Mais de quatro horas depois, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, ouvido esta terça-feira na Comissão dos Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias, manteve-se inflexível relativamente ao cargo que ocupa, garantindo que só o deixará por vontade do primeiro-ministro ou se o Governo cair. Entretanto, afirmou, mantém “confiança” em si próprio para continuar a desempenhar as funções governativas.
Durante duas rondas de perguntas, que foram marcadas (principalmente na segunta parte) pelos deputados do Chega a tentar encostar o ministro à parede, Luís Neves justificou a presença do atrelado utilizado para transportar produtos químicos destinados a separar droga de outros produtos nas instalações da empresa ConstruBarcelos – que tinha sido contratada pelo ministro para fazer obras na sua casa de Odemira – com a falta de condições dadas à PJ para armezenar este tipo de produtos.
Numa resposta dada à líder parlamentar do PCP, Paula Santos, o ministro justificou que o atrelado tinha sido colocado “à guarda de uma empresa privada”, tal como apontara a deputada comunista, porque a PJ, em 2025, enfrentava “grandes dificuldades” logísticas, lembrando que um dos armazéns estava cheio de azeite adulterado e que a ASAE “durante dois anos” não encontrou espaço para o material. Garantiu que a PJ tem pedido sucessivos orçamentos para financiar a destruição dos produtos, depois de o orçamento, já confirmado pelo Ministério da Justiça, ter referido 144 mil euros, que não foram na altura alocados para o efeito.
Luís Neves teve ainda momentos de humor na sua intervenção, especialmente na troca de impressões mais acesa, que ocorreu com o deputado da IL Rui Rocha. Questionado pelo liberal se pertence ou pertenceu à Maçonaria, Luís Neves assegurou que não: “Pertenço ao Clube Académico do Fundão, ao Clube Recreativo do Feijó e ao Atlético Clube da Almada.”
Em dois momentos, houve ainda oportunidade para citar o fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro, mas não por parte da bancada social-democrata.
Primeiro, o líder parlamentar do Chega, Pedro Pinto, evocou o antigo primeiro-ministro lembrando as suas palavras “Primeiro o país, depois o partido e por fim a circunstância pessoal.”
“O senhor faz ao contrário”, criticou o deputado do Chega, encerrando a intervenção do partido na primaira ronda de perguntas.
Sá Carneiro voltou a ser lembrado uma segunda vez, mas pela deputada do PS Isabel Moreira, lembando que “a política sem ética é mesmo uma vergonha”. A deputada socialista, numa referência ao Chega e a toda a história que conduziu à moção de censura avançada pelo partido de André Ventura contra o Governo, considerou ainda que o debate político não pode ser capturado por confrontações partidárias que, no seu entender, estão a degradar o regime e a obscurecer responsabilidades governativas.
Num resposta conjunta às deputadas socialistas Elsa Pais e Eva Cruzeiro, Luís Neves ainda reiterou, de forma subliminar, uma promessa que fizera na semana anterior sobre o combate ao populismo. Deste modo, o ministro da Administração Interna defendeu que “todas as pessoas devem ser protegidas, independentemente da sua origem. Este é um patamar do qual nunca sairei”, assegurou.
“Todas as pessoas devem ser tratadas com igual dignidade”, concluiu.