Durante anos, o diagnóstico de cancro foi sinónimo de uma dura sentença, que gerava um medo profundo do desconhecido e a incerteza quanto à possibilidade de um futuro. E ainda mais se falamos de cancros do sangue que, devido à sua complexidade e ao desconhecimento que acompanha o tema, podem ser aterradores para quem enfrenta esta situação pela primeira vez. 

Felizmente, em muitos tipos de tumor, e os hematológicos não são exceção, esta realidade tem vindo a alterar-se nas últimas décadas devido, sobretudo, aos avanços tecnológicos e científicos, que têm permitido disponibilizar aos profissionais de saúde mais e melhores opções terapêuticas.

Num cenário em que o número de diagnósticos oncológicos aumenta todos os anos, a medicina de precisão, com tratamentos cada vez mais personalizados, tem dado passos significativos e contribuído decisivamente para a redução da mortalidade.

Em Portugal, e especificamente no que toca aos tumores hematológicos, estes representam, na sua globalidade, cerca de 8% a 9% do total de novos tumores diagnosticados todos os anos, o que equivale a mais de 5.400 novos casos por ano1. Os cancros do sangue, que incluem leucemias, linfomas e mielomas afetam, devido às suas especificidades, o sistema imunitário e raramente formam massas sólidas, o que, por si, torna o seu diagnóstico precoce num enorme desafio.

Setembro é o mês de Sensibilização para os Cancros do Sangue e, dia 4, assinala-se o Dia Mundial da Leucemia. Estas datas convidam a refletir sobre o papel e o impacto da inovação e do acesso na geração de valor para o doente. Ambas as datas são uma oportunidade para recordar que, por detrás de cada diagnóstico, existe uma história única e que a inovação em saúde só faz verdadeiramente a diferença quando consegue responder a essa singularidade.

Nos cancros do sangue, e em particular na Leucemia Linfocítica Crónica (LLC), a forma mais frequente de leucemia em adultos nos países ocidentais2,3, estamos a assistir a uma transformação relevante. O tratamento teve uma evolução enorme nas últimas duas décadas, o que levou à passagem de uma medicina orientada para a doença para uma medicina orientada para a pessoa. Nas últimas décadas, passamos da quimioterapia convencional para terapêuticas direcionadas, assim como uma seleção de tratamentos cada vez mais baseada tanto em biomarcadores e características biológicas da doença, como também nas circunstâncias individuais do doente.

De facto, dois doentes podem partilhar o mesmo diagnóstico, mas a evolução da sua doença pode ser muito diferente e vai para além das questões meramente biológicas. As equipas de acompanhamento ao doente, de cariz multidisciplinares, devem ter em conta diversos aspetos, e entre estes, é também necessário compreender o contexto familiar e social do doente, as suas preferências, o seu estilo de vida, uma vez que tudo impacta o resultado. De facto, o foco deixou de ser na escolha “do tratamento mais adequado para esta doença” e passou a ser em “qual o tratamento mais adequado para esta pessoa, com estas características”.

A medicina atual não procura apenas identificar a doença. Procura acima de tudo compreendê-la em profundidade para que, aliada às características do doente, se possa escolher a estratégia terapêutica mais adequada. Trata-se de uma mudança que beneficia o doente e, simultaneamente, contribui para uma utilização mais eficiente dos recursos de saúde.

Num contexto em que a população portuguesa continua a envelhecer e em que doenças como a LLC terão um peso crescente, torna-se ainda mais importante investir numa abordagem que combine ciência, tecnologia, acesso e, sobretudo, as pessoas. O futuro da oncologia não passa apenas por diagnosticar precocemente e descobrir novos tratamentos, mas por garantir que cada decisão clínica é sustentada pelo melhor conhecimento disponível e adaptada às necessidades concretas de cada pessoa.

A medicina personalizada já deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade em muitas áreas da oncologia e os tumores hematológicos são disso um exemplo. O próximo passo depende do trabalho conjunto de todas as partes envolvidas no processo, quer sejam profissionais de saúde, decisores, investigadores, indústria farmacêutica e a própria sociedade. Porque o verdadeiro progresso não acontece quando a inovação é possível. Acontece quando ela chega, em tempo útil, às pessoas que dela precisam.

André Marques Veras, Country Manager da BeOne Medicines Portugal

1 – Dados divulgados no Relatório do Registo Oncológico Nacional de 2021 (RON 2021).

2 – Eichhorst, B. et al. Chronic lymphocytic leakaemia: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. s.l. : Annals of Oncology, 2015. pp. 78-84. 10.1093/annonc/mdv303.

3 – Scarfo, Lydia, Ferreri, Andrés and Ghia, Paolo. Chronic lymphocytic leukaemia. Milan: Critical Reviews in Oncology/Hematology, 2016. pp. 169-182. 10.1016/j.cretrevonc.2016.06.003