RUNGROJ YONGRIT/EPA

649
O porta-aviões nuclear da Marinha dos EUA, USS Abraham Lincoln (CVN-72), atraca no porto de águas profundas de Laem Chabang, na província de Chonburi, Tailândia, a 2 de setembro de 2026, com a cidade turística de Pattaya em segundo plano.
Após um período recorde de 250 dias no mar sem fazer escala num porto, o porta-aviões nuclear norte-americano USS Abraham Lincoln atracou na Tailândia esta quarta-feira.
A escala perto da cidade tailandesa de Pattaya proporciona aos quase 5 mil fuzileiros navais dos EUA um descanso há muito aguardado. A cidade turística é famosa pela sua vibrante vida noturna e pelo turismo sexual, o que lhe valeu a alcunha de “Cidade do Pecado”.
Este rótulo, frequentemente usado pelos meios de comunicação social, é rejeitado pelas autoridades tailandesas; ara os militares dos EUA, Pattaya evoca fortes memórias históricas.
Quando os marinheiros cansados entrarem nos bares e restaurantes da cidade, estarão a seguir os passos das centenas de milhares de soldados norte-americanos que ali procuraram descanso e diversão durante a Guerra do Vietname. A sua presença transformou o local, que passou de uma pacata aldeia piscatória a uma das cidades mais famosas e frenéticas do mundo para festas.
A chegada dos militares
Hoje, as ruelas iluminadas por néons que conduzem à praia estão muito mais tranquilas do que o habitual. Os bares da famosa rua pedonal da cidade, a Walking Street, continuam a projetar vídeos de mulheres a dançar, numa tentativa de atrair visitantes.

Walking Street, Pattaya, Tailândia.
No entanto, há poucos clientes. Os visitantes parecem ser, na sua maioria, famílias do Médio Oriente, mais interessadas no vendedor de gelados turcos do que nas discotecas. A guerra dos EUA com o Irão afetou o turismo e o consumo, atingindo duramente os negócios locais.
Agora, a perspetiva de receber milhares de fuzileiros navais norte-americanos, que pouparam os seus salários no mar durante quase nove meses, representa uma oportunidade excecional para os negócios da região.
O porta-aviões norte-americano partiu de San Diego em novembro passado para uma missão que, inicialmente, estava prevista para durar seis meses no Pacífico e no Mar da China Meridional. No entanto, o navio foi desviado para o Golfo Pérsico depois de os Estados Unidos e Israel terem iniciado operações militares contra o Irão no final de fevereiro.
Recentemente, membros do Congresso dos EUA manifestaram preocupação com relatos de escassez de alimentos a bordo do navio, casas de banho avariadas e stress psicológico entre a tripulação. A Marinha dos EUA reconheceu que as condições de trabalho têm sido difíceis, mas garantiu que a tripulação recebe apoio adequado. Recusou-se, no entanto, a comentar à BBC a escala do porta-aviões em Pattaya, invocando razões de segurança operacional.
“Que gastem o dinheiro aqui”
Apesar da sua estreita relação com a China, a Tailândia é aliada dos EUA através de tratados bilaterais. As visitas de navios da Marinha norte-americana aos seus portos são comuns. Mas este será provavelmente o maior contingente militar norte-americano a chegar diretamente de uma zona de guerra a Pattaya desde a queda de Saigão, em 1975.
“Esta visita pode ser a nossa maior esperança”, afirma Anon Saiteer, vendedor de joias numa loja perto da Walking Street.
O estabelecimento colocou uma grande placa a dar as boas-vindas aos fuzileiros navais norte-americanos e a oferecer-lhes um desconto especial. “Não temos nada a perder; esperamos apenas que gastem algum dinheiro aqui”, diz o vendedor.
No entanto, as autoridades norte-americanas e tailandesas estão a tentar garantir que isso aconteça sem gerar as manchetes sensacionalistas pelas quais Pattaya se tornou conhecida.
As restrições
As autoridades tailandesas determinaram que a presença de militares norte-americanos é proibida em alguns locais. Um deles é a Soi 6, uma rua que conduz à praia principal e é conhecida pela concentração de bares de striptease.
Embora a polícia tailandesa tenha recordado aos visitantes norte-americanos que a prostituição é, tecnicamente, ilegal na Tailândia, estima-se que existam entre 25 mil e 50 mil profissionais do sexo na cidade. Muitas trabalham na Soi 6, onde se exibem em frente aos bares e convidam os homens a entrar.
As numerosas lojas de canábis de Pattaya também estão interditas aos militares norte-americanos, tal como alguns desportos aquáticos, entre os quais o parasailing e o jet ski.
“É uma decisão deles”, declarou o presidente da Câmara, Poramase Ngampiches, à BBC. “Os militares norte-americanos fizeram o trabalho de casa”, acrescentou, com ironia.
O adido naval norte-americano Kristopher Robinson evitou responder às perguntas da BBC sobre as atividades proibidas aos militares. Em vez disso, afirmou que as tropas norte-americanas “se comportarão de acordo com a lei norte-americana, os regulamentos da Marinha dos EUA e a lei tailandesa”.
“Tentamos proporcionar aos marinheiros o máximo de oportunidades de descanso possível”, disse Robinson.
A Marinha dos EUA organizou um serviço de autocarros entre o porto e Pattaya, das 5h00 às 2h00, durante toda a permanência do porta-aviões na Tailândia. Foram também disponibilizados dois hotéis aos tripulantes norte-americanos que pretendam passar a noite em terra. As autoridades tailandesas mobilizaram centenas de polícias para vigiar as zonas de entretenimento da cidade e alertaram os comerciantes locais para que não cobrem preços abusivos aos turistas norte-americanos.
“As visitas de militares norte-americanos há 50 ou 60 anos colocaram Pattaya no mapa mundial e transformaram-na numa atração turística”, diz o presidente da Câmara, Poramase. “Sejamos honestos: a cidade é conhecida pelas profissionais do sexo. Compreendemos os estigmas. Não podemos evitá-los”, reconhece.
“O que podemos fazer é mostrar que Pattaya mudou e que agora oferece outras opções, como desporto, seminários, programas de bem-estar e atividades para toda a família. É uma mistura de tudo.”
Os dois países esperam que, quando o USS Abraham Lincoln iniciar a longa viagem de regresso a casa através do Pacífico, a 6 de setembro, a sua tripulação esteja revigorada e descansada.
Da pesca ao sexo
Localizada a cerca de 100 quilómetros de Banguecoque, Pattaya era uma pequena aldeia piscatória em meados do século XX. Os primeiros militares norte-americanos chegaram em 1959, quando fuzileiros navais estacionados nas proximidades começaram a usar as suas praias para descanso, segundo registos municipais citados num estudo de 2024 das universidades Thammasat e Chulalongkorn.
No entanto, foi durante a Guerra do Vietname que começou a transformação radical de Pattaya. A cidade tornou-se um ponto de paragem para os militares enviados para o Vietname, relativamente próximo da Tailândia, embora os dois países não partilhem uma fronteira terrestre. A cidade ficava perto da Base Naval de Sattahip e do Aeródromo de U-Tapao, onde estavam estacionados bombardeiros B-52 da Força Aérea dos EUA.
Em 1966 e 1967, as tropas norte-americanas representaram entre 11% e 16% de todos os visitantes da Tailândia. Esta procura impulsionou a abertura de hotéis, bares, discotecas e casas de massagens.
Uma lei de 1966 permitiu que estabelecimentos de entretenimento empregassem mulheres que oferecessem “serviços especiais”. Isso criou uma zona cinzenta legal, embora a prostituição no país seja proibida desde 1960.
Quando as tropas norte-americanas se retiraram, em 1976, após o fim da Guerra do Vietname, as infraestruturas permaneceram e facilitaram a transição para o turismo civil de massas.
Entretanto, a Tailândia consolidava a sua posição como destino turístico. O país registou um forte aumento do número de turistas nacionais e internacionais, que passou de 200 mil em 1960 para 5 milhões em 1980. Uma crise agrícola também impulsionou a migração de mulheres jovens das zonas rurais para as cidades, segundo o estudo da London School of Economics. Na década de 1990, os distritos próximos das antigas bases militares norte-americanas tinham cinco vezes mais profissionais do sexo do que aqueles situados junto de bases que não tinham sido utilizadas pelos EUA.
Com o passar das décadas e o fim da Guerra Fria, os militares norte-americanos foram substituídos como clientela por viajantes europeus e, mais recentemente, por turistas russos e chineses.
Atualmente, segundo a Reuters, a indústria do sexo continua abertamente visível na cidade, apesar de ser ilegal e das frequentes operações policiais.
Entretanto, as autoridades locais tentam diversificar a imagem turística da cidade através de ofertas ligadas ao desporto, às atividades familiares e ao bem-estar.