Há empresas que desaparecem quando os tempos mudam e outras que sobrevivem porque alguém se recusa a abandonar o trabalho.
Pedro Trapote, aos 86 anos, é um desses exemplos de resiliência. Continua a trabalhar, a descontar para a Segurança Social e, sobretudo, a procurar novos caminhos para os negócios que ajudou a construir: a famosa Joy Eslava e a Chocolatería San Ginés.
Em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, resumiu a sua filosofia numa frase direta: “Reformar-me é começar a morrer.” E é por isso que nunca para. “Tenho necessidade de estar em cima dos negócios e de os ampliar, na medida do possível”, afirmou.
Mas como é que toda esta história começou?
De filho de carpinteiro a empresário
Natural de Valladolid, Pedro Trapote é filho de um carpinteiro e viveu uma infância marcada pela procura de melhores oportunidades. A família acabou por mudar-se para Barcelona, numa trajetória que o próprio empresário descreve como a de um emigrante dentro do seu próprio país.
Foi nessa fase que começou a construir a sua relação com o trabalho e com o empreendedorismo. Mais tarde, em Sitges, abriu uma pequena loja de artesanato em pele dirigida aos visitantes estrangeiros.
Foi aí que percebeu uma tendência. “Percebi perfeitamente que o turismo ia ser a verdadeira fonte de riqueza de Espanha”, recordou. Decidiu por isso viajar, conhecer outros negócios e procurar aprender com eles.
E um negócio foi particularmente marcante: a Studio 54, uma discoteca nova-iorquina que estava a transformar a vida noturna de Nova Iorque. Pedro foi conhecê-la e, embora tenha sido barrado nas primeiras noites, à quarta tentativa e depois de dar 100 dólares ao porteiro, conseguiu entrar e perceber a essência do espaço.
“Foi o primeiro sítio onde percebi que a porta destes locais noturnos tinha importância”, explicou.
De regresso a Madrid, começou a procurar um teatro. Pouco tempo depois encontrou o espaço que acabaria por se transformar numa das salas mais conhecidas da capital espanhola: a Joy Eslava.
A discoteca abriu num momento marcante em Espanha, após a tentativa de golpe de Estado que ficou conhecida como o 23-F, em 1981. Devido ao acontecimento político, o país vivia um período de transformação e Madrid começava a afirmar-se como uma cidade mais aberta e culturalmente inquieta. A Joy Eslava tornou-se então rapidamente num ponto de encontro.
O pós festa que gerou um novo negócio
Enquanto geria a Joy Eslava, Pedro Trapote começou a reparar num hábito: quando as discotecas fechavam, centenas de pessoas procuravam algo para comer antes de regressarem a casa.
Muitas delas dirigiam-se para a Chocolatería San Ginés. E ideia ficou-lhe na cabeça.
A San Ginés, fundada em 1894, já era uma referência de Madrid, mas Pedro acreditou que aquele negócio tinha ainda muito para crescer. Acabou por adquirir a histórica chocolataria e transformou-a num dos seus principais projetos empresariais.
Hoje, o estabelecimento recebe cerca de dois milhões de visitantes por ano e é conhecido pelos churros com chocolate.
“É um produto muito humilde, os churros com chocolate, mas muito agradável”, admite.
O negócio deixou há muito de estar limitado à pequena rua do centro de Madrid e a marca com mais de 130 anos já transitou para cidades como Austin, Miami, Porto e Lisboa. E a expansão internacional vai continuar. Recentemente, foi inaugurado um novo espaço em Manila, enquanto continuam a ser estudadas outras oportunidades.
“Tenho a esperança de que, enquanto Deus me der forças, possamos continuar a ampliar este conceito”, afirmou o empresário ambicioso, que já pensa levar o conceito do pequeno-almoço da histórica chocolateria a hotéis de luxo.
Contudo, o dinheiro não é o que mais importa para o empresário.
“Não chego aos €500 de pensão e pago €300 de contribuição como trabalhador independente”, afirma o trabalhador com 58 anos e sete meses de descontos e uma pensão reduzida por continuar à frente dos negócios.
No entanto, para Pedro Trapote, continuar ativo não parece ser apenas uma questão financeira. É uma forma de estar.