Quando os dois aviões atingiram as Torres Gémeas em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001, a ameaça que dominaria as décadas seguintes parecia ter um nome: terrorismo internacional. Vinte e cinco anos depois, Osama bin Laden está morto, o “califado” do Estado Islâmico foi destruído e os EUA saíram do Afeganistão. Mas muitas das consequências daquele dia continuam presentes.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google
Escolher ›

Afeganistão, Iraque, Al-Qaeda, Estado Islâmico, centenas de milhares de mortos e uma fatura de vários biliões de dólares fizeram parte da longa sequência iniciada depois dos atentados que mataram 2.977 pessoas.

E quando o Ocidente começou finalmente a deixar para trás duas décadas dominadas pela “guerra ao terror”, encontrou uma ameaça muito diferente à porta: uma guerra de grande escala na Europa e uma Rússia disposta a desafiar a ordem de segurança construída depois da Guerra Fria.

Segundo uma análise publicada pelo ‘The Independent’ a propósito dos 25 anos do 11 de Setembro, só os EUA gastaram cerca de 4,37 biliões de dólares — aproximadamente 3,7 biliões de euros — nas guerras no Afeganistão, Iraque e Síria, de acordo com estimativas do projeto ‘Costs of War’, da Universidade Brown.

Tudo começou em poucas horas

Continue a ler após a publicidade

Continue a ler após a publicidade

A dimensão da resposta ao 11 de Setembro começou a perceber-se praticamente de imediato.

Pela primeira e, até hoje, única vez na história da NATO, foi acionado o Artigo 5.º do Tratado do Atlântico Norte: um ataque contra um membro da Aliança seria considerado um ataque contra todos.

Os EUA e os aliados avançaram para o Afeganistão com dois objetivos centrais: destruir a Al-Qaeda e derrubar os talibãs, que tinham permitido a Osama bin Laden operar a partir do país.

No final de 2001, o regime talibã tinha sido derrubado e Bin Laden tinha sido visto a fugir da região montanhosa de Tora Bora, junto à fronteira com o Paquistão.

Parecia que a guerra poderia ser curta.

Continue a ler após a publicidade

Acabaria por durar 20 anos.

Depois do 11 de Setembro mudou também a forma de combater

A luta contra organizações terroristas levou igualmente os EUA a adotarem uma doutrina de ataques preventivos.

Membros de organizações consideradas terroristas passaram a poder ser atacados mesmo quando não existia uma ameaça imediata em curso, numa estratégia que se estendeu a países como o Paquistão.

O ‘The Independent’ recorda que estas operações provocaram também mortes de civis e alimentaram críticas sobre execuções extrajudiciais e os limites jurídicos da chamada “guerra ao terror”.

Continue a ler após a publicidade

Ao mesmo tempo, a própria resposta ocidental começou a ser explorada pela propaganda extremista.

A Al-Qaeda conseguiu transformar as guerras e a presença militar ocidental em instrumentos de recrutamento, atraindo novos seguidores não apenas no Médio Oriente e na Ásia, mas também na Europa e através de espaços de radicalização online.

2003 mudou novamente a história

Dois anos depois dos atentados, os EUA e o Reino Unido invadiram o Iraque.

Saddam Hussein foi rapidamente derrubado, mas a guerra abriu uma nova frente que acabaria por durar anos.

As armas de destruição maciça utilizadas como uma das principais justificações para a invasão não foram encontradas e também não foi demonstrada a ligação operacional entre o regime iraquiano e a Al-Qaeda sugerida antes da intervenção.

Continue a ler após a publicidade

O conflito mergulhou posteriormente numa insurgência onde se cruzaram antigos elementos do regime de Saddam, milícias xiitas apoiadas pelo Irão e organizações jihadistas.

Foi nesse terreno que uma nova ameaça começou a crescer.

Da Al-Qaeda nasceu uma ameaça ainda maior

O Estado Islâmico emergiu no Iraque e acabaria por conquistar vastas áreas deste país e da vizinha Síria.

No auge da expansão, proclamou um “califado”, controlou cidades com milhões de habitantes e atraiu milhares de combatentes estrangeiros.

A organização utilizou execuções públicas, atentados e uma sofisticada máquina de propaganda para espalhar terror muito para além dos territórios que controlava.

Continue a ler após a publicidade

Mosul, no Iraque, e Raqqa, na Síria, tornaram-se os dois grandes símbolos desse poder.

Até ao final de 2017, ambas tinham sido reconquistadas por forças locais apoiadas por uma coligação internacional, acabando com o controlo territorial que sustentava o “califado”.

Mas nessa altura já tinham passado 16 anos desde o 11 de Setembro.

Uma fatura de 4,37 biliões de dólares

As guerras tiveram também um custo financeiro gigantesco.

O projeto ‘Costs of War’, da Universidade Brown, estima em 4,37 biliões de dólares os gastos dos EUA nas guerras no Afeganistão, Iraque e Síria, segundo os números citados pelo ‘The Independent’.

A estes custos somam-se centenas de milhares de vidas perdidas e as consequências humanas, económicas e políticas sentidas nos países diretamente envolvidos.

Continue a ler após a publicidade

Quando os EUA abandonaram definitivamente o Afeganistão em 2021, os talibãs — derrubados nas primeiras semanas da intervenção iniciada depois do 11 de Setembro — regressaram ao poder.

Vinte anos de guerra terminavam praticamente no ponto onde tinham começado no que respeitava ao controlo político do país.

Enquanto isso, outra ameaça crescia

Durante grande parte destas duas décadas, as atenções militares e políticas dos EUA e de vários aliados estiveram concentradas no Médio Oriente, Afeganistão e terrorismo internacional.

Na Europa, entretanto, a relação com a Rússia deteriorava-se.

Vladimir Putin assistiu ao alargamento da NATO e da União Europeia a países da Europa Central e de Leste anteriormente pertencentes à esfera de influência soviética.

Em 2022, a Rússia lançou a invasão em grande escala da Ucrânia.

A ameaça que passou a dominar a segurança europeia já não era uma organização terrorista escondida em montanhas do Afeganistão.

Continue a ler após a publicidade

Era novamente um Estado, com forças armadas convencionais, armas nucleares e capacidade para travar uma guerra de grande escala no continente europeu.

Do terrorismo à guerra entre Estados

É talvez esta uma das maiores mudanças destes 25 anos.

Em 2001, o Artigo 5.º da NATO foi acionado para responder ao ataque de uma organização terrorista.

Hoje, os países da Aliança voltaram a preparar-se sobretudo para a possibilidade de um confronto convencional entre Estados.

A invasão da Ucrânia levou vários membros europeus da NATO a aumentar os orçamentos de defesa, reconstruir capacidades militares e voltar a discutir ameaças que pareciam pertencer à Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, permanecem muitas das estruturas criadas depois do 11 de Setembro: legislação antiterrorista, sistemas de vigilância, controlos reforçados nos aeroportos, operações de inteligência e uma arquitetura de segurança profundamente diferente daquela que existia na manhã de 11 de setembro de 2001.

25 anos depois, acabou realmente o 11 de Setembro?

Bin Laden foi morto em 2011. O território controlado pelo Estado Islâmico foi reconquistado. Os últimos militares dos EUA abandonaram o Afeganistão em 2021.

Mas é mais difícil estabelecer uma data para o fim das consequências do 11 de Setembro.

As guerras que se seguiram alteraram o Médio Oriente, transformaram a política externa dos EUA, mudaram a forma como o terrorismo é combatido, contribuíram para novas vagas de radicalização e consumiram biliões de dólares.

E quando esse ciclo começou finalmente a encerrar-se, a Europa entrou noutra guerra.

É por isso que, 25 anos depois, a pergunta já não é apenas como o 11 de Setembro mudou o mundo.

É perceber quanto desse mundo ainda existe hoje.