Há 13 anos, José Mourinho saiu do Real Madrid pela porta pequena – sem o título de La Liga, com o balneário dividido e com uma relação com o clube que demorou anos a cicatrizar. Em fevereiro de 2026, quando ainda treinava o Benfica e era questionado sobre a possibilidade de regressar ao Santiago Bernabéu, foi direto: “Sim, é possível” recusar um convite de Florentino Pérez. Quatro meses depois, não recusou. Mourinho deixou o Benfica para regressar ao Real Madrid – e sentou-se à frente das câmaras da UEFA para explicar porquê. A resposta foi curta e definitiva: “O Real Madrid é o Real Madrid e ponto final”.

O regresso não foi uma decisão fácil – ou pelo menos não foi uma decisão simples de tomar. Mourinho não escondeu que estava bem no Benfica. “Na época passada não escondi o que o Benfica significava para mim, algo que consegui esconder durante quase toda a carreira. Sentia-me à vontade no Benfica, gostava de lá estar e estava convencido de que íamos construindo algo que traria resultados a curto prazo”, admitiu. Em maio, garantia não ter tido “nenhum contacto com o Real nem com qualquer pessoa da estrutura” mas deixou a porta entreaberta: “A próxima semana é importante para mim e para o meu futuro”. O técnico de 63 anos distinguiu esta chegada da de 2010: “Desta vez, não tinha ganho nada antes de me juntar ao clube. Cheguei com a reputação que o clube já tinha de mim. Tendo em conta o que estavam a passar, o clube achou que eu era a solução, que era eu quem os poderia ajudar. Para mim, isso despertou o meu orgulho“.

Mais de 400 milhões investidos, uma Aranha que caiu na teia e os “choques” Real-Barça: como a chegada de Mourinho mudou o mercado da La Liga

O sorteio da fase de liga da Champions, realizado a 27 de agosto no Mónaco, ditou os destinos do Real Madrid na primeira etapa. Os merengues vão defrontar, em casa, o Inter, o PSV, o RB Leipzig e o LASK Linz; fora, o Arsenal, a Roma, o Shakhtar Donetsk – que joga os seus jogos em Stamford Bridge, em Londres, devido à guerra na Ucrânia – e o AEK Atenas. A fase de liga arranca a 8 de setembro, com a visita do Inter ao Bernabéu, e termina a 27 de janeiro de 2027.

Mourinho falou sobre os adversários com a mistura habitual de respeito e confiança. Do Arsenal – que eliminou o Real Madrid da Champions há duas épocas, por 5-1 no agregado – disse que vem a lutar pela Champions há mais de 20 anos e, na última época, esteve a um jogo de consegui-lo. “Tem potencial para fazê-lo e vai querer dar tudo por isso”. Do Inter, a equipa que melhor conhece de todas: “Tem uma equipa fantástica e diria que melhora de ano para ano, porque é uma equipa que trabalha há muitos anos com treinadores que utilizam o mesmo sistema de cinco defesas. Quando um jogador sai, entra outro melhor”. E avisou: “Não quero deixar que a minha arrogância leve a melhor e dizer que nos vamos qualificar com certeza. Acho que nos vamos qualificar, mas acho que vamos sofrer e teremos de ir jogo a jogo“.

O arranque na La Liga tinha sido encorajador – até que chegou a quarta jornada, em que os blancos perderam por 1-0 no La Cartuja, em Sevilha, diante do Betis. Até esse desaire, três vitórias em três jogos, incluindo um expressivo 4-0 sobre o Málaga no Bernabéu, colocavam o Real Madrid em igualdade pontual com o Barcelona no topo da classificação. Mourinho, porém, foi o primeiro a travar o entusiasmo excessivo. “Temos de ser otimistas, mas realistas, mantendo sempre a cabeça fria. A época não é uma autoestrada – há subidas e descidas, bem como curvas ao longo do caminho, e temos de ser capazes de superar isso”, afirmou. O técnico reconheceu que a equipa “tem jogado bom futebol e dado uma imagem diferente em comparação com a época passada” – uma referência subtil às dificuldades da temporada anterior, que deixou o Real Madrid sem títulos e com Álvaro Arbeloa a não ter sucesso depois de render Xabi Alonso.

Em duelo Real, La Cartuja foi Villamarín e Sevilha foi igual a si própria: Betis vence Real Madrid e dita primeira derrota de Mourinho

O peso de treinar o clube 15 vezes campeão da Europa não é novidade para Mourinho – mas não deixa de ser um peso. “O Real Madrid é um clube enorme e estamos cientes disso. É claro que temos um peso enorme de responsabilidade sobre os nossos ombros e que as expectativas também são enormes, mas sinto-me à vontade com isso“, afirmou. A forma como gere esse peso é sempre a mesma, independentemente do clube ou da competição: “Os meus próprios analistas sabem que, assim que um jogo termina e entramos num autocarro ou num avião, têm de me entregar o material de trabalho para o próximo jogo. Nem sequer tenho o dia seguinte para dizer a mim mesmo que não vou pensar em futebol”.

É essa obsessão que o mantém no topo aos 63 anos – e que o fez trocar o Benfica pelo Real. Mourinho descreveu o ciclo que o define com uma clareza que não deixa margem para dúvidas: “Tenho sempre de ganhar o próximo jogo. É um ciclo de ‘Quero ganhar o próximo jogo’. Se ontem ganhei, quero ganhar outra vez. Se ontem perdi, não quero perder outra vez. Essa é a minha verdadeira natureza”. E o “próximo jogo” é já na terça-feira, com o reencontro do Inter com José Mourinho e com o Santiago Bernabéu, onde venceu a sua última Liga dos Campeões, em 2010, precisamente com o Special One.