Na semana passada, o futebol feminino português acordou com a notícia de que Diana Silva, jogadora do Benfica e presença habitual nas convocatórias da Seleção Nacional, está grávida. Aos 31 anos, tornou-se a primeira jogadora portuguesa a tomar a decisão de ser mãe durante a carreira e ainda a jogar ao mais alto nível, recebendo o apoio do clube, da Federação Portuguesa de Futebol e até dos rivais. Nem de propósito, o tema tornou-se o assunto em cima da mesa no mundo inteiro e à boleia de uma entrevista de Alexia Putellas.
Em conversa com o jornal El País, a jogadora espanhola adiantou-se à oficialização por parte da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) e anunciou que o organismo acabou de fechar um acordo com uma clínica para que todas as jogadoras do país possam congelar óvulos se pretenderem atrasar a gravidez e a maternidade para uma fase posterior das carreiras ou até para o pós-carreira.
“O nosso grupo de capitãs tinha esta inquietação, porque é muito importante para uma jogadora estar em Mundiais, mas isso implica que as pessoas que têm o desejo de ser mães — eu não tinha, mas comecei a ter há algum tempo — tenham dificuldade em encaixar tudo. Depois de um trabalho incrível da Federação conseguiram chegar a acordo com uma clínica para que exista a possibilidade de congelar óvulos enquanto as jogadoras ainda estão no ativo e até quererem. Para mim é um avanço enorme, porque a Federação percebe que estás a servir o teu país enquanto vais contra o teu relógio biológico, que não podes parar e não podes ser mãe porque precisas do teu corpo para trabalhar”, atirou a agora jogadora das inglesas do London City Lionesses, que tem 32 anos.
Há notícias que sabem ainda melhor quando são partilhadas em família. ❤️
Parabéns, Diana! ????
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— SL Benfica (@SLBenfica) August 27, 2026
O acordo foi assinado com a Clínica Tambre, em Madrid, e deve ser tornado oficial ainda durante este mês de setembro. A RFEF vai assim assumir o financiamento de todo o procedimento, que continua a ter custos muito avultados, e de acordo com o La Vanguardia já recebeu perguntas e declarações de interesse por parte de várias jogadoras que querem ser incluídas no plano a breve prazo.
Depois da entrevista de Alexia Putellas, foram várias as atuais ou antigas jogadoras a aplaudirem a decisão da RFEF — que está integrada no Plano de Conciliação Familiar introduzido na sequência do Campeonato do Mundo de 2023, que as espanholas ganharam, mas que originou o escândalo com Luis Rubiales e a consequente saída do presidente do organismo. Neste plano, para além desta última medida, encontra-se ainda ajuda financeira para que os familiares das jogadoras possam assistir aos jogos fora do país e a garantia de que as jogadoras que já são mães possam ter tempo diário com os filhos durante as concentrações.
“Noutras profissões reformas-te aos 65 anos, a carreira de uma jogadora de futebol é muito curta. Isto permite que elas não tenham de interromper as suas carreiras no seu melhor momento, permite que possam aproveitar esse momento em que estão na sua melhor versão como atletas. Parece-me uma aposta muito benéfica para as jogadoras”, explicou Toña Is, antiga internacional por Espanha e atual selecionadora do Panamá, numa opinião corroborada por Alba Redondo, internacional espanhola que está na Juventus, ou Marta Corredera, outra antiga internacional espanhola que representou Real Madrid, Barcelona e Arsenal.
???????????? La Congelación de óvulos en defensa de la maternidad.
En septiembre se podría confirmar un hito importante en la RFEF.
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— TheFemaleStats (@thefemalestats) September 2, 2026
“Nem todas as mulheres estão biológica ou mentalmente no mesmo sítio. Parece-me ótimo que exista esta opção para as jogadoras que não pensam ser mães neste momento, mas que podem querer no futuro”, explicou a antiga jogadora, atualmente com 35 anos, que acabou por terminar a carreira depois de decidir ser mãe. São casos como o de Marta Corredera, porém, que estão a tornar o acordo da RFEF pouco consensual.
Se é certo que um acordo que garante o financiamento total de um procedimento tão caro como a preservação de óvulos é sempre uma boa notícia para as jogadoras de futebol, também é certo que parece que a RFEF está a pressionar as jogadoras a adiarem as respetivas gravidezes para que não interrompam as carreiras no ativo. Que o diz, pelo menos, é Ana Peleteiro, atleta espanhola do triplo salto que acabou de ser mãe pela segunda vez.
“E se uma medida que estão a vender-nos como feminista for na realidade profundamente machista?”, começou por questionar através de um vídeo publicado nas redes sociais. “O problema está no porquê de a instituição para a qual estas mulheres trabalham ter o interesse de financiar o adiamento da sua maternidade. Esta medida pretende facilitar que as mulheres sejam mães ou pretende facilitar que não o sejam enquanto ainda jogam? São coisas muito diferentes. Ao invés de adaptar a estrutura desportiva para que a maternidade tenha espaço, adaptamos os tempos reprodutivos das mulheres para que continuem a ter espaço na estrutura”, acrescenta Ana Peleteiro, que foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021.
Mais à frente, a atleta defende que o facto de esta opção existir pode originar pressões por parte da RFEF. “Quando esta opção te é oferecida pela instituição da qual depende a tua carreira profissional, em que momento é que uma opção pode começar a converter-se numa expectativa? Se podias congelar óvulos, por que é que decidiste engravidar agora? Pode gerar pressão sobre uma decisão que devia pertencer exclusivamente à mulher. A pergunta não devia ser como é que conseguimos que uma atleta possa atrasar a maternidade, mas sim como é que conseguimos que ser mãe não penalize a carreira de uma atleta”, vincou.
De recordar que, em 2020 e muito na sequência do diferendo entre Sara Björk Gunnarsdóttir e o Lyon depois de a islandesa ter sido mãe, a FIFA decretou que nenhum clube pode rescindir contrato com uma jogadora que decida engravidar, para além de tornar obrigatórias as 14 semanas de licença remunerada depois do parto. Para além disso, o organismo que regula o futebol mundial estabeleceu ainda outras condições como salas reservadas em que as jogadoras possam amamentar nas instalações do clube, creches e jardins de infância com profissionais durante os jogos e treinos e acompanhamento profissional especializado durante a gravidez e o pós-parto.
Para Ana Peleteiro, porém, continua a existir “um abismo” entre oferecer alternativas e “construir um sistema em que a opção mais conveniente para a instituição seja que não aconteça já”, defendendo uma maior proteção dos contratos durante a gravidez, a garantia da reintegração no plantel depois da licença de maternidade, o respeito pelos tempos de recuperação e pós-parto e ainda o facilitamento do cuidado e do acompanhamento dos filhos. E Marta Corredera, apesar de reconhecer que o acordo da RFEF é positivo, acaba por concordar com a atleta do triplo salto.
“Ainda falta muito para que todas as mulheres que querem ficar grávidas no ativo possam fazê-lo. Para mim é muito mais importante garantir que uma jogadora que queira ficar grávida possa estar tranquila, que tenha um pré e pós-parto em condições. E é preciso insistir nisso, mas as medidas que existem atualmente são insuficientes. A jogadora continua a sentir-se insegura, muito insegura, na hora de planear a maternidade”, disse.
Antes da RFEF, também a FIFPro, o sindicato de jogadores profissionais de futebol, anunciou há algum tempo uma colaboração com um centro de reprodução assistida para ajudar todas as jogadoras sindicalizadas em questões relacionadas com a maternidade. A nível de clubes, o Chelsea também revelou já este verão que chegou a um acordo semelhante ao da RFEF com uma clínica de fertilidade para proteger as jogadoras. Fora do futebol, no ténis, a WTA introduziu em 2025 uma norma batizada como Regra de Especial Proteção da Fertilidade, prevendo que as tenistas possam retirar-se temporariamente da competição para serem mães ou congelar óvulos, regressando aos courts com a classificação protegida, ou seja, sem que o seu ranking seja prejudicado pela ausência.