Já sabemos que os medicamentos GLP-1, como Wegovy, Ozempic e Mounjaro, são cada vez mais procurados por quem quer emagrecer. Estão, no entanto, associados a efeitos secundários como náuseas, obstipação, vómitos e indigestão.

Tendo isto em conta, muitas pessoas que querem perder peso e, ao mesmo tempo, evitar os efeitos adversos estão a optar pela microdosagem deste tipo de fármacos. Isto resulta mesmo?

Um novo estudo analisou os efeitos das microdosagens de Wegovy (semaglutida) e Zepbound (tirzepatida). Segundo os investigadores, citados no USA Today, as microdosagens ajudam na perda de peso mesmo em doses baixas, mas o efeito acaba por ser bastante inferior ao observado com as doses de manutenção recomendadas.

Mais especificamente, ao fim de um ano, a perda média foi de 2,2% com semaglutida e 5,5% com tirzepatida, comparativamente a 13,7% e 20,2%, respetivamente, com as doses recomendadas.

Também concluíram que as doses mais baixas estavam associadas a menos náuseas e obstipação, mas não eliminaram completamente os efeitos adversos e, no caso de quem recebeu tirzepatida, ainda foram relatados casos de lesão renal.

É, no entanto, um estudo observacional. Tendo isto em conta, a VERSA pediu a Paula Freitas, endocrinologista, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, um comentários sobre o assunto.

Prof.ª Doutora Paula Freitas

Prof.ª Doutora Paula Freitas

E o que diz uma médica sobre esta “tendência”?

Os novos fármacos para o tratamento da obesidade, como o semaglutido (Wegovy®) e a tirzepatida (Mounjaro®), representam um avanço importante no tratamento da obesidade. Mas o entusiasmo que geram nas redes sociais não deve confundir-se com boa prática clínica.

A chamada “microdosagem” — manter doses muito baixas, muitas vezes inferiores às utilizadas como manutenção — pode até levar a alguma perda de peso em algumas pessoas. No entanto, não é uma estratégia devidamente validada para tratar a obesidade. Estes medicamentos não são suplementos, nem devem ser usados para perder “os últimos quilos” sem indicação clínica.

O tratamento farmacológico deve ser reservado a quem dele realmente precisa, tem indicação, não apresenta contraindicações e deve ser acompanhado por um profissional de saúde com competência em obesidade. Idealmente, o doente deveria ser tratado por uma equipa multidisciplinar constituída por um médico endocrinologista ou médico com competência em obesidade, nutricionista, psicólogo e fisiologista do exercício físico. A obesidade é uma doença crónica, complexa e heterogénea; não se trata com receitas universais, muito menos com tendências da internet.

Os resultados dos tratamentos farmacológicos que conhecemos resultam de ensaios clínicos realizados com doses concretas. No caso da tirzepatida, foram estudadas doses de 5, 10 e 15 mg por semana. No caso do semaglutido, as doses estudadas foram 2,4 mg e 7,2 mg semanais, após titulação progressiva. É nestes contextos que se conhecem os benefícios, os efeitos adversos e a relação entre eficácia e segurança destes fármacos.

Mesmo assim, a resposta é individual. Há doentes que perdem muito peso, outros que perdem menos e alguns que praticamente não respondem. Estima-se que uma pequena percentagem, possivelmente por características biológicas ou genéticas, tenha uma resposta muito limitada. Mas reduzir arbitrariamente a dose não resolve esse problema: apenas torna os resultados ainda menos previsíveis.

Para saber se as microdoses poderão ter utilidade clínica, são necessários ensaios clínicos controlados, aleatorizados e duplamente cegos, complementados por dados robustos e de elevada qualidade do mundo real; só assim será possível tirar conclusões seguras sobre eficácia, segurança, dose adequada e seleção dos doentes que poderão beneficiar.

E depois há os “cliques”.

Pode fazê-los? Pode. Mas está errado! Por exemplo, uma caneta de tirzepatida já iniciada deve ser eliminada 30 dias após a primeira utilização ou após a quarta dose semanal, mesmo que aparentemente ainda reste medicamento. É esse o período durante o qual são garantidas a estabilidade, a qualidade, a eficácia e a segurança do fármaco, desde que a caneta seja corretamente conservada.

Tentar aproveitar o volume residual para criar doses não previstas não assegura a quantidade administrada, pode comprometer o dispositivo e significa utilizar o medicamento fora das condições avaliadas pelo fabricante e pelos estudos clínicos.

A medicina não deve ser feita por cliques, improviso ou pressão das redes sociais. Deve ser feita com indicação, conhecimento e evidência científica atualizada. Qualquer nova estratégia terapêutica merece ser estudada e demonstrada cientificamente antes de ser adotada, mantendo sempre a segurança do doente como prioridade.