John Ternus pode ter feito carreira a trabalhar no hardware e engenharia da Apple, mas os especialistas também sublinham a necessidade de trabalhar no campo das funcionalidades de software. “O desafio que é, provavelmente, o mais impactante para a empresa é o da inteligência artificial”, destaca Francisco Jerónimo, da IDC.
Enquanto empresas como a Google, Anthropic ou a OpenAI têm estado em destaque nas ferramentas de IA generativa, “a Apple tem andado um pouco atrás”, reconhece o analista, ficando dependente de parceiros. Primeiro, apostou na OpenAI (que decidiu este ano processar por alegado roubo de segredos comerciais) e, já este ano, na Google para a IA. Uma das expectativas da apresentação desta quarta-feira é a revelação da Siri AI, uma assistente digital com mais funcionalidades.
A forma como a Apple vai gerir o tema da IA será “crítica para o futuro da empresa”, destaca Jerónimo. “Pode ser aquilo que continua a manter a Apple no topo ou pode ser o que já aconteceu com marcas icónicas como a Nokia ou a BlackBerry”, exemplifica. As duas empresas chegaram a ser líderes de mercado nos telemóveis, mas perderam espaço com a transição para o smartphone.
“Empresas que dominaram o mercado em várias indústrias perderam a liderança e muitas delas morreram em pouco tempo porque descuraram as mudanças que a tecnologia traz à vida das pessoas”, realça. De qualquer forma, os graus de risco são bem diferentes para a Apple.
Há cerca de dois meses, a Apple subiu os preços de vários produtos, dos MacBook aos iPad. Numa curta nota, a empresa justificou as alterações com o “desafio sem precedentes” criado pelo “aumento extraordinário” dos preços das memórias. Devido ao entusiasmo com a inteligência artificial (IA), muitos fabricantes destes componentes adaptaram a produção de memórias para responder à procura. Os preços das memórias dispararam, levando várias marcas a subir os preços finais para acomodar as alterações.
Em Portugal, os produtos da Apple ficaram entre 100 a 400 euros mais caros, mas a linha iPhone ficou de fora das subidas. Francisco Jerónimo considera que foi uma decisão “intencional da empresa”, já que “é a categoria que gera mais vendas”. “Por outro lado, com o lançamento de produtos em setembro não fazia sentido estar a aumentar o preço e a ter um impacto a curto prazo nas vendas da Apple”, refere.
Francisco Jerónimo considera que será “mais fácil” para a empresa justificar aumentos agora, em tempos de novidades. “O que estamos à espera que aconteça é que, no iPhone Pro Max, haja um aumento de 200 dólares”, exemplifica. Em Portugal, onde os preços dos produtos são sempre mais altos do que os valores anunciados no evento, admite uma “subida semelhante”.
“Gerir o problema da memória é um grande desafio, porque é uma questão que vai durar pelo menos até 2028”, admite o especialista. “A Apple vai ter que continuar a trabalhar para garantir acesso às memórias. Mas isso não é a grande questão, a grande questão é ter um preço que não impacte demasiado as receitas, ou melhor, as margens dos produtos.”
John Ternus terá também uma série de desafios a médio prazo, como a resiliência da cadeia de abastecimento e a difícil tarefa de navegar a tensão entre Washington e Pequim. Francisco Jerónimo admite que Tim Cook, que continuará ligado à empresa no papel de presidente executivo do conselho de administração, possa vir a ter “um papel muito importante”. Antes de ser CEO da Apple, Cook geriu a cadeia de abastecimento da Apple durante 13 anos.
“A Apple tem de diversificar mais a sua supply chain, porque não podem só estar dependentes da China”, explica Francisco Jerónimo. Nos últimos anos, a empresa tem feito esforços para se virar para paragens como a Índia ou o Vietname. “Mas não é fácil, porque não têm a capacidade que é fabricar na China”, diz Jerónimo.
“Como é que vão diversificar essa cadeia é importante porque é o futuro da empresa que está em causa”, resume. “Não porque não tenham capacidade de vender [produtos]. O problema mais grave é não terem capacidade de produção por questões relacionadas com temas geopolíticos, tarifas ou a falta de mão de obra em países”, enumera.