Durante dez dias, uma companhia mecanizada do Exército dos EUA tentou sobreviver num campo de batalha onde quase todos os seus movimentos podiam ser observados do céu. Do outro lado estavam operadores ucranianos de drones que não tinham aprendido aquelas técnicas apenas em exercícios: traziam consigo anos de experiência de uma guerra real.
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O resultado obrigou os americanos a mudar rapidamente a forma como movimentavam os seus blindados Bradley, escondendo-os entre árvores, dispersando homens e veículos e chegando a conduzir máquinas pesadas por encostas com inclinações de cerca de 40 graus para escapar aos olhos que os procuravam no céu.
Depois aconteceu uma inversão: os ucranianos deixaram de ser o inimigo e passaram para o lado americano.
E começaram a mostrar-lhes como se combate com drones.
O episódio ocorreu durante o exercício Combined Resolve, realizado esta primavera no centro de treino militar de Hohenfels, na Alemanha, e foi agora contado na primeira pessoa pelo capitão Allan W. Watson, comandante da Blackhawk Company, 2.º Batalhão do 7.º Regimento de Cavalaria do Exército dos EUA.
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O relato, publicado na ‘Task & Purpose’ e recuperado pela ‘United24 Media’, procura também corrigir uma ideia que ganhou força depois dos exercícios: a de que os drones ucranianos teriam simplesmente “arrasado” as forças blindadas americanas. Watson considera essa descrição demasiado simplista, mas reconhece que a experiência obrigou os seus homens a adaptar-se rapidamente a uma realidade diferente.
Os drones já estavam à espera
A Blackhawk Company iniciou o exercício de dez dias a 22 de abril. Os Bradley entraram no campo de treino alemão em coluna e através de um ponto de acesso limitado.
Os ucranianos já estavam no céu.
A unidade americana enfrentava operadores da 412ª Brigada de Sistemas Não Tripulados Nemesis, uma formação ucraniana especializada em drones e com experiência adquirida no combate contra as forças russas.
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Os dois grupos tinham-se encontrado antes do início da fase operacional. Mas quando o exercício começou, os ensinamentos passaram rapidamente da teoria para a prática.
Os drones de reconhecimento ucranianos conseguiam observar a formação americana a partir do ar, colocando um problema particularmente difícil a uma unidade habituada a pensar o campo de batalha sobretudo a partir do terreno.
A companhia também não dispunha de alguns dos mais recentes sistemas contra drones que o Exército dos EUA está atualmente a testar.
A solução começou pela dispersão.
Bradleys escondidos debaixo das árvores
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Em vez de concentrarem veículos e militares em formações convencionais, os americanos começaram a espalhá-los tanto quanto possível.
Os Bradley foram escondidos debaixo de vegetação densa. As tripulações começaram também a fazer uma pergunta que ganha importância num campo de batalha coberto por drones: como é que o nosso veículo parece visto de cima?
“Passámos a ser mais deliberados nos nossos movimentos”, explicou Watson. A unidade começou a estudar a sua própria assinatura aérea, em vez de se preocupar apenas com aquilo que os militares conseguiam observar ao nível do solo.
As estradas e caminhos representavam outro problema.
Eram as rotas naturais para veículos pesados, mas eram também os locais mais previsíveis para os operadores de drones procurarem os americanos.
Por isso, deixaram-nos.
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Bradley em encostas de 40 graus
A companhia começou a procurar ravinas, vales, depressões no terreno e zonas densamente arborizadas onde fosse mais difícil manter os veículos sob observação aérea.
Isso obrigou os Bradley a chegar a locais onde normalmente uma formação mecanizada preferiria não entrar.
Watson descreve momentos em que se encontrava praticamente de lado na torre do seu Bradley enquanto os pelotões atravessavam encostas com cerca de 40 graus de inclinação.
Era levar os veículos aos seus limites, mas o terreno oferecia aquilo que os americanos procuravam: cobertura natural.
Os drones continuaram a encontrá-los e o exercício registou perdas simuladas de Bradley, tanques e respetivas tripulações. Watson salienta, porém, que o cenário tinha sido deliberadamente desenhado para exercer a máxima pressão sobre as unidades e permitir que cometessem erros num exercício em vez de os descobrirem numa guerra.
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E rejeita uma das conclusões mais fáceis: os drones não demonstraram que os grandes blindados se tornaram inúteis.
Os tanques não morreram. Têm é de aprender a esconder-se
Segundo o comandante, os Bradley e os tanques Abrams continuaram a oferecer duas vantagens essenciais: proteção aos militares no interior e capacidade para atravessar rapidamente terrenos que atrasariam forças mais ligeiras.
A conclusão americana foi, portanto, diferente.
O problema não é necessariamente o blindado. É utilizá-lo segundo regras concebidas para uma época em que não havia pequenos olhos baratos permanentemente no céu.
A guerra na Ucrânia tem demonstrado precisamente como drones de reconhecimento e ataque podem localizar movimentos, acompanhar unidades e transmitir coordenadas para outros sistemas de armas.
E foi na segunda metade do exercício que os americanos puderam observar essa experiência do lado oposto.
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Os “caçadores” passaram para o lado americano
Ao sexto dia, a Blackhawk Company passou das operações defensivas para as ofensivas.
E a Nemesis mudou de lado.
Os mesmos ucranianos que tinham passado vários dias a procurar os Bradley a partir do céu começaram a trabalhar ao lado dos americanos.
Foi, segundo Watson, uma das partes mais valiosas de todo o exercício.
Os operadores ucranianos demonstraram técnicas aperfeiçoadas durante anos de combate, incluindo formas de fazer drones relativamente baratos percorrerem distâncias surpreendentes.
Mas uma das principais lições não estava propriamente no drone.
Estava na velocidade com que a informação circulava.
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Ver um alvo e atacá-lo antes que desapareça
Os ucranianos mostraram aos americanos como reduzir aquilo que os militares designam por cadeia “sensor-to-shooter”.
O princípio é simples: um sensor — neste caso, muitas vezes um drone — encontra um alvo; é necessário identificá-lo, determinar a localização, transmitir essa informação à arma capaz de o atingir e disparar.
Quanto mais tempo todo o processo demorar, maior é a possibilidade de o alvo desaparecer.
Watson descreveu aquilo que observou como uma verdadeira “masterclass” na gestão e velocidade desta cadeia, combinando tecnologia com táticas desenvolvidas em combate.
Os americanos saíram da Alemanha com técnicas que o comandante acredita poderem agora ser incorporadas nas próprias formações.
Mas houve uma última conclusão.
Apesar dos drones, sensores, comunicações e sistemas cada vez mais sofisticados, Watson considera que o ser humano continua a ser o elemento decisivo — e também uma vulnerabilidade.
A própria Blackhawk Company conseguiu, em determinados momentos, virar o jogo contra os operadores ucranianos.
“Quando manobrámos e fizemos os caçadores da Nemesis sentirem-se como os caçados, os céus ficaram limpos”, escreveu o capitão.
Depois de dez dias, a lição não era que os Bradley e Abrams tinham deixado de ter lugar no campo de batalha.
Era outra: num campo de batalha onde alguém pode estar permanentemente a observar do céu, até uma das forças mecanizadas mais poderosas do mundo tem de reaprender onde se esconde, por onde se move e, sobretudo, como parece quando vista de cima.