Dores nas costas nem sempre começam de forma intensa. Pode surgir como uma fisgada abrupta, um incômodo ao levantar ou uma sensação que aparece e desaparece conforme a posição do corpo. Aos poucos, porém, movimentos simples como amarrar o tênis, sair da cama, dirigir ou permanecer sentado podem se tornar desconfortáveis.

Mais de 4,12 milhões de trabalhadores precisaram se afastar temporariamente de suas funções no Brasil em 2025 por motivos de saúde. Pelo terceiro ano consecutivo, queixas relacionadas à coluna lideraram o ranking das doenças e transtornos que mais motivaram licenças no país.

Apenas a dorsalgia ficou à frente dos transtornos dos discos intervertebrais. A classificação inclui diferentes alterações, entre elas as hérnias de disco. Em 2025, 208.727 benefícios por incapacidade temporária foram concedidos para condições enquadradas neste grupo.

Quando a causa é uma hérnia de disco, o diagnóstico costuma trazer uma preocupação imediata com a possibilidade de cirurgia. Em muitos casos, porém, o tratamento conservador, baseado em movimento, fortalecimento, controle da dor e mudanças na rotina, pode fazer parte da recuperação.

Conforme o fisioterapeuta e proprietário do Doutor Hérnia, em Lajeado, Cristiano Bremm (CREFITO 8/38028-F), mais do que evitar o centro cirúrgico, a proposta é compreender o que acontece com a coluna e encontrar, para cada pessoa, a estratégia mais adequada para recuperar o movimento e a qualidade de vida.

O que é a hérnia de disco

O especialista explica que a hérnia de disco ocore quando o disco intervertebral, estrutura cartilaginosa que funciona como um amortecedor entre as vértebras, se desloca ou se rompe.

“A alteração pode comprimir raízes nervosas próximas e provocar dor na coluna, que muitas vezes se irradia para os braços ou as pernas. Na região lombar, por exemplo, a compressão pode atingir o nervo ciático. Também podem surgir formigamento, dormência ou perda de força nos membros”, ressalta.

Dependendo da intensidade dos sintomas, atividades simples do dia a dia podem se tornar difíceis, com impacto direto sobre a mobilidade e a qualidade de vida.

Cuidados com a postura, atividade física e fortalecimento da musculatura podem contribuir para a saúde da coluna (Foto: Paulo Cardoso)

O transtorno é mais comum na região lombar, na parte baixa das costas, seguida pela cervical, na região do pescoço. Mais frequente entre adultos de 30 a 60 anos, a condição pode estar relacionada ao desgaste natural dos discos intervertebrais, que se tornam menos flexíveis com o passar do tempo. Esse processo, somado a fatores como sobrecarga e movimentos repetitivos, pode favorecer o surgimento da lesão.

No entanto, Bremm tem observado casos em pacientes jovens. “Aqui mesmo, em Lajeado, atendemos há poucos dias um rapaz de 17 anos com hérnia de disco. Estamos vendo, portanto, uma geração com mais problemas de coluna, mas por motivos diferentes daqueles enfrentados pelas gerações que trabalhavam, por exemplo, na agricultura”, ressalta.

Para ele, parte desse cenário está relacionada à mudança nos hábitos, especialmente ao uso prolongado de celulares e computadores. “Para quem tem filhos adolescentes, sabe que é difícil. A gente orienta, fala para mudar a postura, mas ele vai lá e fica do mesmo jeito. E hoje já existem artigos descrevendo o que se chama de ‘síndrome do smartphone’.”

O fisioterapeuta chama atenção principalmente para a posição adotada. “Ficar com a cabeça baixa, com o aparelho no colo, vai totalmente contra o movimento natural, fisiológico, da coluna.” Na avaliação do especialista, esse tipo de sobrecarga postural é um fator que merece atenção diante do aumento dos problemas de coluna.

Assintomática

Há casos em que a hérnia de disco não provoca sintomas. Segundo o proprietário, alguns indivíduos convivem com a alteração sem sentir dor e só percebem que há algo diferente quando uma crise aparece.

“A pessoa vai sair do carro e trava. Mas já existia uma predisposição, um início de hérnia que estava ali e ela nem sabia, porque era assintomática.”

Na maioria das vezes, porém, o quadro começa de maneira mais discreta. A pessoa sente uma dor leve, toma um relaxante muscular ou um anti-inflamatório, melhora por alguns dias e, depois, o incômodo retorna. Esse ciclo pode se repetir até que a dor passe a interferir nas atividades diárias.

O especialista ressalta que isso não significa necessariamente que já exista uma hérnia de disco. A dor pode estar relacionada a outras alterações, como o achatamento ou a sobrecarga da região. “É um aviso, digamos. O corpo, na maioria das vezes, vai avisando.”

Avaliação

O primeiro passo, segundo Bremm, é entender o que está acontecendo com cada paciente. Na consulta inicial, são realizados testes físicos e avaliações específicas para identificar possíveis alterações nos nervos e compreender como a coluna está respondendo aos movimentos. Exames de imagem, principalmente a ressonância magnética, complementam a avaliação.

“Esses processos ajudam a definir qual é o melhor tipo de tratamento.Precisamos entender o que acontece com cada pessoa, respeitar o porte físico, a rotina e os afazeres. A partir disso, procuramos as causas do problema para tratar não só a dor, mas o que está levando àquela alteração.”

Análise individual é importante porque cidadãos com o mesmo diagnóstico podem ter rotinas e fatores associados diferentes. “Eu posso ter um paciente que trabalha o dia inteiro sentado em um escritório e outro que é agricultor e passa o dia levantando peso. Ambos podem ter uma hérnia de disco, mas as causas e a forma de abordar cada caso são específicas.”

Exercícios de respiração podem integrar a rotina de cuidados com o corpo e contribuir para o controle da tensão muscular (Foto: Paulo Cardoso)

Tratamento

O fisioterapeuta afirma que o Doutor Hérnia trabalha com 11 protocolos próprios, definidos de acordo com as características apresentadas por cada paciente. Segundo ele, os protocolos são baseados em estudos científicos e, nas estatísticas internas da clínica, apresentam índice de resolutividade de 95% dos casos.

Maior parte dos tratamentos, conforme Bremm, é estruturada em um período de três meses, com duas sessões semanais — cerca de 24 atendimentos no total. O processo é dividido em etapas, que podem variar de acordo com a necessidade de cada paciente.

Primeira delas busca corrigir alterações no posicionamento da coluna e da pelve. Para explicar a lógica, o especialista faz uma comparação com a manutenção de um carro. “Se o carro está com a geometria e o balanceamento fora do lugar, ele vai gastar mais um pneu de um lado. Se você simplesmente troca o pneu, está tratando o sintoma, mas não a causa.”

Na coluna, a proposta, segundo ele, é trabalhar inicialmente possíveis alterações de posicionamento, especialmente na região dos quadris, e realizar correções quando indicadas. Em seguida, entram equipamentos de tração e descompressão da coluna. As macas computadorizadas utilizadas pela clínica, explica Bremm, aplicam forças controladas para reduzir a pressão sobre determinadas regiões.

Etapa final é voltada aos exercícios específicos para estabilização da coluna. “Primeiro, a gente trabalha o alinhamento, depois a descompressão e, por último, a estabilização. É preciso fortalecer uma musculatura específica para que essa coluna tenha mais estabilidade e não volte aos padrões que estavam contribuindo para o problema.”

Tratamento, reforça o fisioterapeuta, não segue uma fórmula única. A rotina profissional, o condicionamento físico e os movimentos realizados no dia a dia interferem na escolha da abordagem.

“Hoje, a nossa estatística de resolutividade chega a 95% dos casos. É um resultado que mostra que existe, sim, uma alternativa para muitos pacientes que chegam até nós acreditando que a única saída é conviver com a dor ou partir para uma cirurgia. Quando a gente consegue identificar a causa e tratar de forma adequada, é possível recuperar a função, devolver o movimento e fazer com que essa pessoa volte para a vida que tinha antes da condição.”