
Uma nova investigação sugere que, nas formas graves de doença hepática associada ao álcool, algumas células do fígado podem ficar presas num estado intermédio entre a sua identidade madura e um estado semelhante ao de células progenitoras.
Nesse estado, perdem parte das suas funções normais e não conseguem completar adequadamente o processo de regeneração.
O fígado tem uma capacidade de regeneração. Após uma lesão significativa, os hepatócitos sobreviventes podem alterar temporariamente o seu estado, multiplicar-se e voltar a adquirir características de células hepáticas maduras, contribuindo para a reconstrução do tecido.
Essa capacidade pode ser comprometida nas formas avançadas de doença hepática associada ao álcool, que incluem inflamação, fibrose, cirrose e, em casos graves, insuficiência hepática.
Num estudo publicado em setembro de 2025 na Nature Communications, investigadores analisaram amostras de fígado saudável e de pessoas com hepatite ou cirrose associada ao álcool.
Segundo o ScienceDaily, estes descobriram alterações generalizadas no processamento do ARN. nomeadamente no denominado splicing, o processo através do qual o ARN é editado antes de ser utilizado para produzir proteínas.
Uma das proteínas que mais se destacou foi a ESRP2, um regulador do splicing essencial para a manutenção das características dos hepatócitos maduros. Nos fígados afetados pela doença alcoólica grave, os níveis de ESRP2 estavam reduzidos.
Os cientistas verificaram ainda que a perda de ESRP2 podia contribuir para alterações na função e regeneração das células hepáticas. Em ratinhos geneticamente modificados sem esta proteína, observaram-se alterações de lesão e regeneração hepática semelhantes a algumas das encontradas na doença associada ao álcool.
A equipa procurou depois perceber o que poderia estar a reduzir a ESRP2. Os resultados apontaram para sinais inflamatórios presentes no ambiente do fígado danificado, com destaque para a via do TGF-β, envolvida na inflamação e na fibrose.
Em células hepáticas, o bloqueio de células hepáticas, o bloqueio dos recetores do TGF-β aumentou os níveis de ESRP2 e restaurou parcialmente alguns dos padrões normais de splicing.
É importante, contudo, sublinhar que estes resultados ainda não constituem um tratamento para a doença hepática associada ao álcool. A maior parte da evidência foi obtida através de modelos celulares e animais, sendo necessários estudos clínicos para determinar se esta estratégia é segura e eficaz em seres humanos.
As alterações no splicing do ARN poderão também vir a ter interesse como biomarcadores para identificar ou monitorizar a doença, embora essa possibilidade ainda precise de ser validada clinicamente.
Em conjunto, o estudo sugere que a inflamação persistente pode interferir com o processamento do ARN através da redução de ESRP2, deixando alguns hepatócitos num estado intermédio e comprometendo a regeneração do fígado.
Os resultados ajudam, assim, a explicar por que razão a recuperação pode ser limitada em casos avançados de doença hepática associada ao álcool, mesmo após a eliminação do álcool.