Por Vinicius Francisco
Metade das 194 pessoas que participaram de uma pesquisa realizada em um serviço especializado em HIV e infecções sexualmente transmissíveis de São Paulo relatou uso de substâncias em contexto sexual nos seis meses anteriores. Mas outro dado revela uma dimensão menos visível do fenômeno: apenas 45% disseram já ter conversado com algum profissional de saúde sobre o uso de drogas.
O contraste está no centro do Estudo GLOW, desenvolvido na Casa da Pesquisa, centro de pesquisa vinculado ao Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids do Estado de São Paulo, o CRT-SP.
Liderado pelo médico infectologista Lucas Rocker Ramos, investigador principal, o GLOW busca compreender o chemsex não apenas a partir das substâncias utilizadas, mas também de suas relações com saúde mental, práticas sexuais, percepção de risco e estratégias de prevenção do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs.
No 15º Congresso Paulista de Infectologia, realizado entre 26 e 29 de agosto, em São Paulo, diferentes análises do projeto foram apresentadas à comunidade científica. Uma delas avaliou a ocorrência de chemsex e as substâncias relatadas pelos participantes. Outra investigou justamente a comunicação entre usuários dos serviços e profissionais de saúde.
Esse segundo trabalho, apresentado pela enfermeira Giovanna Haimowski, primeira autora da análise, conquistou o 2º lugar entre os trabalhos de apresentação oral do congresso.
Crédito: Vinicius Francisco
“A pergunta que motivou esse trabalho foi: como a comunicação com os profissionais de saúde se relaciona às percepções de risco e às práticas sexuais?”, explicou Giovanna.
Os resultados apontaram barreiras que não dependem apenas de quem utiliza substâncias.
“Os principais motivos para a conversa não acontecer foram baixa percepção de risco, falta de iniciativa profissional e medo de julgamento”, afirmou.
O que é chemsex?
A expressão chemsex, formada pelas palavras inglesas chemical e sex, é usada para descrever o uso de determinadas substâncias associado à atividade sexual. As definições podem variar entre estudos e contextos. No GLOW, os pesquisadores investigaram o uso de substâncias psicoativas antes ou durante o sexo.
Substâncias psicoativas são aquelas que atuam sobre o cérebro e podem alterar percepção, humor, consciência ou comportamento.
Para Rocker, porém, limitar o debate à combinação entre sexo e drogas significa deixar de enxergar parte importante do fenômeno.
“Acho que o primeiro ponto é entendermos o uso de drogas na população LGBTQIA+ como uma questão de saúde pública. Não podemos olhar para esse fenômeno apenas como uma questão de comportamento individual ou de escolha”, afirma.
Segundo o pesquisador, o uso de substâncias pode estar atravessado por fatores como autoestima, estigma, preconceito, relações afetivas, experiências de violência e sofrimento emocional.
“Quando colocamos a droga dentro do contexto sexual, a complexidade aumenta ainda mais.”
O que o GLOW encontrou
O GLOW ainda está em andamento. A análise apresentada no congresso reuniu 194 questionários respondidos entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, de forma online e anônima.
Segundo Lucas Rocker, a escolha desse formato buscou oferecer maior privacidade diante de perguntas sobre sexualidade, uso de substâncias e saúde mental.
“Como estamos falando de temas bastante sensíveis, entendemos que uma ferramenta online poderia proporcionar maior privacidade aos participantes e, consequentemente, favorecer respostas mais sinceras e fidedignas.”
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Entre as pessoas pesquisadas, 50% relataram chemsex nos seis meses anteriores.
Entre aquelas que relataram a prática, a cannabis, ou maconha, foi citada por 65%, seguida por cocaína, 36%; medicamentos para ereção, 35%; poppers, 32%; ecstasy e GHB, 18% cada; metanfetamina, 14%; e ketamina, 7%.
Alguns desses termos ainda são pouco conhecidos fora dos contextos em que circulam. Poppers são substâncias inaláveis, geralmente à base de nitritos, de efeito rápido. O GHB, ou gama-hidroxibutirato, reduz a atividade do sistema nervoso central. O ecstasy é frequentemente associado ao MDMA, substância estimulante que também altera sensações e percepção. A metanfetamina é um potente estimulante, enquanto a ketamina é um anestésico que pode produzir efeitos dissociativos, como alterações na percepção do corpo e do ambiente.
O álcool foi analisado separadamente. 78% relataram consumo e, entre essas pessoas, 49% disseram ter realizado atividade sexual sob efeito da bebida.
Para Rocker, conhecer qual substância é utilizada é apenas o início da conversa.
“Simplesmente perguntar ao paciente ‘você usa drogas?’ muitas vezes não é suficiente. Precisamos entender qual droga, em qual contexto, com que frequência, por qual motivo e quais são as consequências desse uso.”
O silêncio no atendimento em saúde
É nesse ponto que as diferentes análises do GLOW se encontram.
Se metade da amostra relatou chemsex, apenas 45% disseram já ter conversado com algum profissional de saúde sobre o uso de drogas.
Para Giovanna, o resultado chama ainda mais atenção porque os participantes estavam inseridos no contexto de um serviço especializado, onde HIV, outras ISTs e saúde sexual já fazem parte da rotina de cuidado.
“A gente está dentro de um cenário de um serviço especializado, onde se espera que essa conversa tenha sido mais frequente”, afirmou.
Crédito: Vinicius Francisco
Entre as razões apontadas para o tema não aparecer no atendimento estavam a baixa percepção de risco por parte de alguns participantes, o medo de julgamento e também a falta de iniciativa do profissional de saúde.
“O que os dados nos mostram é que a gente tem que quebrar essa barreira de comunicação, abordar mais”, disse Giovanna.
Rocker chega a uma conclusão semelhante a partir da prática clínica.
“Precisamos perguntar mais, mas principalmente precisamos aprender como perguntar.”
Para o infectologista, colocar exclusivamente sobre o paciente a responsabilidade de iniciar uma conversa sobre drogas, sexo e saúde mental ignora o peso do estigma.
“Se o serviço de saúde não estiver preparado para acolher essa população, a pessoa simplesmente não vai falar sobre o que está acontecendo. E, sem essa conversa, perdemos a oportunidade de identificar riscos, fazer prevenção e oferecer cuidado no momento certo.”
O julgamento, ou mesmo a expectativa de ser julgado, pode fazer com que informações importantes nunca apareçam durante o atendimento.
“Se o paciente acha que o profissional vai condenar o seu comportamento, ele provavelmente não vai contar que usa drogas, que faz sexo sob efeito de substâncias ou que teve determinada experiência sexual. E aí perdemos justamente a informação que precisamos para cuidar melhor.”
Saúde mental aparece nos dados, mas não explica tudo
A idade média da amostra foi de 35 anos. Em estatística, a mediana é o valor que divide um grupo ao meio: metade dos participantes tinha idade abaixo desse número e metade, acima.
90% eram homens cisgênero, ou seja, homens que se identificam com o gênero masculino atribuído a eles ao nascer. 84% eram gays ou outros homens que fazem sexo com homens.
Na saúde pública e em pesquisas epidemiológicas, esse último grupo costuma ser identificado pela sigla HSH, homens que fazem sexo com homens. A expressão descreve uma prática sexual, e não necessariamente uma identidade. Um homem pode manter relações com outros homens sem se identificar como gay ou bissexual.
Em relação à raça e cor, 53% se autodeclararam brancos, 46% pretos ou pardos e 1% asiáticos. Cerca de 68% tinham ensino superior ou pós-graduação.
Outro dado chamou a atenção dos pesquisadores: 47% relataram algum diagnóstico psiquiátrico. Entre essas pessoas, 66% faziam uso de medicamentos para tratamento.
Isso, porém, não significa que o estudo tenha demonstrado que o chemsex cause transtornos mentais ou que um diagnóstico psiquiátrico leve alguém a praticar chemsex.
O desenho da pesquisa permite descrever características encontradas naquele grupo e explorar relações entre elas, mas não estabelecer, sozinho, uma relação de causa e efeito.
Para Rocker, a presença da saúde mental nos resultados reforça justamente a necessidade de evitar respostas simplistas.
“A droga muitas vezes pode ser apenas a ponta de um problema muito maior. Por trás daquele uso podem existir camadas de sofrimento, insegurança, baixa autoestima, estigma, preconceito, dificuldades afetivas ou questões de saúde mental.”
Quem as pesquisas ainda não conseguem enxergar?
Há outra cautela fundamental: os resultados do GLOW não podem ser generalizados para toda a população LGBTQIA+ de São Paulo ou do Brasil.
A maior parte dos participantes foi recrutada em um serviço especializado em HIV e ISTs. A amostra também apresentou predominância de homens cisgênero que fazem sexo com homens, pessoas brancas e participantes com maior escolaridade.
Para Rocker, isso produz uma pergunta importante para os próximos estudos.
“Será que estamos realmente vendo quem mais usa, ou estamos vendo quem mais conseguimos estudar?”
O pesquisador destaca a possível sub-representação de pessoas trans e negras.
“Essas populações podem estar sub-representadas nessas pesquisas e, consequentemente, seus padrões de uso, suas motivações e as drogas utilizadas podem estar sendo invisibilizadas.”
A diferença é essencial para interpretar os resultados. Encontrar determinado perfil entre os participantes de uma pesquisa não significa demonstrar que esse seja o perfil de quem mais pratica chemsex na população.
PrEP, HIV e prevenção combinada
Entre os participantes do GLOW, 77% utilizavam PrEP e 23% viviam com HIV.
A PrEP, profilaxia pré-exposição ao HIV, é uma estratégia de prevenção utilizada por pessoas que não vivem com o vírus. Ela consiste no uso de medicamentos antirretrovirais antes de possíveis exposições ao HIV e, quando utilizada corretamente, reduz de forma muito significativa a possibilidade de adquirir o vírus.
“A PrEP, quando utilizada corretamente, é uma ferramenta fundamental para prevenção do HIV”, afirma Rocker.
Ela, porém, previne o HIV e não todas as outras ISTs.
Por isso, a saúde pública trabalha com o conceito de prevenção combinada, que reúne diferentes estratégias de acordo com as necessidades de cada pessoa. Entre elas estão PrEP, preservativos, testagem periódica para HIV e outras ISTs, vacinação para infecções que possuem imunizantes disponíveis, diagnóstico e tratamento oportunos e redução de danos.
Para quem vive com HIV, o próprio tratamento também é uma importante ferramenta de prevenção.
Os antirretrovirais são medicamentos que impedem a multiplicação do HIV no organismo. Com o tratamento adequado, a quantidade de vírus no sangue pode cair a níveis tão baixos que os exames de rotina não conseguem detectá-la. É o que se chama de carga viral indetectável.
Quando essa condição é mantida de forma sustentada, a pessoa não transmite o HIV por via sexual. É o princípio científico conhecido como Indetectável = Intransmissível, ou I=I.
Redução de danos não é incentivo ao uso
Outro conceito central para Rocker é a redução de danos.
Na saúde pública, a abordagem reconhece que o cuidado não deve depender de uma pessoa interromper imediatamente o uso de determinada substância. O objetivo é diminuir riscos e consequências negativas, oferecer informação e manter o vínculo com os serviços de saúde.
“É claro que não queremos incentivar o uso de drogas. Mas, se a pessoa vai utilizar uma substância, precisamos garantir que ela tenha informação suficiente para reduzir os riscos. Ela precisa conhecer os efeitos daquilo que está usando, entender quais situações podem representar maior risco e, principalmente, saber quais são os seus próprios limites”, afirma.
Redução de danos também significa substituir julgamento por escuta.
Para Rocker, preparar os serviços para abordar chemsex exige formação continuada dos profissionais, equipes multidisciplinares, atenção à saúde mental e participação de pessoas da própria comunidade na construção das estratégias de cuidado.
“O mais importante é não transformar essas pessoas em ‘usuários de drogas’ antes de enxergá-las como pessoas. Precisamos entender as motivações, o contexto e o sofrimento que podem estar por trás desse comportamento.”
O GLOW não oferece um retrato definitivo do chemsex no Brasil. Seus resultados descrevem uma população específica e deixam perguntas que ainda precisarão ser respondidas por estudos capazes de alcançar grupos mais diversos.
Mas o trabalho premiado no Congresso Paulista de Infectologia coloca em evidência uma barreira que os serviços de saúde já podem enfrentar: quando o paciente teme ser julgado e o profissional não abre espaço para a conversa, oportunidades de prevenção e cuidado podem ser perdidas.
Para Giovanna, os resultados mostram a necessidade de romper essa barreira de comunicação. Para Rocker, o caminho passa pela construção de serviços onde drogas, sexualidade e saúde mental possam ser discutidas sem moralismo.
“A informação não incentiva o uso de drogas”, resume o infectologista. “A informação permite que as pessoas façam escolhas mais conscientes e reduzam danos quando o uso acontece.”