Entre os alvos do alerta de Zelensky estão especificamente as “companhias aéreas que utilizam o espaço aéreo russo, todas as seguradoras e todos aqueles que ainda operam nos principais aeroportos russos”. Os efeitos já se começaram a fazer sentir

A ameaça caiu como uma bomba em Moscovo, que, pela primeira vez, se vê perante uma possibilidade que nunca havia imaginado. Volodymyr Zelensky parece estar determinado em encerrar o espaço aéreo russo, uma medida que, caso seja concretizada através de uma campanha sistemática de drones, poderá provocar um impacto significativo não apenas na capacidade militar da Rússia, mas sobretudo na circulação aérea e na atividade económica de algumas das suas principais cidades, instalando definitivamente a guerra no país que a começou.

“Na verdade, existe alguma razão para [Volodymyr] Zelensky referir isto”, começa por explicar o tenente-general Rafael Martins.

“Tendo em conta as campanhas que a Ucrânia está atualmente a desenvolver, com drones de maior alcance e em maior quantidade, e a elevada densidade de aparelhos a cruzar o espaço aéreo russo, bem como o facto de a Rússia estar relativamente diminuída em termos de radares e de vetores de defesa aérea, há razões para Zelensky fazer este alerta.”

Mas o impacto deste aviso, que é no mínimo surpreendente, não se limita à dimensão militar, podendo atingir, mesmo que indiretamente, a aviação civil e toda a atividade aérea, comercial e não comercial. O lançamento de vagas sucessivas de mísseis e drones, a diferentes altitudes, velocidades e em várias direções, representa um perigo para a circulação aérea normal, sobretudo quando a defesa aérea tem de identificar previamente qualquer objeto desconhecido ou sem plano de voo.

Rafael Martins considera que, neste momento, a Rússia poderá não dispor de meios suficientes para fazer essa identificação e responder a todas as ameaças. “Não acredito que a Rússia tenha meios suficientes para fazer a identificação”, afirma, sublinhando que, perante “centenas ou até nos milhares desses mesmos vetores”, Moscovo poderá não ter capacidade para os identificar e, consequentemente, neutralizar ou destruir. Ainda recentemente o presidente da Ucrânia atirou que gostaria de lançar mil drones por dia contra o território do inimigo.

Os alarmes do Kremlin soaram depois de, na terça-feira, o presidente ucraniano ter avisado as companhias aéreas que voam sobre a Rússia, as seguradoras e todos os que continuam a operar nos principais aeroportos russos de que “o espaço aéreo russo está a tornar-se extremamente perigoso”. Já esta quarta-feira, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia efetivou a mensagem, anunciando que o país tinha notificado oficialmente a Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO) para atividades militares que iam colocar em perigo o espaço aéreo russo.

“Queremos prevenir incidentes que não desejamos”, afirmou Andrii Sybyha através da rede social X, onde prometeu que “a guerra está a regressar a casa da Rússia”.

Antes disso, Volodymyr Zelensky deixou claro que a aviação civil não é, “em si”, um alvo da Ucrânia. O problema, segundo o líder ucraniano, é a quantidade de drones que poderá passar a existir nos céus russos enquanto a guerra continuar, nomeadamente nos aeroportos de Moscovo e São Petersburgo, centros urbanos e económicos da Rússia.

“Haverá drones” no céu russo “enquanto a guerra continuar”, afirmou.

Mesmo que as autoridades russas não comuniquem formalmente o risco, Zelensky considera que “o céu russo será, de facto, encerrado”.

Na mesma mensagem, o presidente ucraniano avisou ainda que o Ministério dos Negócios Estrangeiros e outras instituições do país vão fornecer às organizações internacionais “informações completas sobre os perigos existentes no espaço aéreo russo”. “Os céus infestados de drones não são local adequado para a aviação civil”, declarou.

Zelensky procurou também justificar o aviso como uma medida destinada a evitar vítimas civis. “Nós, na Ucrânia, não queremos que vidas inocentes sejam perdidas”, afirmou, acrescentando que foi por isso que Kiev decidiu alertar os seus parceiros. “Os momentos de segurança no céu da Rússia chegaram ao fim”, declarou.

O aviso foi dirigido igualmente aos diplomatas estrangeiros, com Zelensky a considerar importante que a mensagem seja transmitida diretamente às capitais.

“É importante que isto seja ouvido pelos embaixadores dos países que trabalham aqui, na Ucrânia, e pelos embaixadores que trabalham em Moscovo. Cada um deles sabe exatamente o que a guerra russa significa para o nosso país, para o nosso povo, e devem transmitir esta informação às suas capitais”, afirmou.

Entre os alvos do alerta de Zelensky estão especificamente as “companhias aéreas que utilizam o espaço aéreo russo, todas as seguradoras e todos aqueles que ainda operam nos principais aeroportos russos”.

Já do outro lado, e a partir de Bisqueque, no Quirguistão, onde participava na cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai, Vladimir Putin reagiu ao plano do adversário, afirmando que o mesmo é “terrorismo de Estado”.

O presidente russo, Vladimir Putin, responde a perguntas dos jornalistas após a cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Bishkek, no Quirguistão, na terça-feira, 1 de setembro de 2026 (Vyacheslav Prokofyev/Sputnik/Kremlin Pool Photo via AP)

“Se alguém nos tentar arrastar para o fundo da cadeia alimentar e nos devorar, pode até levar um murro na cara”, avisou o presidente russo.

Moscovo e São Petersburgo no centro da ameaça

A possibilidade de a Ucrânia conseguir, efetivamente, condicionar o espaço aéreo russo ganha outra dimensão quando se olha para as principais cidades do país. Rafael Martins considera que, se Kiev replicar na Rússia o padrão de ataques que Moscovo tem utilizado contra a Ucrânia, o impacto poderá ser particularmente significativo.

“Se a Ucrânia fizer o mesmo que a Rússia está a fazer agora, que é lançar sistematicamente drones e mísses, e se considerarmos, por exemplo, as duas mais emblemáticas cidades, São Petersburgo e Moscovo, isso vai comprometer significativamente a atividade aérea e os destinos”, explica o tenente-general.

Pessoas no terminal do Aeroporto Internacional de Sheremetyevo, em Moscovo (AP)

Durante algum tempo, recorda o também comentador da CNN Portugal, “havia um padrão de ataques aéreos por parte da Rússia”, que acontecia “normalmente de madrugada”. Nessa altura, “as pessoas iam para os seus abrigos subterrâneos, onde permaneciam até nascer ao dia”. Depois, “o dia a seguir era um dia normal”.

“Agora, o padrão já não é esse”, sublinha. “Neste momento o padrão é: ataques sucessivos, as pessoas não podem fazer já uma vida normal, seja comércio, seja hospitais, seja aquilo que for.”

“Começa a ser muito difícil e é uma pressão psicológica sobre o normal funcionamento, tudo o que se chama normal, mas pelo menos aquilo que era sustentável até agora”, acrescenta, explicando que é este modelo que poderá ser replicado agora em território russo.

As duas principais cidades da Rússia assumem, assim, especial importância neste cenário. “Moscovo e São Petersburgo são destinos muito importantes, com aeroportos e caminhos aéreos, e são hábitos também de negócio.” Se a perceção de segurança desaparecer, o efeito poderá ser imediato. “Ao referir que determinado local já não é seguro, determinados movimentos deixam de poder ocorrer.”

Como fechar o espaço aéreo? Ataques russos podem ser um exemplo

A forma de produzir esse efeito passa, segundo Rafael Martins, menos por um anúncio formal de encerramento e mais pela criação de uma ameaça permanente e imprevisível.

O tenente-general explica que, em condições normais, “sempre que há um constrangimento qualquer ou um bloqueio de espaço aéreo, existe o chamado NOTAM, que é um aviso à navegação aérea que é distribuído para todos os operadores aéreos”.

Para explicar a importância deste mecanismo, dá o exemplo de um aeroporto cuja pista esteja temporariamente condicionada. “Há um aeroporto que, por uma razão qualquer, está em obras, e uma determinada pista desse aeroporto, ou a própria pista principal, não aceita movimentos entre as 09:00 e as 17:00”, explica. Nesses casos, “é divulgado a todo o mundo, ao sistema de navegação aérea, esse constrangimento, essa limitação”.

O problema, neste caso, é a ausência de uma indicação semelhante. “O que não existe, por parte da Ucrânia, é um aviso que diga: ‘não entrem aí das tantas às tantas, nós vamos lançar uma vaga’”, afirma Rafael Martins. Ou seja, os operadores não dispõem de uma janela temporal concreta que lhes permita saber quando determinada zona poderá ser considerada segura ou perigosa.

“Não fazendo isso, a imprevisibilidade de uma condição perigosa leva os operadores a não quererem passar por essas regiões”, conclui. Para o tenente-general, é precisamente essa incerteza que pode afastar a aviação comercial, já que, perante um espaço aéreo cuja segurança não pode ser garantida, as companhias e os operadores tendem a evitar essas rotas.

“Estamos perante uma séria ameaça à navegação aérea, à segurança das aeronaves”, sustenta ainda.

O que é certo é que a ameaça já começou a provocar danos em território russo. Esta quarta-feira, a companhia aérea turca Pegasus cancelou 12 voos de ligação entre a Turquia e Moscovo.

Aos passageiros afetados foi dada a possibilidade de alterar os bilhetes para outros voos posteriores ou de solicitar o reembolso do valor pago. O aeroporto de Vnukovo esclareceu, contudo, que não tinha confirmação de que a Pegasus tivesse informado os passageiros de que outras companhias aéreas iriam também cancelar as respetivas ligações.

Perante o cenário, o ministro dos Transportes russo, Andrei Nikitin, afirmou que o Ministério dos Transportes está a trabalhar em coordenação com o Ministério da Defesa para “prevenir as ameaças ao tráfego aéreo”.

Objetivo não é só militar

Na avaliação de Rafael Martins, o principal objetivo desta estratégia poderá não ser exclusivamente militar.

“O principal objetivo é muito simples: é criar na Rússia, e especialmente em localidades como Moscovo e São Petersburgo, – ou noutras globalmente importantes para manter o comércio e a atividade da Rússia -, que a Ucrânia pode criar um impacto significativo de dimensão internacional.”

O resultado seria, nas palavras do tenente-general, “um constrangimento muitíssimo significativo, com impacto real”.

“Vladimir Putin vê-se, neste momento, a braços com uma certa impotência. Esta estratégia por parte de Volodymyr Zelensky seria um dos maiores golpes para o presidente russo”, alerta o comentador da CNN Portugal.

A concretização desta ameaça poderia, no entanto, ser prejudicial para a Ucrânia, já que o Kremlin poderia avançar com uma intensificação da violência. “ [Putin] poderá incrementar o grau de violência, que neste momento já existe”, considera Rafael Martins, apontando para a capacidade de produção de armamento estratégico da Rússia, incluindo “mísseis balísticos” e outros sistemas.