Debaixo de uma bandeira branca, tensionada por um grande arco e flecha que aponta, simultaneamente, para o céu e para a terra, Luana Vitra reflete sobre o desejo, a violência e os massacres que marcam as guerras da atualidade. Esse é “Bandeira Branca”, o novo trabalho da artista mineira que se volta para os metais de terras raras, insumos estratégicos para a indústria moderna e a transição energética.

Depois de se destacar em três bienais pelo mundo nos últimos três anos, Vitra foi selecionada pelo novo programa de parceria entre a Chanel e a Pinacoteca do Estado de São Paulo, que agora cede seu famoso octógono para a instalação.

“O que torna seu trabalho especial é sua urgência no momento em que vivemos. E como ela não põe o dedo na ferida, mas fala disso de uma forma muito poética. Ela trata o assunto de forma direta, mas com a liberdade de uma artista”, diz Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca.

Sua formação é um cruzamento entre diferentes artes. Quando criança, Vitra se alfabetizou por meio da poesia. Sua mãe, pedagoga, fazia com que ela decorasse um poema atrás do outro, enquanto seu pai, marceneiro, a levou pelos caminhos da artesania e da manualidade. “Tudo isso criou em mim uma maneira de ler o mundo”, afirma Vitra.

Na adolescência, descobriu a dança, paixão que serviria como uma base teórica para suas esculturas. Dos 13 anos até a maioridade, passou as tardes estudando desde o jazz até o balé clássico.

“A dança me ensinou uma maneira de organizar o peso. Muitas pessoas aprendem como sustentar uma escultura por meio da própria prática escultórica, mas eu sinto que, em alguma medida, eu aprendi isso estruturando meu próprio corpo”, diz Vitra.

Depois, a faculdade de moda a aproximou do desenho e das artes visuais. Desde o início do curso, em 2014, até a formatura, ela afirma ter se fechado num casulo de muito estudo, não mostrando nenhum trabalho para ninguém. “Eu sentia que eu era artista, mas ainda dentro de uma dinâmica de um ‘porvir’, sentia que eu ainda não tinha uma coisa para falar.”

Isso mudou quando começou a fazer aulas de escultura. Foi aí que se aproximou do ferro, material definitivo de suas futuras obras e que já estava presente, de diferentes formas, ao longo de sua vida e de sua ancestralidade.

Vitra, de 31 anos, nasceu em Contagem, um dos municípios do Quadrilátero Ferrífero, historicamente associado ao extrativismo mineral. Bisneta de minerador, ela encontrou no ferro uma companhia. “Quando me coloquei à disposição de ouvir a voz da matéria, aprendi sobre minha própria voz.”

Ao traçar um paralelo entre a matéria mineral e o corpo negro, a artista localiza em ambos um mesmo histórico de violência e cobiça. Isso se manifesta tanto em processos históricos, caso da extração em massa do minério no período colonial, como em procedimentos industriais, como a galvanização, que impede o minério de oxidar e, nas palavras da artista, respirar. “Eu passei a ver a oxidação como uma espécie de greve da matéria, uma forma de ela dizer ‘não, eu não vou servir a isso, eu vou me desfazer’”, afirma Vitra.

Com suas esculturas de ferro, ela começou a rodar o país. “Três Guerras no Peito”, no Centro Cultural São Paulo, foi sua primeira mostra individual na capital paulista, há seis anos. Depois, ela integraria algumas coletivas, como “Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros“, no Instituto Moreira Salles, há cinco anos, e “Atos de Revolta”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 2022.

Ainda em 2022, uma das obras de Luana Vitra entrou para o acervo da Pinacoteca. A virada de chave viria no ano seguinte, com uma ascensão que segue até hoje. Foi quando ganhou o prêmio Pipa, dedicado à arte contemporânea, e participou da 35ª Bienal de São Paulo com outra instalação monumental, “Pulmão da Mina”.

Nela, refletia sobre uma prática usada pelos africanos escravizados, que levavam canários para as minas como alerta para a presença de gases tóxicos. Quando os canários paravam de cantar, era sinal de que o lugar estava contaminado. A morte de um dos pássaros podia salvar dezenas de mineiros africanos.

Vitra emendou esse destaque com uma residência de seis meses na África do Sul, com o objetivo de estudar o trabalho de miçangaria do povo zulu. “Foi muito saudável sair de um ambiente de exposição extrema e ir para um lugar onde ninguém me conhecia.”

Durante esse período, aprendeu sobre a lógica simbólica daquele povo, o que também transformou sua relação com os símbolos presentes em seu próprio trabalho. Segundo Vitra, mais do que o aprendizado de técnicas, a convivência com os zulus transformou o seu modo de pensar.

“Esse período levou o olho dela para outros lugares. Acho que antes Luana tinha um olhar muito relacionado às paisagens onde ela cresceu”, afirma Thiago de Paula, curador e amigo da artista.

A fase de anonimato durou pouco. No ano seguinte, ela conquistou holofotes internacionais. De 2024 para cá, realizou mais duas bienais, em Charjah, nos Emirados Árabes Unidos, e na Tailândia. Além disso, fez uma individual em Roterdã e uma em Nova York, no prestigiado Sculpture Center.

Agora, com “Bandeira Branca”, ela parte da naturalização dos conflitos armados para denunciar uma violência que ultrapassa os corpos humanos e atinge a terra. “Todas as guerras são, no fim das contas, contra a terra. É sempre a terra o corpo que mais vai perder em qualquer guerra. Então é dela que a gente tira tudo.”

Depois da exposição na Pinacoteca, onde “Bandeira Branca” fica até janeiro do ano que vem, Vitra irá para a residência Denniston Hill, no interior do estado americano de Nova York, numa proposta de descanso, sem a obrigação de entregar uma obra no final.

Segundo Thiago de Paula, Vitra é uma das artistas mais aclamadas de uma geração que “acompanhou um momento histórico e contribuiu para o repensamento da cena contemporânea artística, ajudando a mover, ao menos um pouco, regimes de visibilidade”.