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Nos últimos anos, a investigação médica tem aprofundado o conhecimento sobre o corpo humano através da microbiota, que tem sido considerada uma verdadeira revolução. O estudo das nossas bactérias, impulsionado pelos avanços da biologia molecular, abre a porta a uma infinidade de novas questões.

Será que a nossa microbiota pode afectar a nossa saúde, funcionar como tratamento ou melhorar o nosso bem-estar? Se assim fosse, como poderia ser gerida? Em busca de respostas, na National Geographic conversámos com Chaysavanh Manichanh, doutora em Bioquímica e Microbiologia, que começou a estudar o tema há 24 anos, quando poucos sabiam do que se tratava.

Actualmente, é chefe do grupo de Investigação em Microbioma do Hospital Vall d’Hebron Institut de Recerca, em Barcelona, e ousa fazer um diagnóstico da situação actual. “No início, éramos muito poucos a estudar a microbiota e agora não temos tempo para ler todos os artigos científicos que são publicados. Passámos dez anos a caracterizá-la e, graças à evolução do sequenciamento em massa, os dez anos seguintes foram dedicados a relacioná-la com doenças. Agora estamos a tentar utilizá-la como terapia ou como método de diagnóstico mais preciso. A ideia é aprofundar a relação mecânica entre a microbiota e a doença, o que ainda é muito difícil”, afirma.

Mais cautelosa do que a maioria das pessoas que falam nos meios de comunicação sobre a microbiota, prefere limitar as suas respostas ao que foi cientificamente comprovado, embora reconheça que o comportamento tem muito a ver com o senso comum.

Pergunta (P): Em que está a investigar actualmente?

Resposta (R): Estou a trabalhar com especialistas na doença de Crohn e na colite, que desenvolveram estirpes para a curar. Ainda estamos em ensaios clínicos com poucos doentes e resultados que não são a 100%. É um pouco melhor do que o tratamento actual, mas não funciona em todos os casos. Estamos a tentar estabelecer uma correlação entre a doença e a microbiota em grandes grupos populacionais, de 10.000 ou 100.000 pessoas, para podermos minimizar a variabilidade. O esforço continua no sentido de reunir todos os grupos de investigação e dispor de grandes coortes.

P: A senhora é mais cautelosa do que muitas outras pessoas que falam publicamente sobre a microbiota.

R: O interesse tem sido exponencial, tanto no lado positivo como no negativo, dentro da comunidade científica. Há quem tenha visto uma oportunidade e seja mais fácil propor uma solução rápida à população do que realizar uma investigação. Não estou muito a par do assunto, mas sei que surgiram startups a afirmar que curavam doenças analisando a microbiota.

manichanh microbiota vall d'hebron VHIR

Manichanh (ao centro) e a sua equipa de investigação do Hospital Vall d’Hebron. 

P: Isso é impossível?

R: Conseguir fazer previsões para ajudar no diagnóstico é o que temos vindo a tentar fazer há quase 25 anos com a doença de Crohn e a colite, mas ainda não o conseguimos.

P: Em que medida a nossa microbiota depende da alimentação, da genética ou do estilo de vida?

R. Precisamos de cortes maiores, e é isso que estamos a fazer. Existe muita variabilidade entre as pessoas e é difícil determinar o impacto. É verdade que a alimentação é um dos aspectos mais importantes e já se observaram efeitos muito rápidos em mudanças na dieta.

P: Estudou o caso de quem segue uma dieta vegetariana ou vegana. O que descobriram?

R: Que a composição muda totalmente. Ao eliminar a proteína animal, vão perder algumas bactérias, mas vão comer mais fruta, vegetais e leguminosas. Por isso, a tendência é que tenham uma microbiota com maior diversidade. Não sabemos o que acontece a longo prazo.

P: E o que acontece se voltarem a comer carne?

R: A microbiota é muito resiliente. Se voltarem a comer carne, o seu estado irá alterar-se. É como os antibióticos: quando se deixa de os tomar, a microbiota já foi afectada, pelo que se pode deixar de os tomar. Isto significa que, através da alimentação, se poderia tentar evitar doenças.

P: Em que medida o consumo de alimentos ultraprocessados influencia?

R: Existem diferentes tipos de alimentos que podem influenciar o estado da inflamação, mas o problema que temos é que é difícil avaliar o que é ultraprocessado, porque não é possível ver o que as pessoas comem, uma a uma. O que, sim, observámos é que os alimentos ultraprocessados estão relacionados com uma redução da diversidade da microbiota. Outra coisa que observámos é que os doentes que sofrem destas doenças têm uma alimentação menos saudável, mesmo sabendo que as têm.

P: Isto parece contraintuitivo. Não deveriam cuidar mais de si?

R: Não, foi isso que nos surpreendeu. Agora resta estudar se isso é a causa da doença e verificar se, ao alterar a dieta, o seu estado de inflamação também muda. O próximo passo é intervir na dieta dos doentes e ver se os seus sintomas melhoram.

P: Qual é o processo molecular pelo qual uma alimentação saudável gera uma microbiota melhor?

R: Ao comer mais fruta, vegetais e fibra, em geral, aumenta-se a diversidade da microbiota porque estes alimentos chegam às bactérias do cólon sem serem processados pelas nossas células. É como um alimento. Além disso, a microbiota produz vitaminas que podem ser úteis às nossas células intestinais.

P: Existe algum alimento cuja acção tenha sido diferente do que esperavam?

R: Existem estudos que indicam que o café está associado a uma redução da inflamação e, em última análise, é benéfico para a microbiota, uma vez que é metabolizado por certas bactérias.