
A vitamina K é essencial para recém-nascidos. O número de pais que a rejeitam disparou nos EUA — aumentando o risco de hemorragias perigosas.
A desinformação pode matar.
O ZAP tem dado nos últimos meses notícias de crianças não vacinadas que morreram com sarampo nas Filipinas e nos EUA — país onde não vacinar está na moda, com consequências potencialmente catastróficas.
Uma análise realizada para a Reuters revela agora que a percentagem de pais e cuidadores nos EUA que recusam dar aos bebés recém-nascidos a injeção padrão de vitamina K aumentou significativamente este ano.
Este aumento deixa mais recém-nascidos em risco de episódios de hemorragia potencialmente fatais, alertam os médicos.
O secretário da Saúde Robert F. Kennedy Jr. alimentou durante anos essa desconfiança, lançando dúvidas sobre vacinas e outros medicamentos.
A aumento da rejeição da vitamina K coincide com o anúncio de janeiro de RFK, que retirou a recomendação da dose à nascença da vacina contra a hepatite B e de outras cinco vacinas infantis.
A taxa de recém-nascidos que não receberam a injeção de vitamina K no primeiro dia de vida nos hospitais subiu mais de 57% entre janeiro e junho, revelou um estudo de registos de saúde de mais de 1 milhão de nascimentos em todo o país feita pela empresa de dados e análise de saúde Truveta.
O estudo da Truveta mostra que, no primeiro semestre de 2026, a taxa de rejeição foi 2,5 vezes maior do que a taxa média entre 2019 e 2024. Foi 1,4 vezes superior à de 2025.
Segundo dados dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC), que continuam a recomendar a injeção, os bebés nascem com níveis muito baixos de vitamina K, que ajuda o sangue a coagular, e ficam desprotegidos até cerca dos seis meses de idade.
Sem ela, têm uma probabilidade 81 vezes maior de sofrer, nos primeiros seis meses, uma hemorragia potencialmente fatal no cérebro ou no intestino, dizem os CDC.
Um em cada cinco bebés que sofre uma hemorragia grave morre. Sem a injeção, uma hemorragia deste tipo ocorre em um em cada 59 nascimentos.
“É mesmo assustador. É como se estivéssemos a andar para trás“, disse Nia Heard-Garris, médica pediatra e investigadora no Lurie Children’s Hospital, em Chicago. “Estamos a fazer um grande esforço para manter estes bebés vivos”.
Quando Kennedy retirou as recomendações relativas às seis vacinas infantis, disse que as crianças americanas recebiam demasiadas injeções e sugeriu que estas estavam ligadas a doenças crónicas.
Não há quaisquer provas científicas que sustentem esta alegação.
Estas mensagens contraditórias levantaram dúvidas entre muitos pais sobre tratamentos de rotina para recém-nascidos, incluindo a vitamina K, dizem especialistas ouvidos pela Reuters.
A percentagem de bebés nos EUA que não receberam vitamina K à nascença subiu para 8,1% no final de junho, contra 5,2% seis meses antes, segundo o estudo da Truveta.
Quando a pediatra Sarah Coggins era estudante de medicina no Vanderbilt Children’s Hospital, em 2013, Nashville registou uma concentração invulgar de bebés com hemorragias graves provocadas por deficiência de vitamina K.
Segundo um relatório publicado pelos CDC na altura, os pais acreditavam que a injeção era desnecessária e potencialmente tóxica ou carcinogénica.
Coggins tratou um desses bebés.
“O bebé ficou com lesões cerebrais duradouras”, disse Coggins, agora neonatologista no Children’s Hospital of Philadelphia. “Isso ficou sempre comigo. Acho que a maioria dos pediatras tem uma história dessas”.
“Não é um risco teórico. Tira-me o sono”, diz Coggins.