Se em Portugal “não se pode falar numa influência muito direta”, o resto do mundo conta outra história. “No histórico, o que o El Niño faz é alterar a convecção do Pacífico”, explica Pedro Miranda.
Em condições normais, entre os trópicos, os ventos sopram de leste para oeste, empurrando a água quente para o lado da Indonésia e da Austrália. É lá que o ar quente sobe (convecção) e forma as nuvens de chuva. Só que, quando o El Niño acontece, há uma “reversão dos ventos”. “Há um desequilíbrio. O vento baixa um bocadinho e aquela chamada piscina de água quente que está na Indonésia desloca-se lentamente”, sublinha Pedro Miranda.
Como a água fica mais quente num sítio diferente do habitual, o ar quente e as nuvens sobem noutras regiões, provocando cheias em locais normalmente secos e secas onde costuma chover. Cria-se, assim, uma “zona de formação de tempestades”. Trata-se, por isso, de “uma interação entre ar, peixe e oceano” que ocorre de forma recorrente, em intervalos variáveis, alterando também a sua intensidade de evento para evento.
Por ser uma “interação entre ar e oceano”, é através da monitorização da temperatura das águas do Pacífico que os cientistas medem o início do fenómeno e confirmam que o El Niño se está a deslocar até atingir a costa da América.
Apesar de ser encarado com renovada preocupação, Pedro Miranda lembra que o fenómeno está longe de ser uma novidade: “O El Niño é uma coisa que é muito antiga. Sabemos que existe El Niño desde que os espanhóis chegaram ao Peru. Antes disso, não há histórias escritas, portanto, não há garantias.”
Esta sazonalidade, já que o fenómeno ocorre por volta do Natal, está na origem do seu próprio nome. Batizado pelas populações da América Tropical do lado do Pacífico como referência ao menino Jesus, o evento recebia este nome porque o aquecimento das águas acontecia tradicionalmente durante o inverno do hemisfério sul, coincidindo com a época do Natal.
Para lá da agitação em torno do El Niño, os especialistas convergem num ponto essencial: a verdadeira ameaça, sobretudo para a Europa, é outra. “É preciso perceber uma coisa: existe um sinal de mudança climática no mundo que não é o El Niño”, alerta Pedro Miranda. “Portugal não está na linha da frente [do El Niño]. Tem é de se preparar para as alterações climáticas, certamente. Não especialmente para este El Niño”, refere ainda o mesmo especialista.
Ainda assim, os dois estão ligados. Afinal, por que razão passaremos a ter tempestades, como o El Niño, mais intensas? “O mundo está mais quente. Quando o mundo está mais quente, uma coisa é garantida: há mais vapor de água no ar. E, portanto, num mundo mais quente, quase todas as tempestades têm a ver com a água — que é um processo importantíssimo para libertar energia para uma tempestade”. Ou seja, “se o ar tem mais água, isso quer dizer que vamos ter tempestades mais intensas”.