O granizo que caiu no distrito de Aveiro no sábado não foi apenas um aguaceiro de gelo particularmente intenso, segundo a análise técnica divulgada agora pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). O episódio de 5 de setembro mostra que a atmosfera reuniu naquele fim de tarde as condições necessárias para produzir granizo de grande dimensão, com pedras superiores a dois centímetros, e um downburst, uma corrente de ar que desce violentamente de uma nuvem de trovoada e que, quando chega ao solo, se espalha em várias direções.
Houve granizo e rajadas associadas a trovoadas noutras localidades do interior Norte e Centro, mas com menor intensidade. A célula mais forte formou-se ao final da tarde na região Centro, a leste de Aveiro, e atingiu sobretudo a freguesia da Branca e áreas limítrofes dos concelhos de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis.
A explicação para aquilo que aconteceu à superfície começa vários quilómetros acima dela. Naquele dia havia um anticiclone a sudeste dos Açores, um vale depressionário entre Marrocos e a Península Ibérica e outro vale depressionário em altitude, a oeste de Portugal continental. Sobre o território estava uma massa de ar instável, com possibilidade de chuva, mas que se mantinha relativamente seca nos níveis mais baixos. Foi neste ambiente que começaram a formar-se aguaceiros e trovoadas durante a tarde.
Uma granizada é um episódio de queda de granizo em quantidade significativa. As pedras começam a formar-se no interior das grandes nuvens de trovoada, onde fortes correntes ascendentes (podem ter até 5 km) conseguem transportar pequenas partículas de gelo para regiões muito frias da nuvem. Aí encontram gotículas de água que permanecem líquidas mesmo abaixo de 0ºC e que congelam quando entram em contacto com o gelo, formando camadas sobre camadas.
Foi a força dessas correntes ascendentes que se tornou importante no episódio de Aveiro. A análise do IPMA identifica uma combinação de forte instabilidade, humidade disponível e cisalhamento vertical do vento. Cisalhamento significa que o vento era relativamente fraco nos níveis inferiores da atmosfera e muito mais intenso em altitude. Ao final da tarde, numa pequena zona de convergência formada a norte de Coimbra, o vento era particularmente forte junto dos 300 hPa, aproximadamente nove quilómetros acima do solo.
Essa diferença de velocidade com a altitude inclinou as células de trovoada. É um detalhe muito importante: ao inclinar a nuvem, o cisalhamento ajuda a evitar que toda a precipitação caia diretamente sobre a corrente de ar que a alimenta. A corrente ascendente consegue assim manter-se organizada e o gelo permanece mais tempo dentro da nuvem.
Foi isso que, segundo o IPMA, favoreceu “a formação e o crescimento prolongado do granizo”, explicando simultaneamente a quantidade de gelo e a dimensão das pedras que chegaram ao solo. As próprias imagens do radar mostram o que estava a acontecer dentro da nuvem. Nos cortes verticais feitos entre as 19h26 e as 19h46, o IPMA identificou volumes extensos de gelo, incluindo graupel e granizo de maior dimensão.
O graupel é importante para perceber como cresce uma pedra de granizo. Forma-se quando as tais gotículas de água sobrefundida — água líquida a temperaturas inferiores a 0ºC — congelam sobre cristais de gelo. Produzem pequenos grânulos opacos, mais macios do que uma pedra de granizo. Dentro de uma trovoada suficientemente forte, essas partículas podem continuar a acumular gelo e a crescer.
Em Albergaria-a-Velha cresceram o suficiente para que fossem observadas pedras com mais de dois centímetros de diâmetro. Ou seja, uma granizada não depende apenas de “haver muito gelo” dentro da nuvem. Para produzir pedras grandes é especialmente importante quanto tempo as correntes ascendentes conseguem manter esse gelo em crescimento antes de a gravidade vencer e o fazer cair. Neste caso, a estrutura da trovoada favoreceu esse crescimento prolongado.
A mesma trovoada explica as rajadas que provocaram parte dos estragos. Nos níveis inferiores da atmosfera ainda existia ar relativamente seco. Quando grandes quantidades de chuva e granizo começaram a cair, parte da água evaporou e parte do gelo passou diretamente do estado sólido para vapor. Ambos os processos retiram calor ao ar, que arrefeceu, ficou mais denso e desceu.
A precipitação também teve peso porque contribui para arrastar ar consigo. O IPMA conclui que a combinação destes processos intensificou a corrente descendente até produzir um fenómeno do tipo downburst.
Um downburst é uma corrente de ar que desce rapidamente de uma nuvem de trovoada e, quando atinge o solo, se espalha horizontalmente em várias direções. Esse fenómeno pode produzir rajadas muito fortes numa área relativamente pequena. Foi o que aconteceu na região de Albergaria-a-Velha: o ar atingiu o solo e ao espalhar-se de forma intensa junto à superfície produziu as rajadas associadas aos danos causados.
Neste caso não se trata apenas de uma interpretação feita depois de observados os estragos. O downburst ficou registado no radar. As imagens Doppler do radar de Arouca mostram, entre as 19h26 e as 19h46, a evolução da velocidade do vento dentro da célula. A partir das 19h36, o IPMA identifica a assinatura característica do estabelecimento do downburst: o ar chega à superfície e começa a espalhar-se para lados opostos.
É também isso que distingue um downburst de um tornado. No tornado, o elemento essencial é uma coluna de ar em forte rotação. Num downburst, o movimento dominante é descendente e depois divergente junto ao solo. Os dois podem provocar danos importantes, mas a dinâmica é diferente.
No caso de Aveiro, a análise do radar aponta para downburst, e o IPMA relaciona diretamente essa corrente descendente com as fortes rajadas registadas na região.
Granizo e vento forte não foram, portanto, dois acontecimentos independentes. Foram dois resultados da mesma trovoada.
O episódio começou várias horas antes e abrangeu uma área muito maior. Entre as 11h00 e as 14h00, os aguaceiros e trovoadas concentraram-se sobretudo nas zonas mais ocidentais do Norte e Centro. Entre as 15h00 e as 17h00, a atividade estendeu-se ao interior, sobretudo a Trás-os-Montes, onde as descargas elétricas se tornaram mais numerosas.
Mas a célula responsável pelos danos mais significativos só se organizou ao final da tarde. Formou-se então a pequena zona de convergência a norte de Coimbra, num ambiente de forte vento em altitude, e desenvolveu-se uma convecção intensa, mas muito localizada, que atingiu a Branca e as áreas próximas de Albergaria-a-Velha e Oliveira de Azeméis.
Uma trovoada severa não precisa de abranger um distrito inteiro. Pode desenvolver-se numa área relativamente pequena e, durante um período curto, produzir granizo grande, precipitação intensa e rajadas capazes de provocar estragos. Quando isso aconteceu, Aveiro estava sob aviso amarelo de trovoada do IPMA, válido até às 22h00, que previa precisamente a possibilidade de aguaceiros fortes, granizo e rajadas intensas.
O episódio ocorreu poucas semanas depois de o IPMA ter alterado, em agosto, os critérios usados para emitir estes avisos. A avaliação deixou de olhar apenas para a distribuição espacial e temporal das descargas elétricas e passou a incorporar de forma mais explícita os fenómenos severos que podem acompanhar uma trovoada: chuva intensa, rajadas fortes e granizo.
O que aconteceu no sábado reuniu os três. Mas foi a combinação de dois deles — pedras de gelo que tiveram condições para crescer durante mais tempo dentro da nuvem e uma massa de ar que depois desceu violentamente até ao solo — que deixou mais marcas em Albergaria-a-Velha.
“Nós, através dos mapas de produção meteorológica que temos, sabíamos que vinha alguma chuva aqui para o concelho de Albergaria-a-Velha, acompanhada de trovoada. Chuva essa que não seria muito significativa. O que é certo é que na freguesia da Branca, local das Laginhas, aconteceu um fenómeno meteorológico extremo”, disse João Oliveira, responsável da Proteção Civil de Albergaria-a-Velha.
Em causa esteve “muita massa de água caída num período curto de tempo, e associada a essa chuva teve muito vento e granizo”, em que “as bolas chegavam a ter entre dois e três centímetros”.
“Juntando estes três fatores, tivemos muitos prejuízos em termos de telhados – levantou-se telha de cerâmica e telha de chapa – viaturas que estavam no exterior e mesmo viaturas que estavam debaixo de telha também foram atingidas”, contou o responsável.
Também o responsável pela Proteção Civil de Oliveira de Azeméis, Alberto Godinho, relatou uma “situação extrema” vivida em Pinheiro da Bemposta e Palmaz, falando numa “dispersão de ocorrências” que também incluiu queda de árvores além de “duas habitações com danos em telhados, não muito significativos”.
“Houve uma ou outra situação em que houve também danos como consequência das quedas de árvores: danos nas linhas de instalação elétrica e de telecomunicações”, contou. O responsável relatou ainda uma situação em que num edifício com cobertura em chapa, “as chapas vieram para a via pública”, além de já ter sido feita a “limpeza da via com detritos”.