Saúde bucal tem relação íntima com o coração

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Entenda por que cuidar da boca ajuda na prevenção de problemas cardíacos. Crédito: edição: Joaquim Macruz

Pergunta: Vi algumas publicações assustadoras na internet dizendo que o enxaguante bucal pode alterar o microbioma oral e levar a problemas graves de saúde. Isso é verdade?

Resposta: As afirmações nas redes sociais podem ser alarmantes. Segundo algumas delas, usar enxaguante bucal regularmente poderia eliminar as bactérias “boas” da boca, aumentando o risco de desenvolver diabetes tipo 2, pressão alta, doenças cardíacas e até problemas relacionados ao fluxo sanguíneo para o cérebro.

A boca abriga um delicado equilíbrio de microrganismos, incluindo bactérias que, quando esse equilíbrio é alterado, podem provocar efeitos em outras partes do organismo, segundo algumas pesquisas.

Mas será que o enxaguante bucal pode realmente causar tudo isso? Consultamos especialistas para ajudar a entender os riscos.

Para a maioria das pessoas, o enxaguante bucal é opcional, diz especialista Foto: JYPIX/Adobe Stock

O que as pesquisas sugerem

Usar ocasionalmente qualquer enxaguante bucal vendido sem receita, como uma vez por semana ou uma vez por mês, provavelmente não prejudica a saúde bucal nem a saúde geral, afirma Purnima Kumar, professora de periodontia e medicina oral na Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan.

Mas fazer bochechos com determinados tipos de enxaguante várias vezes ao dia durante meses e anos seguidos pode ter alguns efeitos prejudiciais, pondera ela. “Eu tenho um frasco de enxaguante bucal ao lado da minha escova de dentes? Com certeza. Mas uso todos os dias? Certamente não”, conta Purnima.

Os enxaguantes bucais geralmente se enquadram em duas categorias: os terapêuticos, que contêm ingredientes ativos que matam bactérias e ajudam a combater problemas dentários comuns, como mau hálito, doenças gengivais e cáries; e os cosméticos, que mascaram temporariamente o mau hálito e deixam um sabor agradável na boca, mas não contêm ingredientes ativos que eliminam germes.

O objetivo de uma boa higiene bucal é remover as bactérias prejudiciais que causam problemas dentários comuns, ao mesmo tempo em que se preservam as bactérias benéficas que ajudam a evitar esses problemas, resume Vivek Thumbigere-Math, professor associado de periodontia na Faculdade de Odontologia da Universidade de Maryland.

Escovar os dentes, usar fio dental e fazer limpezas dentárias regularmente ajudam nesse objetivo, destaca ele. Mas algumas pesquisas limitadas e ainda em estágio inicial descobriram que certos tipos de enxaguante bucal — especialmente os terapêuticos que contêm o antisséptico clorexidina — podem alterar o microbioma oral e algumas de suas funções normais.

Em um pequeno estudo publicado em 2020, por exemplo, 36 adultos saudáveis no Reino Unido fizeram bochechos duas vezes ao dia durante sete dias com um enxaguante bucal placebo e, depois, repetiram o procedimento com um enxaguante contendo clorexidina. O enxaguante com clorexidina foi associado a “uma grande mudança no microbioma salivar”, relataram os pesquisadores, além de uma boca mais ácida (o que pode aumentar o risco de cáries) e de uma redução na quantidade de bactérias associadas a uma pressão arterial saudável.

Não está claro se outros ingredientes antissépticos encontrados em enxaguantes bucais populares vendidos sem receita — como cloreto de cetilpiridínio, óleos essenciais, iodo ou peróxido de hidrogênio — podem alterar o microbioma tanto quanto a clorexidina. A lógica e algumas pesquisas limitadas sugerem que isso pode acontecer se forem usados por um longo período, afirma Richard Nejat, periodontista em Nova York. Por isso, é melhor evitar o uso prolongado, a menos que seja necessário tratar um problema odontológico específico.

Evidências crescentes sugerem que alterações no microbioma oral podem afetar a saúde cardiovascular. As bactérias da boca convertem nitratos dos alimentos em óxido nítrico, que relaxa os vasos sanguíneos e reduz a pressão arterial, informa Purnima.

Algumas pesquisas também encontraram uma associação entre o uso regular de enxaguante bucal (como duas vezes ao dia durante anos) e um risco maior de desenvolver diabetes tipo 2 e pressão alta. No entanto, esses estudos tinham muitas limitações e não comprovaram uma relação de causa e efeito, afirma Thumbigere-Math.

Enxaguantes à base de álcool ou peróxido também podem irritar as gengivas, a língua, a parte interna das bochechas e outros tecidos moles, dizem os especialistas. E ingredientes como óleos essenciais ou agentes espumantes podem causar ardência, úlceras ou, em alguns casos extremos, descamação da parte interna da boca.

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Como escolher o enxaguante bucal certo

Se você realmente precisar usar enxaguante bucal, por exemplo, caso um profissional de odontologia recomende ou prescreva um, é melhor optar por um produto voltado para um problema específico, em vez de um que trate uma ampla variedade de questões com vários ingredientes ativos, afirma Thumbigere-Math.

Se você tiver alto risco de desenvolver cáries, por exemplo, pode se beneficiar de um enxaguante bucal que contenha flúor, exemplifica Thumbigere-Math. Ou, se tiver boca seca, ele afirma que pode ajudar usar um enxaguante com ingredientes desenvolvidos para estimular ou imitar a saliva. Pacientes que temporariamente não conseguem escovar os dentes ou usar fio dental normalmente, inclusive após determinados procedimentos odontológicos, também podem se beneficiar do uso de enxaguantes terapêuticos, comenta Nejat.

Enxaguantes com flúor podem ser mais seguros para uso prolongado do que os antissépticos, afirma Nejat, porque atuam principalmente fortalecendo o esmalte dos dentes, em vez de matar bactérias.

Pessoas com boca seca, feridas na boca ou gengivas ou dentes sensíveis devem optar por enxaguantes sem álcool, pontua Nejat. Thumbigere-Math afirma que pessoas com dentes sensíveis devem evitar o uso frequente de enxaguantes clareadores.

Para a maioria das pessoas, o enxaguante bucal é opcional, diz ele; não há substituto para escovar os dentes, usar fio dental e fazer limpezas profissionais regularmente. “O enxaguante bucal não é algo para usar todos os dias durante a vida inteira”, acrescenta Purnima, especialmente quando se trata de um produto que exige prescrição.

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