A crítica desta semana é de “Filha”, livro em que Manoela Sawitzki se debruça sobre relações familiares. Nos lançamentos, a filosofia de Wittgenstein, o segundo volume de “Do vinil ao streaming” e três narrativas poéticas sobre meninas. Raphael Montes e Socorro Acioli são os dois brasileiros na lista das ficções mais vendidas. Boa leitura!
‘Filha’, de Manoela Sawitzki | Bom
Editora: Companhia das Letras. Páginas: 128. Preço: R$ 69,90.
Matar o pai, fisicamente ou de maneira simbólica, é um ato fértil para a literatura. De Sófocles a Shakespeare, de Kafka a Lúcio Cardoso, o decesso paterno notabilizou personagens cujas histórias se constroem através do processo de superar essa figura autoritária, convertendo a experiência traumática num gênero narrativo.
“Filha”, de Manoela Sawitzki, enquadra-se nesse legado ficcional, recorrendo ao movimento de reconstrução da memória num relato confessional com sugestivos traços autobiográficos. A começar pelo nome da narradora, Manu, a caçula de uma família de sete irmãos que, 16 anos depois de fugir de casa, recebe a notícia do declínio da saúde do pai e decide retornar à cidade natal. A presentificação do passado desencadeia um fluxo em que a protagonista caminha no sentido da história íntima, desentranhando uma vida familiar enterrada no tempo, sobre a qual o romance se sustenta, contado em duas partes.
A primeira delas remonta ao período da infância ao fim da adolescência, em fragmentos não lineares e autocientes de sua imprecisão. Como declara a personagem: “Eu minto muito. (…) mentir também implica uma faculdade que pode mais do que torcer a realidade ligeiramente a meu favor”. Essa alienação induzida advém do desejo permanente de se deslocar de um lar disfuncional, encravado no interior do Rio Grande do Sul, onde impera a desordem e a pedagogia da violência. Ao mínimo aborrecimento, o pai, um comerciante abrutalhado e alcoólatra, aplica corretivos severos nos filhos, de tatuar hematomas pelo corpo. A esposa também é alvo de agressões, submetida a um jornada dupla de trabalho fora e dentro de casa, que lhe sequestra de qualquer convívio social, tornando-se uma mãe exausta e uma mulher “sem motivos para ficar de bom humor”.
O resultado dessa combinação explosiva, agravada pela derrocada dos negócios da família, é um cenário de envenenamento coletivo que corrompe o fundo emocional dos atores da trama. Testemunha ao mesmo tempo que agente dos fatos, Manu descreve o impacto nocivo do ambiente conflituoso na relação entre os irmãos e na própria formação, descambando para uma rebeldia ofensiva contra a qual o pai revida com mais crueldade, de modo a estabelecer um ciclo infindável de ódio mútuo.
O desafogo se dá na descoberta da leitura, incorporando ao relato pessoal menções a autores e livros por meio dos quais a autora contextualiza algumas situações, num aceno sutil de intertextualidade. O mesmo ocorre com as referências gerais aos anos 80 e 90, trecho que cobre essa parte do enredo, não apenas no trato estético, e sim no entendimento característico da época. Remonta-se uma sociedade em que a criança não era idealizada, e surras eram tidas como “um direito inalienável dos pais”. O comportamento desregrado da narradora faz com o muro da casa seja pichado com a frase “Manu Vagabunda”, criando uma chave para se comentar sobre a redução da feminilidade à fraqueza, à frescura. Pisando em campos minados, Sawitzki escapa do risco fácil de ser maniqueísta, trazendo para seu texto uma verdade contundente.
A segunda parte do livro concentra-se na volta da personagem à ilha da memória, lidando com a iminente morte do pai por meio de um amadurecimento que não anula, mas faz com que as mágoas se arrefeçam na distância. “Não faz muito tempo que aquele velho foi meu pior inimigo, e um velho, afinal, pode ser só um inimigo que envelheceu”, crava.
O passeio pelo museu do fantasma do pai irá revelar um homem que apenas perpetuou a violência com a qual foi forjado, tentando lidar com a loucura de prover o excesso de filhos, tudo registrado em cadernos descobertos que são cartografias para se chegar perto de um coração selvagem. A escrita, sempre potente, adota um estilo reflexivo, porém sem buscar meios dramáticos de reparação. Entre compreender e perdoar existe a experiência do vivido. E com ela, “Filha” se configura uma representação simbólica de quem repassa o próprio percurso entre o depoimento e a imaginação, recompondo tudo que se deu para perceber que ninguém de fato escapa do passado, que matar o pai, às vezes, pode ser somente adicionar um trauma a todos os traumas que a vida impõe.
*Sérgio Tavares é escritor e crítico literário
‘Consigo inventar tudo’
Autora: Julia Barandier. Editora: Diadorim. Páginas: 94. Preço: R$ 75.
Notório pintor e retratista francês do século XIX, Claude Barandier fez carreira no Brasil. Sua história serve como ponto de partida do segundo romance de Julia Barandier, descendente do personagem. Na obra, a carioca escapa das convenções da autoficção familiar, flerta com o horror e ecoa a literatura de escritores consagrados como Mary Shelley, Emily Brönte, Oscar Wilde e Charles Dickens.
Autor: Osvalde Lewat. Tradução: Renan Amorim. Editora: Tordesilhas. Páginas: 272. Preço: R$ 69,90.
Com uma escrita poderosa em que a brutalidade do mundo real compete com o humor ácido, “Os aquáticos” é, ao mesmo tempo, o retrato interior de uma mulher que revela a si mesma e um reflexo profundo dos jogos de poder em uma sociedade africana contemporânea. A autora, Osvalde Lewat, é uma cineasta e fotógrafa camaronesa também conhecida por seus documentários sociopolíticos.
Autor: Ludwig Wittgenstein. Tradução: Giovane Rodrigues e Tiago Tranjan. Editora: Fósforo. Páginas: 240. Preço: R$ 89,90.
Ludwig Wittgenstein (1889-1951) é um dos autores mais instigantes da filosofia do século XX. Seu pensamento é original no sentido mais próprio do termo, inaugurando novos gêneros na história da filosofia. Em “O livro azul”, o leitor conhece o Wittgenstein professor, que tratava os encontros com seus alunos não como meras aulas, mas como ocasiões para a produção de filosofia, moldando o futuro da filosofia analítica.
‘Do vinil ao streaming — Vol. 2’
Autor: Daniel Setti. Editora: Autêntica. Páginas: 512. Preço: R$ 149,80.
Nomes como Elvis Presley, Bob Dylan, Queen, Tracy Chapman e Adele, entre outros, foram fundamentais para a história da música pop, como mostra o jornalista Daniel Setti no segundo volume de “Do vinil ao streaming”. O lançamento está marcado para a próxima quarta-feira (3), às 19h, na Livraria Megafauna (Av. Ipiranga 200, loja 53, no Centro de São Paulo), com bate-papo entre o autor e o jornalista Gustavo Mayrink.
‘Três meninas mundo afora’
Autora: Nathercia Lacerda. Ilustrações: Marcela Carvalho. Editora: Escrita Fina. Páginas: 32. Preço: R$ 52,89.
Três narrativas poéticas sobre meninas que vivem em contextos marcados por deslocamentos, perdas e resistências — e também por afetos, descobertas e esperanças. As histórias iluminam, com lirismo e consciência, a diversidade de infâncias possíveis no mundo contemporâneo. As ilustrações de Marcela Carvalho ampliam os sentidos do texto com uma paleta sutil e traços que sugerem leveza.
- 1. ‘O cara que estou a fim não é um cara?! – Volume 1’, Sumiko Arai (New Pop)
- 2. ‘Jantar secreto’, Raphael Montes (Companhia das Letras)
- 3. ‘Melhor que nos filmes’, Lynn Painter (Intrínseca)
- 4. ‘Noites brancas’, Fiódor Dostoiévski (Editora 34)
- 5. ‘O cara que estou a fim não é um cara?! – Volume 2’, Sumiko Arai (New Pop)
- 4. ‘A empregada’, Freida McFadden (Arqueiro)
- 7. ‘Verity’, Colleen Hoover (Galera)
- 8. ‘A biblioteca da meia-noite’, Matt Haig ( Bertrand Brasil)
- 9. ‘Casas estranhas’, Uketsu (Intrínseca)
- 8. ‘A hipótese do amor’, Ali Hazelwood (Arqueiro)
- 10. ‘A cabeça do santo’, Socorro Acioli (Companhia das Letras)
- 1. ‘Novena e Festa da Padroeira – 2025’, (Editora Santuário)
- 2. ‘Café com Deus Pai 2025’, Júnior Rostirola (Editora Vélos)
- 3. ‘Perguntas que me fazem sobre o Holocausto’, Hédi Fried (WMF Martins Fontes)
- 4. ‘Coisa de rico’, Michel Alcoforado (Todavia)
- 5. ‘O cérebro e a menopausa’, Lisa (Harpercollins)
- 6. ‘Análise’ Vera Iaconelli (Zahar)
- 7. ‘Tratado da verdadeira devoção à SS. Virgem’, São Luís Maria Grignion de Monfort (Vozes de Bolso)
- 8. ‘Vade Mecum Saraiva Tradicional – 40ª Edição 2025’, Saraiva JUR (Saraivajur)
- 9. ‘Não começou com você’, Mark Wolynn (Alta Life)
- 10. ‘O Deus que destrói sonhos’, Rodrigo (Thomas Nelson Brasil)
- 1. ‘Elo Monsters Books’, Enaldinho (Pixel)
- 2. ‘O caderno de maldades do Scorpio 2 – O segredo do Floreante”, Maidy Lacerda (Outro Planeta)
- 3. ‘O diário de uma princesa desastrada’, Maldy Lacerda (Outro Planeta)
- 4. ‘O verão que mudou minha vida’, Jenny Han (Intrínseca)
- 5. ‘Assistente do vilão’, Hannah Nicole Maehrer (Alt)
- 6. ‘Um intercâmbio quase perfeito’, Mih Tanino (Maquinaria)
- 7. ‘Diário de um Banana 1’, Jeff Kinney (VR)
- 8. ‘O caderno de maldades do Scorpio’, Maidy Lacerda (Outro Planeta)
- 9. ‘As aventuras de priminha irritante no reino dos unicórnios’, Gabriel Dearo/Manu Digilio (Outro Planeta)
- 10. ‘O Homem-Cão #1’, Dav Pilkey (Cia das Letrinhas)
- 1. ‘Mais esperto que o diabo’, Napoleon Hill (Citadel)
- 2. ‘O homem que comprou o tempo’, Thiago Nigro (Citadel)
- 3. ‘Mais esperto que o diabo 2’, Napoleon Hill (Citadel)
- 4. ‘Como fazer amigos e influenciar pessoas’, Dale Carnegie (Sextante)
- 5. ‘A Morte é um dia que vale a pena viver’, Ana Claudia Quintana Arantes (Sextante)
- 6. ‘Cabeça de campeão’, François Ducasse (Citadel)
- 7. ‘Quebrando o hábito de ser você mesmo’, Joe Dispenza (Citadel)
- 8. ‘O poder do subconsciente’, Joseph Murphy (Bestseller)
- 9. ‘A coragem de não agradar’, Fumitake Ichiro/Koga Kishimi (Sextante)
- 10. ‘Minutos de sabedoria’, C. Torres Pastorino (Vozes)