Os cientistas podem estar diante de uma das pistas mais intrigantes já registradas sobre a matéria escura, substância misteriosa que se acredita representar cerca de 85% de toda a matéria do universo. Pesquisadores identificaram uma interação incomum de partículas no subsolo que ainda não conseguiram explicar completamente.
O evento foi observado durante a análise de dados do LUX-ZEPLIN (LZ), considerado um dos detectores de matéria escura mais sensíveis do mundo. Uma equipe internacional formada por 250 cientistas e engenheiros de 39 instituições, distribuídas por seis países, passou dois anos examinando os registros do experimento.
De acordo com o Daily Mail, o que chamou a atenção foi uma interação que parece corresponder à colisão entre um átomo comum e uma partícula ainda desconhecida pela ciência. Uma das possibilidades levantadas pelos pesquisadores é que o sinal tenha sido produzido por uma partícula massiva de interação fraca, conhecida como WIMP, uma das principais candidatas a compor a matéria escura.
Apesar da possibilidade, os próprios cientistas fazem uma ressalva importante: um único evento não é suficiente para afirmar que a matéria escura foi finalmente detectada.
Um sinal escondido no subsolo
O detector LUX-ZEPLIN está instalado sob aproximadamente 1,6 quilômetro de rocha em Dakota do Sul. Em seu interior estão cerca de 10 toneladas de xenônio líquido ultrapuro, utilizadas na tentativa de identificar os sinais extremamente fracos produzidos quando uma possível partícula de matéria escura colide com um átomo de xenônio.
A estrutura subterrânea ajuda a proteger o experimento contra os raios cósmicos. Além disso, detectores adicionais e sistemas computacionais sofisticados são utilizados para eliminar sinais produzidos pela matéria comum.
Foi nesse ambiente que os pesquisadores encontraram a interação que se destacou do histórico esperado.
De acordo com o Dr. Sam Eriksen, da Universidade de Bristol e principal autor da análise, o resultado pode representar um primeiro passo para compreender a matéria escura como uma partícula.
O pesquisador destacou que os cientistas tentam compreender melhor essa substância há quase um século e classificou o resultado como“incrivelmente emocionante” após todo o esforço empregado na investigação.
Ainda assim, a equipe reforça que existem explicações alternativas que precisam ser consideradas.
Cientistas evitam declarar descoberta
O evento apresentou uma significância estatística de 2,6 sigma, o que corresponde a aproximadamente 0,5% de probabilidade de que um evento pelo menos tão incomum seja produzido pelos processos de fundo esperados.
Na física, os pesquisadores geralmente exigem uma significância de cinco sigma para declarar uma descoberta.
Por isso, o professor Rick Gaitskell, da Brown University, afirmou que a equipe está intrigada com o registro, especialmente porque ele apareceu na região dos dados em que a matéria escura seria esperada e as possíveis origens concorrentes são consideradas muito baixas.
Mesmo assim, o cientista deixou claro que os pesquisadores não estão afirmando ter observado matéria escura. A intenção, neste momento, é compartilhar o evento com a comunidade científica para que ele possa ser analisado e contribuir para novas investigações.
Os pesquisadores também afirmam ter examinado cuidadosamente possíveis explicações relacionadas à matéria comum, mas ainda não encontraram uma causa óbvia para o evento incomum.
As descobertas foram apresentadas pelo Dr. Sam Eriksen durante a conferência de Astrofísica de Partículas TeV de 2026, no Japão. Os resultados também foram disponibilizados para análise de outros cientistas e submetidos a uma revista científica para publicação.
O que é a matéria escura?
A matéria escura é uma substância hipotética que não absorve, reflete ou emite luz, o que faz com que seja efetivamente invisível. Embora nunca tenha sido observada diretamente, sua existência é associada aos efeitos gravitacionais que exerce sobre a matéria conhecida.
Acredita-se que ela funcione como uma espécie de “cola” gravitacional responsável por manter as galáxias unidas. Cálculos indicam que, sem uma grande quantidade de matéria escura, muitas galáxias não conseguiriam permanecer estruturadas enquanto giram.
Enquanto isso, apenas cerca de 5% do universo observável é composto por matéria conhecida, formada por átomos e partículas subatômicas.
O evento registrado pelo LUX-ZEPLIN, portanto, ainda está longe de representar uma confirmação. Mas, caso sua origem continue sem explicação e novos sinais semelhantes sejam encontrados, ele poderá se tornar uma pista importante na longa busca para descobrir do que é feita a matéria escura.
*Sob supervisão de Giovanna Gomes