No “Global”, Paulo Portas acusou ainda JD Vance de tentar “fazer de conta” que a guerra com o Irão não existe e considerou que Donald Trump procura uma “surpresa de outubro” antes das eleições intercalares nos Estados Unidos
Paulo Portas considerou este domingo que a vitória da AfD nas eleições regionais da Saxónia-Anhalt levanta uma questão mais profunda sobre a Alemanha: “Será que a reunificação falhou?” No comentário semanal no Jornal Nacional da TVI, o antigo vice-primeiro-ministro sublinhou que a antiga Alemanha de Leste é hoje “infinitamente mais próspera e mais rica” do que antes da queda do Muro de Berlim, mas defendeu que a transformação económica não foi acompanhada pela mesma mudança na cultura política.
A AfD conseguiu cerca de 44% dos votos, muito à frente da CDU, e pode aproximar-se de uma inédita chegada da extrema-direita ao governo de um estado alemão no pós-guerra.
“A memória está completamente obliterada”, afirmou Portas, apontando tanto à extrema-direita como às forças políticas herdeiras da esquerda da antiga RDA. “Não é no TikTok que se vai descobrir o que foi o Terceiro Reich, nem o que foi o Holocausto.”
O comentador admitiu ainda como hipótese um entendimento, formal ou informal, entre a AfD e o BSW, de Sahra Wagenknecht, cenário que classificou como “verdadeiramente inédito”.
Da Alemanha, Paulo Portas passou para a Rússia e deixou outro aviso: Vladimir Putin “não está a atacar a Europa, está a testar a Europa”. Na sua leitura, o Presidente russo procura perceber até onde pode avançar sem encontrar uma resposta firme, dividindo os países europeus e explorando as diferenças entre os que estão mais próximos e mais afastados da ameaça russa. “Está a testar a moleza da Europa”, resumiu, lembrando os episódios de guerra híbrida, ciberataques, sabotagem e incursões no espaço aéreo.
A Alemanha responsabilizou esta semana Moscovo por uma tentativa de ataque com drone no aeroporto de Leipzig/Halle, acusação rejeitada pela Rússia. “Se o deixarem vencer na Ucrânia, ele testará os Bálticos, para não dizer a Polónia”, advertiu Portas.
Sobre as novas diligências diplomáticas dos Estados Unidos, depois de Steve Witkoff e Jared Kushner se terem reunido com Putin em Moscovo e, este domingo, com Volodymyr Zelensky em Kiev, Portas considerou que Trump procura uma “surpresa de outubro” capaz de alterar o ambiente político antes das eleições intercalares de novembro.
Os enviados norte-americanos disseram ter ouvido “novas ideias” em Moscovo, embora sem anunciar qualquer avanço decisivo.
Paulo Portas voltou depois ao Irão e criticou JD Vance por ter declarado esta semana que “não chamaria guerra” ao confronto que dura há mais de seis meses. “Se eu não posso vencer a guerra, faço de conta que ela não existe”, ironizou. Também classificou como “extraordinárias” as declarações do vice-presidente norte-americano sobre estar a fazer “o trabalho de Deus” mesmo que isso conduza ao “fim dos tempos”.