A investigação sobre a doença de Alzheimer entrou numa nova fase, marcada por avanços que, até há poucos anos, pareciam difíceis de alcançar. Uma publicação recente aponta para a possibilidade de a doença poder ser erradicada num futuro tão próximo que se prevê que tal aconteça nos próximos cinco anos. No entanto, os dados científicos disponíveis são mais cautelosos e apontam para uma realidade menos imediata, embora promissora.

Entre os avanços mais relevantes estão os novos tratamentos dirigidos à proteína beta-amiloide, como o lecanemab e o donanemab. Pela primeira vez, estes medicamentos demonstraram ser capazes de abrandar a progressão clínica da doença em pessoas nas fases iniciais, em vez de se limitarem a tratar os sintomas. No caso do donanemab, um ensaio clínico com mais de 1.700 participantes mostrou uma redução estatisticamente significativa do declínio clínico ao fim de 76 semanas.

Em paralelo, a investigação está a explorar uma nova geração de vacinas destinadas a estimular o sistema imunitário contra proteínas associadas à doença de Alzheimer, nomeadamente a beta-amiloide. Um ensaio clínico de fase 2 com a vacina experimental ABvac40 mostrou que esta é capaz de desencadear uma resposta imunitária sustentada, incluindo a presença de anticorpos no líquido cefalorraquidiano. Os resultados foram considerados suficientes para justificar uma investigação mais aprofundada, mas não permitem ainda falar numa vacina capaz de prevenir ou eliminar a doença.

A deteção cada vez mais precoce da doença é outro dos pilares desta transformação. A identificação de alterações biológicas antes de uma deterioração cognitiva significativa poderá permitir que os tratamentos sejam administrados numa fase em que ainda existe maior capacidade de preservar a função cerebral.

As previsões são claramente otimistas, resta saber se são realistas.

Por isso, a VERSA consultou a Dra. Carolina Pires, médica neurologista, que comenta estes avanços sobre a doença de Alzheimer.

Dra. Carolina Pires

Dra. Carolina Pires, médica neurologista

“É com entusiasmo que recebemos estas notícias de ‘erradicação da Doença de Alzheimer’ dentro de cinco anos, uma doença altamente prevalente que a todos nos afeta de alguma forma. De facto foram realizados avanços muito importantes nos últimos anos, com tratamentos (os anticorpos anti-amiloide, que já são administrados em Portugal) que pela primeira vez mostraram uma redução da velocidade da progressão da doença de cerca de 30%”, começa por dizer.

Só que há, como seria de esperar, um “mas”.

“Contudo, mesmo com o entusiasmo de ter finalmente uma tratamento modificador da doença, infelizmente penso que ainda seja prematuro dizer que a doença desapareça totalmente no espaço de cinco anos. A Doença de Alzheimer é uma doença complexa, sendo que para além da beta-amiloide muitos outros fatores podem estar envolvidos e que ainda não são totalmente esclarecidos. Com efeito, mesmo com a remoção total das placas amiloides a nível cerebral, que é possível com estes tratamentos, os doentes continuam a progredir (embora mais lentamente). Estamos otimistas pois para além destes tratamentos atualmente já disponíveis, estão a ser realizados muito estudos, nomeadamente com formas de administração mais eficazes na penetração dos tratamentos no sistema nervoso central, outros alvos (como a proteína tau), combinações de vários tratamentos, ou mesmo tratar populações em risco de forma mais precoce, quando os tratamento parecem ser mais úteis”, remata a especialista.