Artista visual, fotógrafo e técnico audiovisual do Teatro Nacional D. Maria II, passou também pela equipa multimédia do Observador e construiu um percurso ligado ao cinema, ao vídeo e às artes performativas. A morte foi conhecida esta sexta-feira e, ao longo da noite, sucederam-se as mensagens de homenagem e despedida

Morreu André Dinis Carrilho, artista visual e técnico audiovisual do Teatro Nacional D. Maria II, com um percurso ligado à fotografia, ao cinema, ao vídeo e ao jornalismo. A notícia da morte foi conhecida esta sexta-feira e, ao longo da noite, sucederam-se nas redes sociais as mensagens de homenagem e despedida de colegas, amigos e instituições com quem trabalhou.

O Teatro Nacional D. Maria II despediu-se do “colega e amigo”, destacando a “sensibilidade e exigência” que Carrilho levava aos projetos em que participava e um “olhar criativo” capaz de impulsionar novas possibilidades.

Numa mensagem divulgada nas redes sociais, o teatro descreveu-o como uma presença que não procurava impor-se, mas que se fazia notar pela “sensibilidade, originalidade, sentido crítico e autenticidade”.

A instituição recordou ainda o trabalho desenvolvido por Carrilho enquanto artista nas áreas da fotografia, do cinema e do vídeo, que considerou testemunho e eco de um olhar atento sobre o mundo, sobre a realidade que registava e sobre o imaginário que construía.

Pedro Penim, diretor artístico do D. Maria II, recordou um homem marcado por uma grande vulnerabilidade e por um “talento desmedido”, com uma capacidade de “fazer e de inventar imagens” que nunca deixava de o impressionar.

“Perdemos um dos nossos e o golpe é muito muito duro”, escreveu Penim, numa mensagem dirigida também aos trabalhadores do teatro. “Havia tanto talento. E tanto ainda por fazer.”

André Dinis Carrilho integrava a equipa de Som e Audiovisual do Teatro Nacional D. Maria II, onde conciliava o trabalho técnico com a criação artística. Nos últimos anos, assinou vídeo para espetáculos e desenvolveu projetos autorais, numa carreira construída durante mais de uma década em torno da imagem.

Antes do D. Maria II, integrou a equipa multimédia do Observador, onde participou na produção e realização de vários projetos audiovisuais do jornal. Entre eles esteve “Na Estrada com…”, formato documental que acompanhava músicos em viagem, e o especial “Pedrógão um ano depois”, publicado em 2018, no qual assinou a realização de vídeos sobre sobreviventes dos incêndios de junho de 2017.

O trabalho de André Dinis Carrilho com a imagem começara vários anos antes. Em 2011, fez reportagem vídeo no MOTELX e integrou a equipa de fotografia de “Um Filme Português”, documentário coletivo apresentado nesse ano no Doclisboa.

No ano seguinte, trabalhou em fotografia e câmara em “O Tempo e o Modo”, série documental realizada por Graça Castanheira para a RTP2 a partir de conversas com personalidades como Eduardo Galeano, Laurie Anderson, Lucrecia Martel, Gonçalo M. Tavares, Esther Duflo, Vandana Shiva e Lula da Silva.

No cinema, assinou, com João Gambino, a fotografia de “Nos Interstícios da Realidade ou O Cinema de António de Macedo”, documentário de João Monteiro sobre o realizador português, apresentado em estreia mundial no Doclisboa em 2016. Foi também produtor executivo da curta-metragem “Cenas de uma Vida Amorosa”, de Miguel Afonso, em 2019, e diretor de fotografia de “Unicorn Hunting”, do mesmo realizador, em 2024.

A fotografia acompanhou igualmente o seu percurso fora do cinema e do teatro. Carrilho fotografou músicos, concertos e momentos da vida cultural e noturna de Lisboa, com trabalhos publicados em meios como a revista Rimas e Batidas e em plataformas internacionais ligadas à música eletrónica.

Nas artes performativas, participou em vários projetos de criação de vídeo. Em 2023, trabalhou, com João Gambino, em “Ensaio de Orquestra”, espetáculo dirigido por Tónan Quito a partir do filme de Federico Fellini.

Um dos seus trabalhos autorais mais recentes foi “Alcanço”, vídeo-ensaio construído a partir do programa Atos, desenvolvido pelo Teatro Nacional D. Maria II e pela Fundação Calouste Gulbenkian. Carrilho acompanhou durante 2023 projetos de participação artística em diferentes regiões do país e transformou as imagens recolhidas num filme de cerca de 50 minutos, apresentado no ano seguinte.

Já este ano, assinou o vídeo de “Filodemo”, de Luís de Camões, encenado por Pedro Penim. O espetáculo estreou em março e passou depois por diferentes salas do país.

Foi precisamente esse trabalho que Penim destacou na mensagem publicada esta sexta-feira. O encenador descreveu o vídeo de “Filodemo” como “absolutamente deslumbrante” e escreveu que o olhar de Carrilho está “por todo o lado naquele espetáculo”.

Penim destacou também “Alcanço”, considerando o filme uma demonstração daquilo que André Dinis Carrilho sabia fazer com uma câmara: “criar olhar”.

Também a Rádio Futura, projeto do radialista Pedro Ramos, evocou a ligação de Carrilho à música, à noite e a uma comunidade cultural de Lisboa. Na mensagem de despedida, recordou a sua presença em concertos, manifestações, DJ sets, filmagens, jantares e conversas e o papel da sua câmara no registo desses lugares e momentos.

“O olhar único dele registou muita da nossa História conjunta”, escreveu a Rádio Futura, antes de resumir a perda numa frase: “Sentimos que hoje morreu com ele uma certa Lisboa”.