O fecho do mercado de transferências de verão de 2026 ficará na história da Premier League – e não apenas pelos números. Foi o verão mais dispendioso de sempre na liga inglesa, com o Manchester City a gastar sozinho 562,5 milhões de libras (cerca de 655 milhões de euros), um novo recorde. Mas foram as histórias que aconteceram nas últimas horas, muito mais do que os valores, que fizeram deste fecho algo difícil de esquecer.

A história central envolve quatro jogadores, três clubes e um efeito dominó que só precisava de uma peça fora do sítio para desabar – e foi precisamente o que aconteceu. Tudo começou com a venda de Enzo Fernandez do Chelsea para o Manchester City por 125 milhões de libras (cerca de 146 milhões de euros), igualando o recorde britânico de transferências – o mesmo valor que o Liverpool tinha pago ao Newcastle por Alexander Isak no verão anterior. O Chelsea, cujos adeptos tinham vaiado o jogador num amigável de pré-época e na estreia da Premier contra o Fulham, precisava de um substituto imediato e encontrou-o: Lamine Camara, médio internacional senegalês de 22 anos do Mónaco, por 54,8 milhões de euros. Toda a papelada estava tratada, o voo estava marcado para o dia seguinte. O negócio estava feito – até deixar de estar.

O Mónaco só comunicou, por escrito, já depois das 23h00, que o negócio tinha ficado sem efeito. O Chelsea ficou “profundamente insatisfeito” com o comportamento do clube do Principado, que considerou “pouco profissional”, segundo a Sky Sports. A razão para a desistência do Mónaco estava noutro negócio: Folarin Balogun.

O avançado norte-americano tinha sido uma das figuras do Mundial de 2026 – marcou dois golos e foi suspenso por acumulação de cartões, numa decisão que foi anulada após uma alegada intervenção de Donald Trump junto da FIFA, numa das maiores polémicas do torneio. Chegou ao fecho do mercado com o futuro indefinido. O Everton conseguiu um acordo com os monegascos e submeteu uma dealsheet (folha de acordo, traduzido à letra) – um documento que garante ao clube inglês um período de graça adicional de duas horas para fechar o negócio após o fecho da janela de transferências. Mas Balogun foi a Finch Farm – o centro de treinos do Everton – e saiu sem assinar. O negócio caiu. O avançado ficou em Monte Carlo, libertou Camara para ir para o Chelsea – mas já era demasiado tarde.

Trump telefonou a Infantino para rever suspensão de Balogun, que pode agora jogar contra a Bélgica

O Everton, entretanto, tinha tentado uma alternativa: Joshua Zirkzee, do Manchester United. Old Trafford recusou, alegando não ter tempo suficiente para encontrar um substituto. Resultado: o Everton terminou o mercado com apenas um avançado sénior – Thierno Barry –, depois de ter vendido Beto à Fiorentina de manhã. O Chelsea terminou sem substituto para Enzo Fernandez. E o Mónaco ficou com Balogun, que tinha recusado o Everton, e sem Camara, que ficou no Principado quando já estava praticamente a caminho de Londres.

Mas o mercado reservava ainda outra história, desta vez passada nos aeroportos da Europa. Malick Fofana, extremo belga do Lyon, de 21 anos, estava a ser disputado por dois clubes ingleses: o Sunderland e o Crystal Palace. O Arsenal tinha mostrado interesse mas nunca avançou de forma séria. No último dia do mercado, Fofana chegou a acordo com o Sunderland, fez os exames médicos em Lyon e estava pronto para viajar. No aeroporto, havia dois jatos privados à espera — um com destino a Sunderland, outro com destino a Londres, onde o Crystal Palace o esperava. Fofana escolheu Londres e embarcou no avião do Palace. O Sunderland, recusando aceitar a derrota, melhorou a proposta aos agentes do jogador. Fofana parou de responder às mensagens do Crystal Palace. Já estava em Londres. Desceu do avião e assinou pelo Sunderland – deixando para a posteridade uma das histórias mais surreais do deadline day europeu dos últimos anos.

Depois de fechado o negócio, os black cats divulgaram a chegada do extremo e ainda deixaram uma descrição sobre o episódio. “Sempre foi o Sunderland”, escreveram, sem mais detalhes.

Num verão que bateu todos os recordes de gastos na Premier League, foi precisamente nas histórias que não envolveram transferências que o mercado de 2026 se tornou verdadeiramente memorável. O Chelsea ficou sem substituto para o seu médio mais caro. O Everton ficou sem avançado. Balogun ficou no Mónaco. E algures num aeroporto, um jogador belga mudou de avião a meio do caminho – e acabou num sítio completamente diferente do que estava planeado.