. Muitas são peixeiras e fazem questão de o dizer. É o caso de Vera, de 42 anos, mulher de Manuel. Cresceu numa família de pescadores e hoje tem uma banca na praça.
A praça, que tem atualmente 13 bancas de peixe e marisco, não abre todos os dias. Porquê? “O mundo mudou”, diz o presidente da câmara. As bancas têm custos associados: caixas (armazenamento) e gelo incluídos, a média ronda os 200 euros por mês. E ainda é preciso enfrentar a concorrência dos supermercados, que oferecem aos consumidores a possibilidade de comprarem peixe mais barato ao mesmo tempo que fazem o resto das compras.
Este é um dos motivos pelos quais a praça de Cascais tem hoje menos movimento. Para Vera, faria diferença poder encontrar ali, além de peixe e carne, frutas e legumes todos os dias. “As pessoas gostam de ir às compras e comprar tudo aquilo de que precisam no mesmo local. Sem frutas e legumes, não completam as compras”, explica. Muitas acabam, por isso, por escolher o supermercado.
Vera fala da profissão com orgulho. “Sou peixeira, sim senhora”, afirma, recordando os tempos em que era uma das primeiras mães a ir à escola dos filhos explicar aos alunos em que consistia o seu trabalho. Hoje, reconhece, já quase ninguém quer seguir a profissão, “só mesmo por gosto”. Os dois filhos são exemplo dessa mudança: um, de 18 anos, quer ser polícia e prepara-se para os exames dentro de 15 dias; o outro, de 23, trabalha na Siemens e está a terminar o mestrado em Design. Nenhum quer ser pescador.
Jojó, patrão da embarcação onde Manuel trabalha, anda no mar há cerca de 30 anos e tem visto a atividade mudar profundamente. O problema, diz, não é apenas o esforço exigido pela profissão, mas também a quantidade de peixe disponível. “Hoje o peixe é menos do que era há uns anos e o trabalho é maior. Temos de trabalhar muito mais para pescar o que pescávamos há 20 anos. É uma luta diária.”
Em Cascais, cerca de 90% da atividade piscatória está concentrada no polvo e, este ano, também devido às limitações provocadas pelas tempestades, os pescadores foram autorizados a capturá-lo durante o mês do defeso, em agosto, numa alteração ao calendário habitual.
O dia começa de noite e muitas vezes a pescaria prolonga-se até ao meio-dia. “Às vezes temos de estar mais tempo dentro de água até termos a quantidade de peixe que justifique o trabalho”. Sábado e domingo pode ser para descansar, a menos que durante a semana o tempo tenha impedido a saída para o mar e seja necessário compensar. Quando o peixe chega a terra, há uma nova batalha a enfrentar: a da venda.
O peixe é vendido à lota e, a partir daí, entra numa cadeia comercial onde os pescadores sentem que têm pouco poder. Jojó considera que existe uma diferença demasiado grande entre o valor que recebem os pescadores e aquele a que o peixe chega ao consumidor. “Somos nós que trabalhamos, somos nós que apanhamos, mas o preço a que o peixe é vendido no mercado em relação ao valor que vendemos à lota é três ou quatro vezes mais. Somos os mais prejudicados, somos os que não conseguem ganhar dinheiro.”
Se fosse ministro das Pescas por um dia, Jojó sabe bem a primeira medida que tomaria: limitar a margem praticada pelos grandes retalhistas. “Os grandes retalhistas não poderiam nunca vender peixe acima do valor a que ele é vendido à lota. Teria de haver uma margem certa para os dois lados”. Na sua perspetiva, o Estado devia estabelecer não apenas um preço de venda dos pescadores à lota, mas também regras para o preço final pago pelo consumidor. “Nós é que estamos todos os dias a arriscar a vida, mas recebemos três ou quatro vezes menos do que os hipermercados”, insiste.
Uma profissão feita de risco e memória
Jojó conhece demasiado bem o lado mais duro da profissão. O seu barco chama-se “Sopas”, uma homenagem a um sobrinho (João) que morreu no mar, em 2003, e que era conhecido por essa alcunha. O corpo nunca foi encontrado. Recentemente, a família voltou a ser atingida pela morte, desta vez a do irmão de Jojó, vítima de um enfarte. Quando fala da pesca, fala de “uma vida de stress todos os dias, uma luta”.
Hoje, os cuidados são maiores, as regras são mais apertadas e muitos dos perigos foram reduzidos, mas a natureza da profissão não mudou. Continua a ser uma atividade dependente do estado do mar, do tempo, da quantidade de peixe e de um mercado sobre o qual os pescadores têm pouco controlo. E continua a exigir que homens como Jojó ou Manuel saiam de casa quando a maioria da população ainda dorme, sem saber exatamente como será o dia que os espera.
É essa relação entre risco, trabalho e memória que ganha uma expressão particularmente forte durante a Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes. Realizada ontem, integrada nas Festas do Mar, a procissão voltou a reunir a comunidade piscatória de Cascais e milhares de pessoas, que acompanharam o cortejo – primeiro pelas ruas, da Igreja Matriz, passando pela Avenida D. Carlos I e Passeio Dom Luís I até ao pontão da Praia da Ribeira, depois pelo mar, até à Guia, onde foram largadas as flores em homenagem aos pescadores que morreram.
- À espera dos andores. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- A festa no mar. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- A festa no mar. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- A procissão. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- A saída dos barcos. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- A ver a festa. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Amizade. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Andor com Nossa Senhora dos Navegantes. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Andor com Nossa Senhora dos Navegantes. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Baía de Cascais. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Banda dos Bombeiros Voluntários de Alcabideche. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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- Barco engalanado. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Cascais
Créditos: Isabel Tavares | MadreMedia
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Nas margens e a bordo, muitos turistas, portugueses e estrangeiros, juntaram-se à comunidade local numa tradição com mais de três décadas e que é Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal desde 2015.
Mais do que uma cerimónia religiosa, tornou-se um momento em que uma comunidade se reconhece a si própria e lembra aqueles que ficaram pelo caminho. Os nomes dos barcos ajudam a contar essa história. “Vanda Isabel”, que este ano transportou o andor de Nossa Senhora dos Navegantes — sorteado anualmente entre os participantes —, “Mónica Sofia” ou “Sopas” são mais do que designações de embarcações, carregam afetos e memórias.
Para Nuno Piteira Lopes, não há Festas do Mar sem esta ligação à comunidade que lhes dá sentido. “Há mais de 30 anos que se faz a procissão, agora inserida nas Festas do Mar. Mas nem faz sentido ter as Festas do Mar sem procissão”. E deixa uma posição clara sobre aquilo que considera ser a essência da celebração: “Se algum dia alguém quiser fazer as Festas do Mar sem procissão, chame-lhe outra coisa qualquer, mas já não serão as Festas do Mar”.
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