Luís Neves dirigiu ainda críticas a quem, segundo afirmou, condena adversários sem provas
O ministro da Administração Interna apontou esta terça-feira o dedo às “grandes investigações jornalísticas”, considerando que algumas serão motivadas pela “inveja” de pessoas que diz ter afastado, presumivelmente da Polícia Judiciária.
Alguns minutos depois do discurso, e perante os jornalistas, Luís Neves recusou-se a mencionar as pessoas que movem a tal “inveja”, ainda que tenha dito que conhece as pessoas em causa e até tenha deixado no ar um possível processo judicial. “Há atos e haverá consequências”, reiterou, deixando também um desafio ao presidente do Chega, André Ventura.
“No próximo dia 8 [de setembro] terei audição no Parlamento. Quero dizer a André Ventura que estarei totalmente disponível para responder a qualquer dúvida”, frisou, sublinhando que a demissão está fora de hipótese.
Na segunda vez que falou de forma mais longa sobre o assunto, Luís Neves anunciou ainda que tinha mais um caso para apresentar, desta vez relacionado com “televisores, sofás, equipamentos de ginásio” apreendidos a uma pessoa que descreveu como suspeita de ser “um dos maiores traficantes de droga em Portugal”.
O traficante em causa é Ruben Oliveira, também conhecido como Xuxas, e o caso foi noticiado pela CNN Portugal, que deu conta de que o agora ministro conduz um carro apreendido ao criminoso. Mas não só. Bens como sofás, televisões e equipamento de ginásio que também foram apreendidos a Xuxas na sequência da megaoperação policial que, segundo a polícia de investigação, permitiu desmantelar um grupo que seria liderado pelo maior narcotraficante português..
“Criem-me outra vez”, afirmou o ministro, antes de questionar: “Haverá castigo mais adequado para quem comete crimes que o património possa ser atingido? Não. Não há.”
O responsável defendeu que os bens adquiridos com dinheiro proveniente do crime podem ser utilizados para melhorar as condições e a preparação física dos polícias responsáveis pelas investigações e detenções. “Foi isso que fiz. Cumpri a lei, apliquei a lei”, declarou Luís Neves.
A reação surge depois de a CNN Portugal ter revelado que a Polícia Judiciária apreendeu oito televisões, 15 equipamentos de ginásio, duas cadeiras e três sofás, declarando-os de “utilidade operacional” para a própria instituição.
Foi neste mesmo processo que foi apreendido o carro atualmente utilizado pelo ministro da Administração Interna, e que foi cedido pela Polícia Judiciária. A viatura já era conduzida pelo agora governante quando ocupava o cargo de diretor nacional da PJ. Tal como o Volkswagen Golf GTD, também as televisões, os equipamentos de ginásio, as cadeiras e os sofás foram apreendidos em 2022 e declarados de utilidade operacional para a Polícia Judiciária.
A utilização destes bens voltou a ser abordada por Luís Neves durante a cerimónia que assinalou o 148.º aniversário do Comando Regional da Polícia de Segurança Pública da Madeira. O ministro afirmou que a legislação que permite às forças policiais utilizar viaturas apreendidas remonta a 2007 e garantiu ter feito o reporte de cerca de 800 carros.
“Parece que alguém agora está do lado de quem cometeu crimes. Porventura que fiquem com o património”, afirmou.
Durante a intervenção, o ministro afirmou ainda que todas as investigações que realizou tiveram por base provas. “Investiguei, senhores magistrados aqui presentes, como sabem, sempre com provas. Sem provas não há acusação, há difamação”, declarou.
Luís Neves dirigiu ainda críticas a quem, segundo afirmou, condena adversários sem provas. “Há quem condene adversários sem provas. É a diferença entre o Estado de direito e a política da suspeita permanente”, disse.
Segundo o responsável, este mecanismo passa pela criação de “um caos que dá jeito”, através do lançamento de “acusações graves” que continuam a ser repetidas mesmo quando nunca chegam a ser demonstradas. Quando uma acusação perde força, acrescentou, “lança-se uma outra”.
“Não me vão impedir de governar”
Numa altura em que atravessa fortes acusações da oposição e pedidos diretos do Chega para que peça a demissão do cargo que assumiu ainda este ano, Luís Neves garantiu que não se vai deixar intimidar.
“A mim não me intimidam, jamais me intimidarão. Nada disto me intimida ou condiciona, não me vai impedir de governar”, garantiu.
Luís Neves considera que há quem tenha reconhecido a sua experiência, conhecimento e passado no combate ao crime, bem como a capacidade para encontrar soluções, e que, por isso, optou por outra forma de o atacar. “Escolheram a única estratégia que conhecem: lançar suspeitas, atacar a honra e tentar intimidar”, referiu ainda a partir do Arquipélago da Madeira.