No Grande ABC, das 50.012 crianças até 5 anos avaliadas pelo Sisvan (Vigilância Alimentar e Nutricional), do governo federal, 1.563 (3,1%) possuem peso baixo ou baixíssimo e 3.817 (7,6%) estão acima do considerado ideal, com sobrepeso ou obesidade. Ou seja, 10%, ou uma a cada dez, estão com massa corporal inadequada. No Estado, as médias são de 2,6% e 6,9%, respectivamente (Veja dados na tabela).
A pediatra do INKI, Thatyana Turassa Ernani, alerta que uma alimentação inadequada na primeira infância pode impactar a saúde por décadas. “O corpo de uma criança que passou por privação nutricional se adapta a essa escassez, e essa adaptação pode causar maior risco de diabetes e doenças cardiovasculares na vida adulta, pior desempenho escolar, imunidade mais fraca e, em muitos casos, até estatura final comprometida.”
O Sisvan aponta ainda que 4.993 (10%) das crianças têm estatura menor que a adequada para a idade. No Estado, a média é 8%. “Do 0 aos 5 anos é a fase em que o cérebro e o corpo crescem mais rápido do que em qualquer outro momento da vida. Se a alimentação não dá conta dessa demanda, o impacto aparece em várias frentes”, afirma.
O sistema imune da criança fica mais fragilizado, deixando-a mais suscetível a infecções. A privação nutricional pode atrasar o desenvolvimento motor e o cognitivo. “É um período que não dá segunda chance, o que não é construído ali fica mais difícil de recuperar depois”, define Thatyana.
A pediatra destaca ainda que uma criança com excesso de peso também pode estar desnutrida. “Existe até um nome para isso na literatura: dupla carga de má nutrição. A criança come bastante caloria, mas pouco nutriente de verdade. Falta ferro, zinco, vitaminas essenciais para o desenvolvimento, mesmo com a balança acusando peso alto”, explica.
O excesso de consumo de alimentos ultraprocessados pode ser também reflexo de uma vulnerabilidade social. “É mais barato, dura mais na prateleira e é mais divulgado, e isso pesa muito em uma família com orçamento apertado”, ressalta a pediatra.

“Ao mesmo tempo, nem toda família sabe reconhecer o que é nutritivo e o que não é, porque a publicidade desses produtos é muito mais presente do que qualquer orientação nutricional. Então, calorias vazias costumam ser reflexo tanto da falta de dinheiro quanto da falta de informação, e geralmente as duas coisas andam juntas”, completa a especialista.
EMOCIONAL
A psicóloga Rejane Sbrissa afirma que o cenário é, em maior proporção, retrato de vulnerabilidade do que negligência dos pais. “Em muitos casos, famílias oferecem o melhor cuidado possível, mas vivem em condições que limitam o acesso regular a alimentos de qualidade e a outros recursos essenciais.O impacto também pode ir muito além do crescimento físico. Os primeiros anos de vida são fundamentais para o desenvolvimento cerebral”, aponta.
No desenvolvimento cognitivo, são construídas bases para a linguagem e comunicação, atenção, concentração, memória, aprendizagem, resolução de problemas, curiosidade, exploração, planejamento e controle dos impulsos.
Ainda há uma dimensão emocional e psicossocial. “A vulnerabilidade que leva à má nutrição muitas vezes vem acompanhada de estresse familiar, insegurança, dificuldades econômicas, menor acesso à estimulação adequada e outras adversidades. Esse conjunto pode afetar o desenvolvimento da autonomia, da capacidade de aprender e até da regulação emocional”, justifica a psicóloga.
Rejane reforça que o cérebro mantém a capacidade de mudança durante toda a vida e experiências posteriores positivas, relações seguras, educação, apoio social e psicoterapia podem reparar ou reduzir os impactos. “Resumindo, até os 5 anos, não se constrói o destino de uma criança, mas constrói-se grande parte do alicerce sobre o qual ela continuará construindo sua vida.”
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