A investigação expõe a desconfiança instalada no topo das Forças Armadas norte-americanas num momento em que o conflito está a pressionar arsenais estratégicos. “Na minha experiência, não tem precedentes”, admite um antigo responsável da Marinha
Investigadores do Governo norte-americano submeteram cerca de 50 militares e funcionários civis do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas a testes do polígrafo para descobrir quem terá passado aos jornalistas informação classificada sobre a guerra com o Irão, incluindo dados relativos à redução das reservas de munições dos Estados Unidos.
Os testes foram realizados em agosto, revela este sábado o The New York Times, depois de várias notícias exporem a diminuição dos stocks de armamento considerado essencial, entre o qual mísseis de longo alcance e intercetores dos sistemas de defesa Patriot.
A dimensão da investigação é invulgar nos níveis superiores da estrutura militar norte-americana. “Nunca vi o polígrafo ser utilizado de forma tão abrangente ou a este nível”, afirmou ao New York Times o contra-almirante na reserva Donald Guter, antigo responsável máximo pela assessoria jurídica da Marinha. “Na minha experiência, não tem precedentes.”
Entre 1.500 e 2.000 militares e funcionários integram o Estado-Maior Conjunto, que participa na coordenação de operações e planos militares com os comandos norte-americanos espalhados pelo mundo. Segundo fontes conhecedoras do processo ouvidas pelo jornal norte-americano, a investigação procurou não apenas encontrar a origem das fugas, mas também desencorajar quem possa estar disposto a divulgar nova informação.
O Pentágono não comenta os detalhes, por agora. O porta-voz Sean Parnell limita-se a garantir que o departamento leva “extremamente a sério” qualquer fuga de informação classificada e investiga esses casos, considerando a proteção desses dados “fundamental” para a segurança dos Estados Unidos e das tropas destacadas no estrangeiro.

A investigação surge depois de Donald Trump ter aumentado publicamente a pressão sobre os responsáveis pelas fugas. O Presidente chamou “traidores” aos que divulgam ou publicam informações sobre a falta de munições, garantiu que os responsáveis estão a ser “caçados” e ameaçou-os com “longas penas de prisão”.
Trump rejeita que os arsenais estejam em níveis preocupantes e assegura que os EUA têm quantidades “virtualmente ilimitadas” de munições.
As dúvidas sobre as reservas cresceram à medida que a guerra com o Irão consumiu armamento de defesa aérea e mísseis utilizados noutros teatros militares. A Casa Branca tem pressionado o Pentágono para acelerar a produção, numa altura em que a diminuição dos stocks já provoca tensão dentro da administração.
O cerco às fugas acontece também num Pentágono marcado pela contestação à liderança do secretário da Defesa, Pete Hegseth, que afastou ou travou promoções de mais de 80 generais e almirantes.
Trump mantém-lhe, para já, o apoio e elogia o “trabalho fantástico” do secretário. Nem todos os republicanos concordam: Thom Tillis, por exemplo, membro da Comissão das Forças Armadas do Senado, acusa Hegseth de uma gestão “inepta” e já pediu ao Presidente que o substitua.