Moritz Muschick/BMC Ecology

Tinema poppense

Insetos-pau reproduzem-se sem sexo há quase dois milhões de anos, mas mantêm intactos mecanismos genéticos dos machos.

Algumas espécies de insetos-pau do género Timema reproduzem-se sem sexo há mais de um milhão de anos e, em certos casos, há quase dois milhões. É impressionante, uma vez que é o mais longo período de reprodução assexuada conhecido entre os insetos. Agora, o seu caso torna-se ainda mais fascinante.

Um novo estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que os mecanismos genéticos associados à reprodução sexuada destes insetos, apesar de não serem usados há centenas de milhares de gerações, continuam funcionais.

O fenómeno já era conhecido: chama-se partenogénese e é uma forma de reprodução em que as fêmeas produzem descendência sem serem fertilizadas por machos.

Das cerca de 21 espécies conhecidas de Timema, que vivem no oeste dos Estados Unidos, cinco desenvolveram esta capacidade, segundo os investigadores, citados pelo IFL Science. Os cientistas acreditam que a reprodução assexuada surgiu de forma independente, em cada uma destas espécies.

A análise genética recente permitiu usar as mutações acumuladas como uma espécie de “relógio”. Algumas espécies deixaram de fazer sexo há cerca de 500 mil anos; outras, há quase dois milhões de anos, notaram os investigadores.

O trabalho concentrou-se sobretudo num mecanismo conhecido como compensação de dosagem. Nos Timema, os machos e as fêmeas têm números diferentes de cromossomas X, o que obriga os organismos sexuados a equilibrar a atividade dos genes entre os dois sexos,explica Darren Parker, da Universidade de Bangor, em comunicado da instituição.

Nas espécies que se reproduzem apenas por partenogénese, esse sistema deixou, na teoria, de ser necessário, porque praticamente já não existem machos. Seria expectável que tivesse sofrido mutações e acabado por desaparecer. Mas não foi isso que aconteceu.

Ao estudar raríssimos machos que ainda surgem ocasionalmente nestas populações, a equipa verificou que os mecanismos de compensação de dosagem continuam 100% funcionais, mesmo mais de um milhão de anos depois de terem deixado de ter uma função regular.

“O nosso estudo descobriu que, em vez de desaparecerem como esperávamos, os mecanismos de compensação de dose permaneceram totalmente funcionais, apesar de não serem necessários durante mais de um milhão de anos”, diz Parker.

Durante muito tempo, os biólogos consideraram que a reprodução assexuada dificilmente poderia persistir por períodos muito longos, sobretudo porque reduz a diversidade genética e pode tornar uma população mais vulnerável a doenças ou alterações ambientais.

E existem exemplos ainda mais extremos. Os microscópicos de água doce rotíferos bdeloídeos podem reproduzir-se sem sexo há até 100 milhões de anos e alguns ácaros do solo do grupo Oribatida poderão fazê-lo há cerca de 300 milhões de anos. O caso dos Timema tem, no entanto, o recorde entre os insetos


Tomás Guimarães, ZAP //