Kate Flock / Massachusetts general hospital

Tim Andrews no seu quarto no Hospital Geral do Massachusetts quatro dias após ter recebido o transplante
Um transplante de rim de porco funcionou durante nove meses, um tempo recorde neste tipo de transplantes. Permitiu que o paciente estivesse mais tempo sem diálise enquanto esperava por um rim compatível de um dador humano.
O rim geneticamente modificado de Wilma, uma mini-porca Yucatan, manteve um paciente com insuficiência renal sem diálise durante nove meses, enquanto esperava por um rim humano adequado.
O caso, que foi apresentado num artigo publicado na quarta-feira na revista The Lancet, sugere que rins de porco podem servir como solução temporária para as longas listas de espera por órgãos.
Um dia, poderão mesmo funcionar como substitutos permanentes, dizem os autores do estudo.
“Acho incrível, pela ciência por detrás disto e pelo que conseguiram”, afirmou à New Scientist a nefrologista Michelle Willicombe, do Imperial College London.
O transplante renal oferece a melhor probabilidade de sobrevivência e qualidade de vida aos doentes com doença renal terminal.
Qual é o problema? A procura de órgãos de dadores supera a oferta.
Em janeiro de 2022, pela primeira vez um humano recebeu um transplante de um coração de porco. Porém, o recetor morreu alguns meses depois, possivelmente devido à presença de um vírus suíno.
O primeiro transplante de um rim de porco para uma pessoa viva foi realizado em 2024. O recetor, Richard Slayman, de 62 anos, morreu 52 dias depois com problemas cardíacos.
Destino diferente teve agora Tim Andrews.
O norte-americano, de 66 anos, estava gravemente doente com insuficiência renal terminal causada por diabetes tipo 2 e tinha apenas 9% de hipóteses de receber um rim humano em cinco anos.
Tinha um risco de mais de 40% de morrer ou ser retirado da lista de espera.
“Eu estava a morrer“, conta Andrews ao The New York Times. “Pensei: se vou morrer, mais vale fazer algo pela humanidade e participar nesta experiência”.
Em janeiro do ano passado, uma equipa do Mass General Brigham, em Boston, liderada pelo cirurgião Leonardo Riella, transplantou o rim de Wilma para Andrews.
O órgão tinha sido geneticamente modificado para melhorar a compatibilidade com o sistema imunitário humano, por exemplo removendo alguns açúcares contra os quais produzimos anticorpos e acrescentando sete genes humanos.
O transplante começou por ser um sucesso.
Andrews, que recebeu imunossupressores para impedir que o seu organismo rejeitasse o órgão, deixou de fazer diálise — e retomou a vida normal.
Mas, cerca de seis meses depois, foi internado com uma infeção por Staphylococcus aureus resistente à meticilina, uma bactéria que a maior parte dos antibióticos não consegue eliminar.
Riella e os colegas reduziram os medicamentos imunossupressores que Andrews estava a tomar. Depois começaram a surgir danos nos vasos sanguíneos do rim.
O problema agravou-se até o órgão deixar de funcionar, e o rim foi retirado 271 dias depois do transplante. Foi, na altura, um recorde.
“Teve um rim que durou nove meses, o que é impressionante”, diz Riella.
Andrews voltou à diálise durante cerca de três meses, antes de receber finalmente um rim humano adequado, em janeiro de 2026.
É a primeira vez que um rim de porco é usado como ponte temporária até um transplante humano.
“Estes transplantes podem permitir que os doentes evitem passar pela diálise, o que é muito importante porque ela provoca muito desgaste no organismo”, diz Riella. “Talvez daqui a 15 anos os rins de porco possam competir com um transplante de rim humano, mas ainda não chegámos lá”.
O procedimento é experimental, e Riella não consegue calcular quanto poderá custar.
Nos Estados Unidos há cerca de 600 mil pessoas a fazer diálise, e um tratamento que pode custar anualmente, por pessoa, 100 mil dólares, cerca de 86 mil euros.
“Os doentes são verdadeiros pioneiros”, disse Riella ao The Guardian. “Ao apresentarem-se e estarem dispostos a participar nestes estudos numa fase inicial, estão a ajudar a ciência. Sem a sua confiança e coragem, não seríamos capazes de fazer o que fazemos”.